Capitulo 20 - Horizontes

2238 Words
''A vida adulta não começa quando recebemos um diploma. Ela começa no primeiro dia em que entendemos que os nossos sonhos também precisam de coragem para continuar existindo.'' O apartamento já não parecia novo. Em poucas semanas, havia adquirido o cheiro de café passado todas as manhãs, o som da música que Maya insistia em colocar enquanto pintava e o hábito de Lívia deixar livros abertos em praticamente todos os cômodos, a pequena varanda continuava sendo o lugar preferido das duas. Ali, os dias sempre terminavam da mesma forma: duas canecas de café, uma conversa tranquila e o mar iluminado pelas luzes da cidade, era uma rotina simples e justamente por isso, preciosa. Na primeira segunda-feira de novembro, a realidade bateu à porta, literalmente, o carteiro entregou uma pilha de correspondências, contas, boletos, documentos, Lívia espalhou tudo sobre a mesa da cozinha. — Acho que agora somos oficialmente adultas. Maya olhou para a quantidade de papéis. — Posso devolver? — Infelizmente, não. As duas riram. Mas logo começaram a fazer as contas,aluguel, energia, internet, mercado, transporte. Maya pegou uma calculadora, depois de alguns minutos, olhou para Lívia. — Acho que vamos precisar aprender a cozinhar mais e pedir menos comida. Lívia fez uma careta dramática. — Essa notícia foi pessoal. — Muito pessoal. As duas caíram na risada. Mesmo diante das responsabilidades, continuavam encontrando leveza uma na outra, naquela mesma semana, Maya recebeu um telefonema inesperado. Era a dona da galeria onde sua exposição Marés havia acontecido. — Maya? — Sim. — Aqui é Helena. Tenho uma proposta para você. Maya endireitou a postura imediatamente. — Estou ouvindo. — Um hotel da cidade está reformando todo o saguão principal. Eles querem contratar artistas locais, mostrei algumas fotografias das suas pinturas. Houve um pequeno silêncio. — Eles gostariam que você produzisse uma coleção inédita. Maya arregalou os olhos. — Está falando sério? Helena riu. — Muito sério. São doze telas, você aceita? Maya olhou automaticamente para Lívia, que observava tudo da cozinha. Sorriu. — Aceito. Quando desligou, ficou alguns segundos imóvel. — O que aconteceu? — perguntou Lívia. — Acho que consegui meu primeiro grande trabalho como artista. Lívia correu até ela e a abraçou. — Eu sabia. Sempre soube. Maya fechou os olhos por um instante. Não era apenas um trabalho, era a confirmação de que podia viver daquilo que amava. Enquanto isso, Lívia enfrentava um desafio diferente, desde que enviara o manuscrito para a editora, verificava o e-mail várias vezes ao dia, toda notificação fazia seu coração acelerar, toda ausência de resposta parecia durar uma eternidade. Na sexta-feira à tarde, enquanto escrevia um novo capítulo, o computador emitiu um pequeno som. Ela olhou distraidamente para a tela, depois congelou, o remetente era Beatriz. As mãos começaram a tremer. — Maya... Maya apareceu na porta do escritório improvisado. — O que foi? Lívia apontou para a tela. — Ela respondeu. — Você abriu? — Ainda não. — Por quê? — Porque estou com medo. Maya aproximou-se devagar. Sentou-se ao lado dela, segurou sua mão. — Seja qual for a resposta...Ela não muda a escritora que você se tornou. Lívia respirou fundo. Assentiu, então clicou no e-mail, seus olhos correram rapidamente pelas primeiras linhas, ela piscou, leu novamente. Depois levou a mão à boca. — Lívia? — perguntou Maya, preocupada. Ela não conseguia falar. Apenas virou o notebook na direção da namorada, no fim da mensagem, uma frase se destacava. "Gostaríamos de conversar sobre a publicação de 'Entre Nós, o Mar'." Maya levou alguns segundos para entender. Então abriu um sorriso tão grande que os olhos se encheram de lágrimas. — Eles querem publicar o seu livro... Lívia finalmente começou a chorar. Não de tristeza, nem de alívio. Era a emoção de quem carregava um sonho por tantos anos que já não sabia como era viver sem ele. Maya a abraçou com força. — Você conseguiu. Lívia balançou a cabeça. — Nós conseguimos. Porque nenhuma daquelas páginas existiria sem o amor que aprenderam a construir juntas. Na varanda, o vento atravessava as cortinas abertas. Ao longe, o mar continuava seguindo seu curso, como se soubesse que toda nova conquista era apenas mais uma onda levando aquelas duas mulheres para horizontes que, um dia, pareceram impossíveis. Na manhã seguinte ao e-mail da editora, Lívia acordou antes do sol nascer, pela primeira vez em muitos dias, não foi a ansiedade que a despertou, foi a felicidade, ela caminhou até a varanda enrolada em um cobertor. O mar ainda estava envolto por uma névoa fina, e as primeiras embarcações começavam a cortar a água. Respirou profundamente, parecia que o mundo inteiro havia ficado mais leve, poucos minutos depois, Maya apareceu com duas canecas de