Inevitável

1336 Words
LAURA EGOROVA Deixo que a água fria caia sobre o meu corpo, deslizando por cada parte de mim, numa tentativa falha de arrancar da mente — e principalmente da pele — as sensações que Kaleo me causa. Ele foi o único homem cujo toque não despertou repulsa imediata em mim. Qualquer outro que tenha tentado algo provocou apenas raiva e náusea. Nunca terminou bem. Minha reação a isso é destrutiva. Sempre acaba em sangue. Inevitável. Essa é a palavra que define a minha raiva pela espécie masculina. Algo incontrolável. E eu tenho motivos mais do que suficientes para não simpatizar com nenhum deles. Com exceção de César. E agora… Kaleo. O italiano desperta algo diferente quando toca qualquer parte do meu corpo. Algo que me recuso a nomear — até em pensamento. É por isso que estou aqui, debaixo dessa água congelante, tentando apagar o que insiste em ficar. Balanço a cabeça, forçando os pensamentos a cessarem. Não é por isso que vamos nos casar. — Laura! — Belinda grita do outro lado da porta, me fazendo saltar. — Vamos logo! — Já estou indo! — bufo. Mesmo assim, fico mais alguns minutos sob a água. Para minha sorte, a caçula dos Fratelli não volta a me importunar. Saio do banheiro enrolada apenas na toalha, apreciando o silêncio matinal que tanto gosto. O susto vem quando dou de cara com Kaleo sentado na minha cama, confortável demais para alguém que não deveria estar ali. Ele me nota no mesmo instante. Seus olhos percorrem meu corpo lentamente antes de se fixarem no meu rosto. O sorriso que surge é descaradamente malicioso. Agora entendo o silêncio. Kaleo, com certeza, dispensou a irmã para ficar a sós comigo. — Então Belinda vai mesmo te arrastar para um dia inteiro de compras? — ele comenta, o sorriso se ampliando. — Parece que sim — murmuro, tentando parecer indiferente à intensidade do olhar dele. O italiano se levanta e caminha em minha direção com passos lentos, atentos demais. — Você não estava em reunião com o Alan? — coloco as mãos na cintura. — Ainda estou — responde, respirando fundo. — Para ser sincero. — Então o que faz aqui? — arqueio uma sobrancelha. — Precisava te entregar uma coisa. A voz dele está baixa. Contida. Sem tirar os olhos dos meus, Kaleo ergue a mão e toca meu rosto. A carícia desce pela bochecha até o pescoço, lenta demais para ser inocente. Um rastro de formigamento acompanha cada centímetro do percurso. Minha respiração falha quando ele leva a mão à minha nuca e me puxa para mais perto. A boca dele paira sobre a minha, hesitante. Como se estivesse decidindo algo. Antes que eu consiga pensar — ou recuar — Kaleo abaixa o rosto até o meu pescoço. Sua respiração quente encontra minha pele, a barba por fazer roça de leve, arrancando um arrepio involuntário. Fecho os olhos, engolindo em seco. — Isso tudo é por causa do que eu disse? — pergunto num fio de voz. — Sobre… não querer t*****r com você? Sinto o sorriso dele contra a minha pele. — É uma pena, bella — sussurra, depositando um beijo leve no meu ombro. Estremeço. — Porque tenho certeza de que nós dois juntos… seria algo memorável. Ele se afasta com dificuldade visível, como se criar distância exigisse esforço. Me lança um último olhar antes de seguir até a porta. No meio do caminho, para e ergue a mão. Um cartão preto reluz entre seus dedos. — Não se preocupe em economizar — diz, colocando-o sobre a cômoda. — Compre o que precisar, amore mio. Retiro o que pensei antes. Kaleo Fratelli acaba de assumir o primeiro lugar na minha lista de homens que eu odeio. § Belinda estaciona o carro e logo noto os seguranças se aproximando atrás de nós. — Isso não é necessário — resmungo. — Eu sei — bufa. — Também odeio isso, mas meu irmão insiste. — revira os olhos. — Por isso a