KALEO FRATELLI
Travo o maxilar ao reconhecer o mesmo desgraçado que gritou com ela dentro da boate, minutos atrás.
— Desculpe o incômodo, Sr. Fratelli — suspira, fingindo constrangimento. — George.
Percebo que a loira fica tensa quando ele se aproxima e retira minha arma.
— O que você quer? — pergunto, voltando minha atenção para ele.
— Apenas que venha comigo.
— E se eu me recusar, c*****o? — elevo o tom.
— Não estou pedindo.
— Deixe ela ir embora...
— Negativo — sorri.
Olho para Laura esperando ver medo. Não há nenhum. Seus olhos azuis estão quase cinza. Reconheço aquele brilho imediatamente.
Ódio.
Ela me encara como se quisesse se desculpar por algo. Não faço ideia do quê.
George faz um som irritante, claramente impaciente, e aponta para onde devo ir. Caminho na direção indicada.
Fecho os olhos por um instante, tentando pensar na melhor forma de sair dessa sem levar um tiro fatal. Não tenho tempo.
Sou chutado com força. O golpe quase me faz cair de joelhos, mas resisto. O segundo vem logo em seguida. Depois outro. Até que estou ajoelhado no chão, exatamente como ele quer.
Não sinto dor. Só raiva.
— O senhor Volkov lhe manda os cumprimentos.
— Vai se arrepender disso — rosno.
— Acho que não.
Ele recua alguns passos. As botas fazem barulho demais.
Ouço o disparo. O som é alto o suficiente para atordoar meus sentidos. Em seguida, a queimação no braço esquerdo.
Olho para o ferimento e me viro ao escutar um som seco. Laura está sobre ele.
Ela bate a cabeça do homem contra o chão repetidas vezes, até que ele pare de se mover.
Como diabos ela fez isso?
Ela se levanta e vem até mim. Reconheço imediatamente a arma em sua mão.
Minha Magnum .500.
Ainda estou ajoelhado, completamente sem reação. Por um segundo, penso que ela vai atirar em mim. Mas então ela estende a mão.Tive sorte. Muita sorte. Ela salvou minha vida.
— Quem é você? — pergunto, incrédulo.
— Você não vai gostar de saber, Kaleo — responde, observando meu braço. — Foi muito feio?
— De raspão — dou de ombros. — Vou sobreviver.
Ela torce os lábios. Mesmo depois de quase matar um homem com as próprias mãos, seus sentidos estão atentos.
Escutamos uma movimentação atrás de nós. Só tenho tempo de olhar por cima do ombro dela e vê-lo se mexer. Pegando a arma. Tudo acontece rápido demais.
O som da arma sendo destravada ecoa ao mesmo tempo em que Laura me empurra para longe. Antes mesmo de se virar completamente, ela atira.
Dois disparos.
O corpo cai no chão outra vez. Agora, imóvel. Ela se aproxima com cautela, ainda apontando a arma.
— Agora está morto — diz, com um leve humor na voz, devolvendo-me a Magnum.
— Por que me salvou? — coloco a arma de volta no coldre.
— Achei que estivesse me salvando — dá de ombros. — Mas está claro que não sou a única que Ivan Volkov quer morta.
— Você poderia ter ido embora, Laura — aponto para o corpo. — Ele estava focado em mim. Nem teria notado.
— Parece que não sou a única que não sabe agradecer quando é ajudada — rebate, com um sorriso sarcástico.
Balanço a cabeça e me aproximo do cadáver. Um tiro certeiro no meio da testa.
Ela atira bem. Bem demais.
O que realmente me chama atenção, no entanto, é a ausência de outro buraco de bala. Tenho certeza de que ouvi dois disparos.
Se ela acertou a testa…
— Merda — a escuto sussurrar.
Me viro a tempo de vê-la se apoiar na parede, a mão pressionando o abdômen. Sangue escorre entre seus dedos, manchando rapidamente o vestido verde.
— Cazzo! — corro até ela. — Deixe-me ver...
— Estou bem — ergue a mão livre. — Só preciso ir embora.
Ela tenta dar um passo. Eu a seguro pelo braço.
— Ficou maluca?
