Eu percebi que a libertação não vinha do silêncio alheio. Vinha do meu. Do silêncio que eu finalmente fazia dentro de mim quando o mundo tentava decidir o que eu podia ou não ser. Meu corpo continuava sendo assunto — nos olhares, nos comentários atravessados, nas opiniões não solicitadas. A diferença era que eu não respondia mais com explicações internas. Não havia mais debate íntimo tentando justificar minha existência. Meu corpo não precisava de autorização. A constatação não veio em tom épico. Veio num dia comum, enquanto eu esperava na fila da padaria. Duas mulheres atrás de mim cochichavam, sem cuidado algum. — Olha o tamanho dela. — E ainda anda como se fosse dona do lugar. Senti o impulso antigo de encolher os ombros, de ajustar a postura, de fingir que não ouvi. O impulso ve

