Samantha sempre acreditou que o passado ficava quieto quando a gente mudava de lugar. Era uma ilusão confortável. Uma mentira funcional. Naquela manhã, sentada na cozinha de Naná, mexendo o café já frio pela terceira vez, ela entendeu que o passado não se cala. Ele apenas espera o momento certo para ser reconhecido. — Você tá longe — Naná disse, observando-a com atenção. — Tô lembrando — Samantha respondeu. — E isso nunca vem sozinho. Naná não insistiu. Sabia que algumas lembranças só se organizam quando a gente deixa doer até o fim. Samantha apoiou o cotovelo na mesa, a xícara tremendo levemente entre os dedos. Não era medo. Era decisão se formando. — Eu sei onde tudo começou — ela disse, por fim. Naná a encarou. — Sempre soube — respondeu. — Só fingiu que não. Samantha assenti

