KALEO FRATELLI
Quando Belinda disse que havia encontrado sua amiga de alma sombria, tive que rir. Minha irmã tende a exagerar quando bebe. Ela me arrasta pelo braço, sem parar de falar sobre como essa tal Laura é divertida e sobre como Alan está caidinho pela irmã dela — que, aparentemente, não quer nada com ele.
Alan é especialista quando o assunto é se interessar por garotas que não o querem.
A loira está de costas para nós quando Belinda e eu nos aproximamos do trio. Não posso deixar de notar suas pernas, os saltos que usa, o vestido de seda caindo perfeitamente sobre seu corpo com curvas na medida certa.
Desvio o olhar para o “casal” que conversa animadamente e constato que a garota ao lado de Alan é a irmã de Laura. Ele me encara e sorri, como se estivesse se dando muito bem.
Enfim, a loira — Laura — se vira.
E juro que no momento que, os olhos dela encontraram os meus, senti algo atingir meu peito. Como se uma bala tivesse atravessado meu corpo.
Levo a mão ao local, apenas para me certificar de que aquela sensação não foi coisa da minha cabeça. Mas, não há nada ali. Nenhum ferimento.
Que droga foi essa?
Seus olhos são azuis, do tipo raro e me encaram, enquanto Belinda me dá uma bronca por não me apresentar. Sem esperar que eu me apresente, ela o faz e quando nome é pronunciado, Laura ergue levemente uma sobrancelha. Ninguém mais percebe. Apenas eu.
Após as apresentações, pego um copo de uísque sem gelo e tento me concentrar no que Belinda diz, gesticulando de forma exagerada.
Droga de mania italiana.
— E então, como vocês se conheceram? — pergunto, tentando mudar o assunto para algo melhor do que primeiras ressacas.
Belinda abre a boca para protestar, mas Alan se antecipa:
— Um trote, uma faca, uma arma… e nenhum rancor.
Laura solta uma risada baixa, levando a bebida aos lábios. Ela parece ser a única que entende do que meu irmão está falando, pois Amália ergue as sobrancelhas, claramente chocada. Eu realmente perdi muita coisa.
— Amália faz medicina, legal, não é? — Alan comenta, sentando-se ao lado dela.
— È vero — concordo e aceno com a cabeça.
Uma música que minha irmã adora começa a tocar. Belinda larga a bebida imediatamente.
— Cardi B! — grita, animada. — Eu amo essa música! Vamos dançar!
Laura se recusa, mas Alan — como sempre — decide acompanhar Belinda e puxa Amália pela mão para se juntar a eles. A garota ri e vai, divertida.
Talvez Belinda tenha errado de irmã ao dizer que Laura era a divertida. Pois a loira permanece ali, séria, enquanto a mais nova se acaba na pista.
— E você? — pergunto casualmente. — Trabalha com o quê, Laura?
— Resolvo problemas — responde, simples.
— Que tipo de problemas? — insisto, sem saber exatamente por quê.
Ela me lança um olhar entediado.
— Perdonami — peço em italiano. — Estou apenas curioso.
— Não gosto de falar da minha vida com estranhos.
Com esse humor, imagino que nem tenha amigos para falar de qualquer coisa.
— Vocês são daqui? — insisto outra vez.
Ela hesita, baixa o olhar por um instante.
— Brooklyn — responde por fim, voltando a atenção para a pista de dança.
Aproveito para observá-la com mais cuidado. Laura tem um corpo bonito, cabelos loiros quase dourados — difíceis de definir sob essa iluminação.
Ainda não vi seu sorriso, mas tenho certeza de que é capaz de parar uma multidão. Mesmo assim, ela não sorri. Seus lábios são fartos, rosados, e ela insiste em mordê-los. O gesto me desperta um impulso irracional de fazê-la parar.
Não gosto do que estou fazendo. Homens como eu, não observam mulheres. Homens como eu, as fodem e vão embora.
Agradeço por não ter uma família — exceto minha nonna — que me pressione a casar. Não pretendo me casar. Nem me envolver seriamente. Sabendo disso, desvio o olhar dela, pois tudo nessa mulher esta começando a me fascinar mais do que eu deveria admitir até mesmo em pensamento.
— Você não parece muito, confortável, Kaleo — Laura diz de repente e a maneira como fala meu nome faz algo dentro de mim se contorcer.
Sou obrigado a encará-la de novo. E, quando o faço, pensamentos sujos invadem minha mente.
— Não gosto muito de sair — explico, apontando para meus irmãos na pista. — Aqueles dois, decidiram que eu precisava de uma folga.
É meia verdade. E isso basta. Porque não posso dizer que fui chantageado pela minha irmã caçula.
— Eu disse exatamente isso para mim mesma esta semana — ri sozinha. — Isso… entre outras coisas.
