A Proposta

2269 Words
Abro os olhos devagar, sentindo o corpo inteiro dolorido. Duas coisas ficam claras imediatamente: a primeira é que não estou no meu apartamento. A segunda…minha cintura dói! Levanto da cama grande e visto as roupas que encontro dobradas sobre uma cadeira absurdamente luxuosa. Não me dou ao trabalho de tentar entender onde estou. Meu foco é simples: sair daqui. Vou até a porta com cuidado, tentando escutar qualquer coisa. Nada. Abro e encontro um corredor imenso, longo demais para parecer real. Caminho em silêncio, tentando me lembrar do que aconteceu na noite passada para eu acabar aqui. Paro por um instante quando a dor na cintura lateja. Respiro fundo e sigo. — Ei, você! — alguém grita. Um homem. — Não vai querer fazer isso — reviro os olhos ao me virar. Ele aponta uma arma para mim. — Confia em mim, não vai mesmo. Ainda assim, o i****a avança. Eu o desarmo rápido demais para que perceba o erro e acerto sua cabeça com a própria arma. Ele cai desacordado. — Eu avisei — resmungo. Quando finalmente encontro as escadas, desço direto para a entrada da mansão. Assim que atravesso a porta, sou cercada por três homens. Estão desarmados. Infelizmente para eles. O fim é o mesmo do primeiro. Mas atraí atenção demais. Percebo tarde demais que não será fácil sair. O portão está longe o suficiente para que eu leve um tiro se tentar correr. Alvo fácil. — Ponha a arma no chão! — Me deixem ir embora, p***a! — grito, segurando a arma que tomei do primeiro. — Se não largar, vamos atirar! — Então se preparem — ergo a arma na direção do i****a que ameaça. — Che cazzo! Reconheço a voz antes mesmo de me virar. — Uau, nem parece que levou um tiro ontem à noite. Belinda ri ao se aproximar. Agora a memória clareia. O tiro. Ivan. A mansão. — Srta. Fratelli, não se aproxime… — Draco, está tudo bem — ela sorri. — Não é, Laura? — Só quero ir embora — rosno. — Meu irmão quer falar com você — aponta para a mansão. — Está em reunião, mas pediu para avisar assim que acordasse. — Não tenho nada para falar com ele. — Ainda assim— — Eu quero ir embora! — aponto a arma para ela. Belinda ergue uma mão, sinalizando para alguém atrás de mim. — Para com isso — revira os olhos. — Você não vai— Antes que termine, a puxo para mim, usando seu corpo como escudo. Armas se erguem instantaneamente. — Como você é cabeça dura — reclama Belinda. — Solta ela agora! — Draco ordena. — Não façam nada i****a! — Belinda grita. — Draco, para agora! Ela sinaliza novamente, furiosa. Uso seu corpo como proteção enquanto recuo até o portão. — Achei que tínhamos construído uma amizade verdadeira — diz, num tom quase divertido. — Não é pessoal — respondo. — Não quero falar com seu irmão, nem me envolver com os problemas dele. — o portão começa a se abrir — Levar um tiro já foi o suficiente. — Você o salvou. — E daí? — Ele só quer agradecer. — Não pareceu — balanço a cabeça. — Seus seguranças estavam prontos para me matar. As formas de agradecimento mudaram e eu não fui avisada? — Esses imbecis... Solto Belinda com cuidado, mantendo-a à minha frente. — Bom — ela põe as mãos na cintura — Foi divertido ser sua amiga por uma noite. Agora corre. Eu fico de escudo. Coloco a arma em sua mão e corro. Ouço Belinda berrando ordens. Ninguém me segue. Ninguém atira. § No meu apartamento, coloco o celular para carregar. Demora uma eternidade para atingir míseros 20%. As mensagens de Amália chegam. Meu peito pesa. Amália: Você está bem? Amália: Por favor, me responda estou preocupada. Respondo tentando tranquilizá-la. Já esperava a reação. Tudo o que posso fazer é pedir desculpas. As próximas mensagens a deixam chateada, pois coloco limites e a afasto. E isso dói. Não gosto de magoar Amália. Ela querer mais da minha presença deveria me fazer feliz. Mas me deixa irritada. Porque eu queria poder fazer parte da vida dela. Odeio decepcioná-la. Mas preciso manter distância se quiser descobrir por que Ivan quer aquele italiano morto. Abro o notebook e pesquiso seu nome. Nada que o ligue diretamente à máfia. Óbvio. Especulações aqui e ali, nada concreto. Ele não é burro. Pesquiso mais fundo. Idade. Propriedades. Fotos. Ele vive exatamente como alguém na posição dele