segurança foi redobrada. Estamos juntas. — Nunca precisei de segurança — faço uma careta. — Sei me proteger melhor do que qualquer um deles. — Vai precisar se acostumar — ela pisca, agarrando meu braço. — Kaleo é superprotetor. Duvido que seja diferente com você. Reviro os olhos, duvidando muito que a preocupação dele seja comigo — e não com posse. Belinda me arrasta por loja após loja, incansável. Só consigo respirar melhor quando o celular vibra no bolso da jaqueta. Leio a mensagem. Ergo os olhos, certificando-me de que não há ninguém por perto além de um segurança à distância. Respondo apenas o necessário. Bloqueio o número. Apago a conversa. Respiro fundo. Seja lá quem “nós” signifique, querem Kaleo Fratelli morto. E eu preciso descobrir quem são antes que consigam. Ele é o caminho mais rápido até Ivan. Não posso permitir que o matem antes disso. Volto para uma das lojas, encontrando Belinda com ainda mais sacolas. — Então não rola nada entre você e meu irmão — a voz dela surge atrás de mim. Continuo andando, sem lhe dar uma resposta. — Ouvi a conversa de vocês no escritório — se apressa em explicar. — Se já sabia, por que insistiu tanto na lingerie? — questiono. — Vocês tem bastante em comum — dá de ombros. — Achei que, dadas as circunstâncias, algo poderia acontecer… — Nada vai acontecer. — Pelo humor dos dois, algo vai — ela ri. — Se não sexo, morte. Dois m*l-humorados se casando? A mansão vai virar um campo minado. Reviro os olhos. — Laura — ela toca meu braço. — Obrigada. Franzo a testa. — Você salvou a vida do meu fratello — sorri. — Só queria agradecer. Espero que consiga fazer o que precisa. — Vou conseguir. Ela sorri. — Que tal sairmos hoje à noite? Só nós? — Não gosto de sair. — Precisa de uma despedida de solteira — sorri maliciosa. — Vamos direto daqui. — Belinda… — Compramos roupas, saltos, fazemos cabelo, maquiagem… Respiro fundo, ela não vai desistir. — Tudo bem. — Isso! § — p***a, você está linda demais! — Belinda grita assim que me vê no vestido. Não fazia ideia de que compras, cabelo e maquiagem consumiam tantas horas. Já é noite quando ela me entrega uma taça de vinho branco. O vestido preto tem fendas nas laterais. Os saltos são altos demais. Meus cabelos ganharam mais mechas loiras — ideia dela. E eu cedi. — Sua amiga está incrível, Srta. Fratelli — uma mulher se aproxima, voz irritante. A observo pelo espelho, sem gostar da forma como nos encara. — Ela é minha cunhada — Belinda responde, ríspida. — Não sabia que Alan estava comprometido… A forma como deduz rapidamente que Kaleo não está em um relacionamento, me irrita mais do que eu gostaria de admitir. — E não está — ergo a mão, exibindo a aliança exagerada. — Kaleo é quem está. — Ah… — Esta é Laura, futura Sra. Fratelli — Belinda diz, vitoriosa. — Recomendo respeito. Sabem como meu irmão é com a famiglia. O rosto da mulher avermelha — não de vergonha, mas de raiva. Ela se afasta sem dizer nada. — Vamos — Belinda decreta. — Quem é ela? — pergunto. — Ruby — revira os olhos. — Uma das prostitutas que meu irmão se envolve. Deve estar sendo bem paga para circular aqui. Não me surpreendo. Ele foi claro sobre isso. Ainda assim, a raiva se acumula. Imagens violentas surgem na minha mente. Olho para o salão. Incendiar aquele lugar não daria tanto trabalho. — Laura? — Belinda chama. — Você está vermelha… Ignoro. Forço minhas pernas a se moverem. No carro, seguimos em silêncio até a casa noturna. Belinda ameaça arrancar as bolas dos seguranças se nos atrapalharem — e ainda os faz jurar que não contarão nada a Kaleo. Seguro o riso. Eles não vão obedecer. Kaleo Fratelli vive de controle. E nada — absolutamente nada — passa despercebido por ele.
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