— Um brinde ao dia de folga — ergo o copo. — E às outras coisas.
— Um brinde ao dia de folga — repete, tocando meu copo no dela. — E às outras coisas.
Ela sorri.
Seus olhos descem até minha boca. Sei que não estou imaginando quando a vejo morder o lábio inferior. Os olhos azuis voltam a encontrar os meus e ela corta o contato visual, observando o local.
— E vocês são de onde? — pergunta, irônica.
Respiro fundo para não xingar em italiano. Minha troca constante de idiomas já deve ter me entregado. Mesmo assim, decido responder a sua provocação.
— Roma.
O silêncio se estende. Laura então pega o celular da bolsa, olha rapidamente para a tela e se levanta sem me encarar.
Acompanho seus passos e vejo quando ela esbarra em um homem. Ele segura seu braço. Algo dentro de mim se agita e eu me levanto, odiando sua mão nojenta tocar nela.
— Você derramou minha bebida toda, c*****o! — grita.
— Escuta aqui, seu…
— Algum problema? — pergunto, com calma demais.
Uma garçonete se aproxima rapidamente e sussurra algo em seu ouvido. O homem empalidece, engole em seco, solta o braço de Laura e desaparece.
Olho para ela. Sua expressão é de pura irritação.
— Ai, super-herói — ela bate um dedo no meu peito. — Eu sei me defender sozinha.
O celular vibra de novo. Ela olha a tela bufa, me encara uma última vez e se afasta apressada, saindo da área VIP.
Ninguem jamais falou comigo assim, porque no instante seguinte estaria morto, ou pior. Estranhamente, isso vindo de Laura não me irrita.
Primeiro porque a loira não faz ideia de quem eu sou.
Segundo — e mais perturbador — porque vê-la irritada me excitou.
Volto ao bar e peço uma dose de uísque. Sem gelo. Viro de uma vez e peço outra.
Estou na segunda dose quando vejo o mesmo desgraçado deixando a área VIP. Tento permanecer sentado.
Ela não é problema seu, Kaleo...
Contudo desisto, antes mesmo do pensamento se formar completamente.
§
Encontro Laura em um corredor vazio. Ela fala ao telefone, em italiano, a mão pressionada na testa.
— Supponi che qualcun altro rida di questa merda…— profere nitidamente irritada— Non mi interessa quanto sei disposto a pagare. Non lo farò. Il denaro non è un problema per me, e dovresti saperlo.
"“Contrate outro para resolver sua merda”
“Não me interessa o quanto está disposto a pagar, não vou aceitar. Dinheiro não é um problema para mim, e você deveria saber.”
Ela escuta em silêncio, os ombros tensos.
— Chiedi a qualcun altro di risolverlo! — brada — Se mi chiamerai ancora, te ne pentirai.
“ Peça para outro resolver!”
“Se me ligar outra vez, vai se arrepender”
Encerra a ligação abruptamente. Seu sotaque é forte, carregado. Sexy pra c*****o.
Ela se vira, como se sentisse minha presença.
— O que você quer? — rosna.
— Você não sabe agradecer quando alguém ajuda? — ergo uma sobrancelha.
— Eu não precisei da sua ajuda.
— De nada mesmo assim — dou de ombros.
Ela revira os olhos. O celular toca de novo. Desta vez, ela o desliga.
— Trabalho? — pergunto, encostando na parede próxima.
— Não é da sua conta.
— Belinda disse que você era divertida — estalo a língua. — Minha irmã nunca esteve tão enganada.
— Acha mesmo me importo com a sua opinião?
Sorrio de sua audácia. Ela se aproxima. Cruza os braços, realçando os s***s, minha atenção cai no decote mas, me forço a encarar seus olhos novamente.
— Mas estou curiosa — para a poucos centímetros. — Por que aquele cara fugiu de você como o d***o foge da cruz?
Balanço a cabeça.
— Nessa história, eu sou o d***o, cara mia.
— Isso deveria me assustar? — murmura.
— Só não se assustaria se nunca ouviu falar sobre, Kaleo Fratelli — respondo baixo.
Seu sorriso se desfaz por um momento, ela morde o lábio inferior, mostrando que sim, ela sabe quem sou. E embora soubesse, teve a audácia de falar comigo daquela maneira, o que só me deixa mais intrigado.
— Você não me assusta Sr. Fratelli — diz, firme.
Me aproximo ainda mais. Seus olhos agora são de um azul mais claro, as pupilas se dilatam mais a cada passo que dou em sua direção.
— Você não parece o tipo de homem que corre atrás de agradecimentos por suas boas ações — ela inclina a cabeça — Então. me diga, porque veio atrás de mim?
— Quer mesmo saber, Laura? — minha voz sai rouca.
Antes que ela responda, um clique metálico ecoa no corredor.
— Odeio interromper — diz um homem, apontando uma arma para nós.