— Eu sei me cuidar, super-herói — pisca para mim. — Agora me deixe em paz.
— Você está perdendo muito sangue. Não vai chegar a lugar nenhum nesse estado.
— Você é médico agora?
— Sei o suficiente.
Ela fecha os olhos por um instante, respirando fundo.
— Confie em mim — digo, tocando seu braço. — É o mínimo que posso fazer.
Laura me encara, desconfiada. n**a com a cabeça. Mas não tem escolha. Suas pernas cedem e eu a pego antes que caia. Ela desmaia em meus braços.
Hospitais são sempre uma péssima ideia.
Sigo direto para a mansão Fratelli, ligando para o médico da família.
§
— Ma che diavolo! — Belinda grita ao me ver com a loira nos braços. — O que aconteceu?!
Ela não espera resposta. Corre na frente, subindo as escadas e abrindo a porta de um dos quartos de hóspedes.
— Onde está a irmã dela? — pergunto.
— Alan a levou embora depois que recebi sua mensagem.
Coloco Laura inconsciente sobre a cama.
— Você contou o que aconteceu?
— Claro que não!
Pressiono o ferimento, procurando algo que ajude a conter o sangramento.
— O que eu faço, fratello?
— Vá ao banheiro e pegue toalhas — digo. — Richard já deve estar chegando. Depois traga lençóis limpos.
— Vou buscar roupas também.
Ela sai apressada.
— O médico — Alan entra acompanhado de Richard e de uma enfermeira.
— Obrigado, Alan. Quero falar com você e Belinda depois. No escritório.
Ele acena e sai.
— Precisa de algo, Richard? — pergunto, observando-o examinar Laura.
— Não, Sr. Fratelli. Na verdade… preciso que espere lá fora.
Me afasto a contragosto.
§
— O que aconteceu? — Belinda pergunta assim que entro no escritório.
Respiro fundo, apoiando-me na mesa.
— Alguém tentou me matar esta noite.
— Cazzo! — Belinda leva a mão à boca.
— Você está bem? — Alan pergunta, examinando-me.
— Um tiro de raspão.
— Mesmo assim, deixe o médico ver isso — ele insiste.
— Como está Laura? — Belinda pergunta.
— Ela me salvou… e levou um tiro.
— Porca miséria!
— E a irmã dela?
— Achei que você fosse precisar de mim aqui.
Assinto.
— Vou precisar — digo. — Quero tudo sobre Ivan Volkov. Qualquer ligação com Laura.
— Kaleo—
— Não pergunte. — interrompo autoritário não como seu irmão mais velho, como seu Capo — Apenas faça.
— Sim, chefe.— me da um curto aceno.
Alan sai.
— Tome um banho e peça a Richard para...— Belinda segura meu rosto com as mãos — Droga, fratello.
— Estou bem, fique tranquila. — beijo o topo de sua cabeça.
Abraço minha irmã antes de sair.
§
Após horas de espera, Richard desce as escadas.
— E então?
— A bala foi removida. Nenhum órgão atingido — respira fundo. — Mas, sua namorada perdeu bastante sangue.
Não o corrijo.
— Repouso absoluto — continua, entregando-me a prescrição. — E compressas. Ela tem outros hematomas. Ferimentos antigos.
Franzo a testa.
— Sua namorada não é uma mulher comum.
— Obrigado, Richard.
Subo para vê-la. Laura dorme tranquilamente. Fecho a porta atrás de mim.
No escritório, Alan já me espera.
— Como ela está?
— Vai sobreviver.
— Não descobri nada que já não esteja ciente sobre Volkov — ele respira fundo. — Está ligado ao tráfico de crianças… e a boatos de traição contra a Rússia.
— Isso eu já sei. Quero saber se existe alguma ligação dele com Laura.
— Não há ligação — afirma — Nem qualquer informação sobre Laura Walker.
Estranho, cruzo os braços andando de um lado para o outro.
— No que está pensando?
Balanço a cabeça.
— Redobre a segurança — digo. — Vou sair, não demoro.
— Tome cuidado.
Assinto.
Ivan Volkov vai se arrepender de ter cruzado o meu caminho.