deveria viver. Luxo. Excesso. Poder. Das histórias que ouvi, sempre ficou claro: imbatível. Sem piedade. Na noite em que o conheci, fiz uma pesquisa rápida antes de recusar o trabalho. Agora, olhando com mais atenção, continuo sem entender por que Ivan o quer morto. O pedido veio do lado russo. Mas o homem que tentou matá-lo era italiano. Isso não bate. § Forço o joelho nas costas do homem sob mim, puxando a corda enrolada em seus pulsos, cintura e pescoço. Qualquer movimento só o sufoca mais. — Vamos lá — repito, entediada. — Qual a ligação entre russos e italianos? — E-eu não sei! — Seu parceiro tentou matar um amigo meu — me aproximo. — Kaleo Fratelli. Reconhece? — Merda! Eu não sabia que era alguém tão poderoso! — tosse, sangue escorrendo do nariz e da boca. Uso o desbloqueio facial no celular dele. O i****a se debate. Em poucos minutos consigo a confirmação. — Você mentiu — murmuro. — N-não Puxo a corda. — Estou com seu celular, seu merda. Até combinaram dividir o pagamento. Afrouxo a corda, esperando não tão pacientemente que ele recupere o fôlego. — Vamos retomar. — respiro fundo — Qual a ligação entre o lado russo e o lado italiano? — Por favor, por favor, eu juro que não sei! — chora desesperado. — Que patético. — balanço minha cabeça. — Por favor, eu te dou dinheiro, faço qualquer coisa. — Eu tenho mais dinheiro do que todos os seus colegas de trabalho. — bufo frustrada — Poderia comprar todos vocês, facilmente. Me levanto, segurando a corda com força, arrasto seu corpo, enquanto o homem grita, para que eu pare. Já na beira, o chuto até que caia do alto do prédio abandonado e então, ouço seu pescoço quebrar. — Sortudo — murmuro. Ponho a mão na cintura, sentindo uma fisgada. Respiro fundo me recompondo, o médico que cuidou de mim na mansão dos Fratelli sabia o que estava fazendo, visto que, os pontos foram excelentes. O problema sou eu, ao invés de estar descansando depois da noite agitada que tive, estou tentando descobrir qual a razão dessa aliança. Olho para a noite estrelada, desejando nada além da minha cama agora. § Estaciono meu carro, respirando fundo mais uma vez antes de abrir a porta e sair. Encontro a portaria vazia, como de costume, César se recolhe para dormir no mesmo horário de sempre. Por livre e espontânea pressão feita por mim. O velho trabalha desde os seis anos, não foi nada fácil convencê-lo a tirar umas horas a mais de descanso, assim como uma folga extra durante a semana. César usava como argumento o fato do síndico não lhe dar mais folgas. Por essa razão comprei o prédio inteiro, eximi o antigo síndico do cargo, colocando alguém novo no lugar e ameaçando muito claramente a pessoa, para dar mais folgas a César, que eu cobriria os custos de contratar um novo funcionário. O velho ainda não se conforma com o sua atual carga horária de trabalho, tampouco sabe que fui a responsável por trás de tudo, embora, às vezes acredito que ele desconfie, visto que, eu era a única pessoa que ficava o tempo todo no seu pé. Se isso for verdade, César tratou de não mencionar. Saio do elevador indo em direção ao meu apartamento, destranco a porta entrando em sequência mas logo paro subitamente meus passos. Meu instinto enviando arrepios pela minha nuca. Fechando a porta do apartamento, olho para todos os lados. Há alguém aqui, puxo minha arma da cintura, quando um cheiro familiar me atinge. — Você é insistente, Sr. Fratelli — murmuro, apontando para a escuridão. — Não me deixou opção. Ele acende o abajur, está sentado no meu sofá. Meu gato no colo dele. Traidor. Bufo e guardo a arma. — Seja lá qual for o motivo — aponto para a porta — Vá embora. — Minha irmã contou o que fez — ele se levanta. — Ela gosta de você. Porque mesmo após ser feita de refém disse que não tinha a intenção de machucá-la. — É a verdade. — franzo a testa. — É por isso que está aqui? — Precisamos conversar, se não tivesse fugido... — Fugi porque seus malditos seguranças, queriam me matar! — Belinda mencionou isso. Esfrego o rosto, exausta. — Vá embora, Kaleo. Ele me observa em silêncio. — Por que Ivan Volkov quer você morta? Fecho os punhos. — Você é esperto demais para me fazer este tipo de pergunta sem sequer desconfiar da