LAURA EGOROVA
— Me desculpe por estragarem sua despedida de solteira, Laura. — Belinda reclama, e logo volta a rir.
— Está tudo bem. — murmuro, olhando para o lado de fora.
Kaleo entra e se senta no banco do motorista. Ele me observa pelo retrovisor e, por longos dez segundos, ficamos apenas nos encarando… até que a voz de Belinda corta o silêncio anunciando que está com fome.
Desvio os olhos dele para a irmã, que continua rindo de qualquer coisa. Balanço a cabeça ao sentir a enxaqueca começar. O caminho segue em silêncio, exceto pelos momentos em que Belinda comenta animadamente sobre a noite.
— Fazia muito tempo que eu não me divertia assim, com uma amiga de verdade.
Sorrio para ela enquanto a ajudo a descer do carro. Draco logo se aproxima e a pega no colo.
— Laura! — ela grita, arregalando os olhos. — Você se divertiu, não é? — faz biquinho. — Per Dio, eu só fico falando de mim…
— Eu também não me divertia assim fazia muito tempo. Obrigada.
A morena solta um suspiro aliviado. Draco a leva para o quarto dela e eu sigo para o meu.
Tiro a roupa rapidamente e entro debaixo do chuveiro. Fecho os olhos, respirando fundo.
Desligo a água, enrolo uma toalha na cabeça e outra no corpo. Assim que atravesso a porta que liga o banheiro ao quarto, encontro Kaleo Fratelli sentado na minha cama, os cotovelos apoiados nas pernas. Os olhos dele percorrem meu corpo inteiro.
Não me incomoda.
Não de um jeito r**m.
— Preciso que você pare de entrar aqui desse jeito. — ralho.
— Precisava falar com você. — diz, como se isso fosse motivo suficiente para invadir meu quarto quando bem entendesse.
— Deixa eu adivinhar. — finjo pensar. — Vai dizer que eu não devia ter feito aquilo?
Belinda comprou coisas para mim e eu nem tinha percebido. Mandou entregar tudo na mansão e alguma empregada arrumou.
— Laura…
Bufando, pego uma calça de moletom cinza e uma regata preta. Sei exatamente do que sou capaz se ele disser que a culpa foi minha. Não quero perder a pouca confiança que depositei nele.
Pelo canto do olho vejo que ele está apoiado na entrada do closet, braços cruzados, olhar atento.
— Ele era um cliente antigo da minha boate. — informa. — Um homem de negócios muito conhecido e…
— Uma pena. — dou de ombros. — Acha que devo um pedido de desculpas por ter matado um dos seus melhores clientes?
Kaleo ri baixo, os olhos caindo para o chão.
— Qual é a graça?
— Você achando que vim aqui tirar satisfação.
— Então veio fazer o quê?
— Só quero saber como você está. — ele me encara. — Fiquei preocupado quando te vi.
A sinceridade me pega desprevenida.
— Não precisa se preocupar comigo. Eu estou bem. — respondo, ainda sem jeito.
— É inevitável eu me preocupar com você.
— O que fez com o corpo? — pergunto, ignorando de propósito.
Ele sorri, percebendo minha fuga.
— Só mandei tirarem da boate. Não sei o que fizeram depois.
— Achei que ele era poderoso…
— E era. Mas podia ser até Deus todo-poderoso, cara mia. — inclina a cabeça. — Se tocasse em você, morreria do mesmo jeito. Se tivesse me deixado terminar de falar, saberia.
Ele pisca e se vira para sair.
— Kaleo.
Ele para e olha para mim.
— Ele mereceu. — digo firme. — É tudo que você precisa saber. Espero que seja o suficiente.
Kaleo se aproxima, mãos nos bolsos. Me encara.
— É o suficiente.
Assinto e um alívio silencioso me invade.
— Em breve você será minha esposa, e hoje deixei isso claro para todo mundo ouvir. — ele fala sério. — Se algum desavisado repetir o erro de Thomás, vai aprender da pior forma que ninguém toca na futura Sra. Fratelli.
— Vai ter problemas por causa disso?
— Não me importo, Laura. — ele pega uma mecha do meu cabelo e a enrola no dedo. — Só quero que saiba de uma coisa… se você não tivesse feito aquilo, eu mesmo teria acabado com ele.
Os olhos dele escurecem por um segundo — como se fosse puxado para outro lugar dentro da própria mente — e então ele se obriga a voltar. Suspira e se afasta.
— Queria saber por que você sempre se aproxima… e depois se afasta.
— Existe um contrato. — ele me encara. — E nele há uma cláusula: nada de sexo. Mesmo sabendo que você quer que eu te f**a, não vou ultrapassar limites. Você impôs isso. Só você pode mudar.
Meu queixo cai.
Ele sorri.
— Está bem equivocado. — passo por ele e entro no banheiro para me vestir.
Fecho a porta, passando as mãos no rosto. Visto a roupa de dormir e, quando saio, ele ainda está no meio do quarto.
— Mais alguma coisa?
— Você ainda vai vir até mim, bella. — a expressão dele fica predatória. — Está em negação. Nós dois sabemos quem você quer.
— Acho que exagerou no uísque. — forço indiferença.
— Pode negar o quanto quiser. Eu sei do que estou falando.
— Se acha mesmo que vou implorar por você, está enganado. — faço careta. — Não sou uma das suas prostitutas, Kaleo Fratelli.
— De fato, não é. — ele concorda. — Elas não me dão tanto trabalho.
Filho da p**a.
— Então sugiro que continue fodendo todas elas. — rebato, mesmo odiando dizer isso. — Ruby deve estar sempre disponível.
— Admito… não é má ideia. — ele estala a língua.
Meu rosto esquenta.
— Ótimo. Já que estamos esclarecidos… — abro a porta. — Dá o fora do meu quarto.
Ele ri baixo, mas se vira e vem na minha direção. O olhar dele percorre meu corpo sem pudor. Para perto demais. Perto o suficiente para o ar mudar.
Ele se inclina.
E eu paro de respirar.
— O único problema em f***r todas as prostitutas que conheço é que… — a voz sai baixa, rouca, o hálito roçando meu ombro — sempre vejo você no lugar delas. — ele solta o ar devagar. — E é frustrante toda vez que não é.
Ele se afasta e me encara outra vez. O desejo brilha nos olhos verdes.
— Cazzo, é frustrante demais, Laura.
Então vai embora.
Fecho a porta e me apoio nela, só percebendo agora o quanto minha respiração está irregular.
— Italiano desgraçado… — murmuro, esfregando o rosto.