Minha Cama, Meu Inferno

1202 Words
Eu passei a noite andando. Não dormi. Não consegui sentar. Não consegui parar. O banco da praça estava molhado, o vento gelado atravessava minha roupa fina, mas nada disso doía tanto quanto o que acontecia dentro do meu peito. Eu me sentia oca, como se alguém tivesse arrancado algo essencial e deixado só espaço. Quando o dia começou a clarear, eu voltei para casa. Não porque quisesse. Mas porque ainda não tinha para onde ir. A chave girou na fechadura com um estalo seco. A casa estava silenciosa demais, daquele tipo de silêncio que não acalma — acusa. Cada parede parecia me observar, como se soubesse o que tinha acontecido ali. Tirei os sapatos devagar. O corredor parecia mais longo do que nunca. Meu quarto estava com a porta entreaberta. Meu corpo inteiro reagiu antes da minha mente. O coração disparou, a respiração ficou curta, minhas mãos começaram a suar. Mesmo assim, eu entrei. O cheiro ainda estava ali. Não era forte, mas era suficiente. Um perfume masculino misturado com algo doce demais. Não era meu sabonete, nem meu hidratante barato. Era deles. Minha cama estava bagunçada. Os lençóis amassados. O travesseiro fora do lugar. Aquela cama que eu escolhi depois de meses juntando dinheiro. A vendedora tinha perguntado se eu queria algo mais firme, “pra aguentar mais peso”. Eu ri na época, fingindo que não entendi. Mas entendi. Agora ela aguentava outra coisa. Sentei na beirada, sentindo o colchão afundar sob meu corpo. O mesmo corpo que ele dizia amar no escuro, mas tinha vergonha de mostrar à luz do dia. Passei a mão pelo lençol. Era ali que eu dormia. Era ali que eu chorava escondido. Era ali que eu acreditava estar segura. Uma náusea subiu pela minha garganta. Levantei de um pulo e puxei os lençóis com força, jogando tudo no chão. Não foi um gesto bonito. Foi descontrolado. Rasguei o elástico do lençol sem perceber, como se aquilo pudesse apagar o que aconteceu. Abri o guarda-roupa. As roupas dele ainda estavam lá. Algumas camisetas esquecidas, um moletom que ele dizia gostar porque “disfarçava” meu corpo quando eu usava. Disfarçar. Joguei tudo dentro de uma sacola preta. Não dobrei. Não organizei. Cada peça que caía ali parecia confirmar que tudo aquilo tinha sido uma mentira longa demais. No espelho do armário, vi meu reflexo. Olheiras fundas. O cabelo preso de qualquer jeito. O rosto inchado. As curvas que sempre foram o primeiro julgamento antes mesmo do meu nome. Eu me olhei como nunca tinha olhado antes. Não com ódio. Mas com cansaço. — Era isso que você via? — murmurei para mim mesma. — Era isso que te envergonhava? Passei a mão pela barriga, pelos quadris largos, pelos s***s pesados. O corpo que sempre foi assunto na boca dos outros. Nunca inteiro. Sempre em partes. Ouvi vozes na cozinha. Minha mãe. Minha irmã. O riso delas atravessou a parede. Meu estômago revirou. Saí do quarto e fui até a cozinha. Elas pararam de falar quando me viram. Não havia constrangimento. Só aquela tensão incômoda de quem prefere fingir que nada aconteceu. — Você vai tomar café? — minha mãe perguntou, como se fosse uma manhã qualquer. Olhei para a mesa. Pão, café, manteiga. A normalidade me deu vontade de gritar. — Ele dormiu aqui? — perguntei. Minha mãe suspirou. — Já foi embora. Minha irmã não disse nada. Só mexia no celular, o canto da boca curvado em um meio sorriso. — No meu quarto? — insisti. — Samantha, para — minha mãe respondeu, impaciente. — Não começa. Não começa. Como se eu estivesse exagerando. Como se a minha dor fosse inconveniente. — Você viu? — perguntei, olhando diretamente para ela. — Você viu o que eles fizeram? Ela desviou o olhar. — Vocês são adultos. Essas coisas acontecem. Essas coisas. Minha irmã finalmente levantou os olhos. — Você tá fazendo drama — disse. — Já passou. Eu senti algo quebrar de vez. — Não passou pra mim. Ela deu de ombros. — Você sempre soube que isso ia acontecer. Só fingiu que não. Minha mãe bateu a xícara na mesa. — Chega. Eu não vou escolher lados. Mas o lado já tinha sido escolhido fazia anos. Saí da cozinha sentindo as pernas bambas. Voltei para o quarto e fechei a porta atrás de mim. Encostei nela, deslizando até o chão. Foi ali que chorei de verdade. Não bonito. Não silencioso. Chorei com o corpo inteiro, como se estivesse tentando expulsar algo que tinha se alojado em mim. Minha cama estava ali. Mas já não era minha. Eu passei horas sentada no chão. O tempo deixou de existir. O celular vibrou algumas vezes, mas eu não olhei. Não queria ouvir desculpas, nem ataques, nem silêncio. Quando finalmente levantei, senti o corpo pesado, como se tivesse envelhecido anos em um dia. Fui até o banheiro. O espelho me devolveu uma imagem que eu conhecia bem demais: a da mulher que sempre tentava ocupar menos espaço. Ombros curvados, barriga puxada para dentro, olhar baixo. Eu liguei o chuveiro. A água quente caiu sobre mim como um soco. Ardeu nos olhos, no couro cabeludo, na pele sensível. Fiquei ali, parada, deixando a água correr, levando embora o cheiro deles, o toque deles, a sensação de invasão. Mas algumas coisas não saem com água. Encostei a testa na parede fria do box. — Eu não sou invisível — sussurrei. — Eu não sou descartável. Mas a voz saiu fraca. Como se nem eu acreditasse. Quando saí, ouvi passos no corredor. A porta do quarto se abriu sem bater. Minha irmã entrou. — Sério que você vai ficar assim? — perguntou, cruzando os braços. — Você sempre foi exagerada. — Sai — falei, sem levantar a voz. — Olha pra você — ela continuou, ignorando meu pedido. — Você acha mesmo que alguém como ele ia te assumir? Você devia saber seu lugar. Meu corpo inteiro se enrijeceu. — Meu lugar? — repeti. Ela me analisou de cima a baixo, sem pudor. — Não é sendo desejada, isso é certeza. A frase doeu mais do que o flagrante. — Você gostou? — perguntei, sentindo o nó na garganta. — Gostou de me ver assim? Ela sorriu. — Gostei de ganhar. Saiu do quarto como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei ali, parada, sentindo uma vergonha que não era minha. Uma culpa que não me pertencia, mas que sempre colocaram sobre meus ombros. Minha cama. Meu inferno. Ali eu entendi que não era só sobre ele. Nem só sobre ela. Era sobre uma vida inteira sendo diminuída. Sobre uma casa que nunca foi abrigo. Sobre um amor que nunca existiu de verdade. Peguei a sacola com as coisas dele e deixei na porta da casa. Não disse nada. Não avisei ninguém. Voltei para o quarto e me deitei no chão, porque não consegui mais tocar naquela cama. Fechei os olhos. E pela primeira vez, uma ideia começou a se formar, tímida, assustadora… mas necessária. Talvez ficar ali doesse mais do que ir embora. E eu ainda não sabia como, nem para onde. Mas algo dentro de mim começou a se preparar para fugir. Não por covardia. Mas por sobrevivência.
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