razão. — Ivan é um homem vingativo, se ele quer matar uma assassina de aluguel pode ser por causa de dois fatores. — o encaro —Você matou alguém de sua confiança ou atrapalhou os planos dele. Sorrio sem humor. — Por que precisa dessa resposta? — Você salvou minha vida — diz impaciente. — Tenho uma dívida. — Se eu contar vai me deixar em paz? — Vou decidir quando tiver minha resposta. Respiro fundo, decidindo lhe dar apenas resquícios da verdade. — Eu quase matei ele anos atrás, em uma missão. Achei que aquele homem estava lá por minha causa. Não te salvei por escolha. — aponto para o abdômen. — Levei um tiro, lembra? O sorriso dele desaparece. — Como está? — Cicatrizando. — Devia estar descansando. — E eu estaria, se você fosse embora! Ele suspira, sério. — Não foi só isso, não é? Solto minha respiração. — Não. — corto o encarando, sentindo o cansaço das últimas horas me consumir talvez isso esteja me deixando falar abertamente com ele, estou sem forças para mandar esse homem embora — Ele matou toda a minha família e eu quis me vingar, ainda quero. — Lamento. Vou até a geladeira, pego água. — Isso é o que quero propor. — cruza os braços a frente do corpo — Quero que mate Volkov, você é uma das raras pessoas que já chegou perto o bastante para mata-lo. Vou te oferecer proteção e o valor que quiser. — faz um gesto de cabeça — Até que, consiga fazer o que precisa para se livrar desse problema e me livrar de um inimigo em potencial. — Alguém como Volkov é quase intocável, infelizmente ele é muito poderoso. Ele concorda e por alguns instantes parece ponderar por qual caminho seguir. — Se case comigo — propõe. Sinto meus olhos dobrarem de tamanho, diante da sua proposta sem sentido. — O-oque? — quase engasgo com a água. — Case comigo. — repete tranquilamente. — Enlouqueceu? — pergunto. — Quer se livrar de, Volkov ou não? — ergue as sobrancelhas grossas. — O que uma coisa tem a ver com a outra? — ponho a garrafa de água encima do balcão. — Há pessoas aliadas a Volkov.Traidores. — rosna irritado — Preciso que você se camufle, manteremos contato constante. Tudo o que necessitar estará a sua disposição, não posso dar tanta liberdade para uma completa estranha. — soa como se fosse óbvio demais — Sendo uma Fratelli poderá agir sem ser incomodada, não levantaria suspeitas. — E um casamento repentino? — ergo uma sobrancelha — Acha que alguém vai acreditar que nós somos um casal apaixonado? — Ninguém precisa acreditar, todos os casamentos da minha família foram arranjados. — da de ombros indiferente — Não sermos um casal apaixonado não levantará suspeitas. — E quando eu concluir a missão? — pergunto — O que acontece depois? — Como assim? — Vamos nos divorciar? — cruzo meus braços — Sei muito bem que na Máfia, não existe isso. — Eu sou o Capo. — dá de ombros — O divórcio será problema meu, duvido que alguém diga algo. — E quanto ao sexo? — estreito meus olhos. — Quer t*****r comigo? — sorri malicioso. A possibilidade não é r**m, mas, a tiro da minha mente rápido o suficiente para não ser pensada demais. — Vai ser um casamento por contrato, não terá sexo. — inclino minha cabeça — Para voce é um problema? — Todo contrato tem suas cláusulas... Reviro meus olhos. — Kaleo. — ralho. Ergue suas mãos em sinal de rendição. — Não é um problema. — bufa — Tenho contatos para isso. — Prostituitas? — Já está com ciúmes, amore mio? — Pode esquecendo esse apelido ridículo. — decreto. — Prefere, tesoro? — Você é insuportável. — balanço a cabeça. — Todo marido vem com esse pré requisito. — faz piada. Massageio minhas têmporas com os dedos. — E então, Laura, quer se casar comigo? Quero matar Ivan Volkov, há mais tempo do que consigo me lembrar. E o que, Kaleo está me oferecendo embora, seja loucura indica ser o mais próximo que posso chegar desse desgraçado. Fecho os meus olhos, os abrindo para, encarar Kaleo, ele acabou de me pedir em casamento. O Chefe da máfia italina, poderoso em tantos territorios que é difícil dizer a proporção, ele quer se casar comigo para que eu possa obter minha vingança. Respiro fundo. — Você é louco, Kaleo Fratelli. — Vou considerar isso como um sim, tesoro.
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