café. — Eu sabia que você estaria aqui. Lívia sorriu. — Acho que ainda estou tentando acreditar. Maya entregou uma das canecas. — Então acredita aos poucos. É assim que as coisas mais bonitas costumam acontecer. Naquela tarde, Lívia foi até a editora para conversar com Beatriz. Desta vez, entrou no casarão antigo sem o nervosismo da primeira visita, ainda havia um frio na barriga, mas ele vinha acompanhado de entusiasmo. Beatriz a recebeu com um abraço caloroso. — É bom vê-la de novo. — Também estou feliz por estar aqui. Sentaram-se na mesma sala iluminada onde haviam conversado meses antes. Sobre a mesa, havia um exemplar impresso de Entre Nós, o Mar, repleto de pequenos marcadores coloridos. Lívia engoliu em seco. — Espero que isso não signifique que vocês encontraram muitos erros. Beatriz riu. — Pelo contrário. Significa que encontrei muitos trechos que me fizeram parar para respirar. Lívia sorriu, aliviada. Durante quase duas horas, conversaram sobre o romance, Beatriz elogiou a construção das personagens, a delicadeza dos diálogos, a maneira como o mar acompanhava cada transformação da história. — Seu livro fala sobre amor — disse Beatriz. — Mas, acima de tudo, fala sobre recomeços.E é isso que faz dele especial. Lívia ouviu tudo em silêncio, cada palavra parecia encontrar um lugar dentro dela. Então Beatriz deslizou um envelope sobre a mesa. — Gostaríamos de publicar seu romance. As mãos de Lívia voltaram a tremer. Dentro do envelope havia uma proposta de contrato, ela olhou para Beatriz. — Eu... nem sei o que dizer. A editora sorriu. — Diga apenas que vai continuar escrevendo. O resto nós descobrimos juntas. Ao sair da editora, Lívia caminhou sem rumo por alguns minutos, precisava sentir o vento, precisava respirar, precisava entender que aquilo era real, parou diante da praia, pegou o celular, ligou imediatamente para Maya. — Oi! Como foi? — perguntou Maya, antes mesmo de ela falar. Lívia riu entre as lágrimas. — Acho que você vai precisar abrir espaço na estante. — Por quê? — Porque nosso apartamento vai ganhar um livro novo. Do outro lado da linha, fez-se um silêncio, depois Maya respondeu, com a voz embargada: — Você conseguiu... — Consegui. — Não. Você conquistou e ninguém merece isso mais do que você. Na mesma semana, Maya começou a trabalhar na coleção de telas para o hotel, transformou o segundo quarto do apartamento em um ateliê improvisado, grandes telas ocupavam as paredes, potes de tinta coloriam o chão. Havia pincéis de todos os tamanhos espalhados sobre uma mesa de madeira, Lívia entrou certa manhã carregando um prato com torradas, parou na porta, observando Maya completamente concentrada. Ela pintava o horizonte do mar em tons de azul profundo, misturados ao dourado do amanhecer. — Posso entrar? — perguntou, brincando. Sem tirar os olhos da tela, Maya respondeu: — Só se prometer não tropeçar em nenhum pincel. Lívia olhou para o chão. — Isso realmente parece um campo minado. As duas riram. No fim da tarde, Maya mostrou a primeira pintura terminada, era diferente de todas as outras, o mar continuava presente, mas havia duas figuras caminhando pela areia, de mãos dadas, pequenas, quase invisíveis. Lívia aproximou-se da tela, reconheceu imediatamente quem eram. — Somos nós? Maya assentiu. — Queria que esta coleção falasse sobre encontros. E nenhum encontro mudou mais a minha vida do que o nosso. Lívia permaneceu em silêncio por alguns segundos, depois abraçou Maya pelas costas. — Você percebe que estamos vivendo exatamente aquilo que sonhávamos na universidade? Maya apoiou a cabeça na dela. — Percebo. Mas acho que o mais bonito é descobrir que a realidade consegue ser ainda melhor. Naquela noite, as duas voltaram para a varanda, era quase um ritual, cada conquista era celebrada ali, o vento soprava com suavidade, as ondas refletiam a luz da lua, Lívia apoiou a cabeça no ombro de Maya. — Você acha que a vida sempre vai ser assim? Maya sorriu. — Não.Vão existir dias difíceis, frustrações, medos, talvez até tempestades. Ela segurou a mão de Lívia. — Mas, enquanto a gente continuar escolhendo caminhar uma ao lado da outra...Sempre vamos encontrar o caminho de volta. Lá embaixo, o mar seguia seu movimento eterno, indiferente ao tempo. Fiel às marés, como se lembrasse às duas que a vida nunca deixa de mudar e que, justamente por isso, sempre existe um novo horizonte esperando para ser descoberto. Os meses seguintes passaram com a rapidez de uma maré cheia, o apartamento, antes silencioso, agora era tomado pelo som das teclas do computador de Lívia e pelo deslizar constante dos pincéis de Maya sobre as telas. Cada uma seguia construindo o próprio sonho, mas nenhuma caminhava sozinha. Na manhã de uma sexta-feira, Maya recebeu uma ligação de Helena. — Bom dia, artista. Maya sorriu ao reconhecer a voz. — Bom dia. As telas ficaram prontas ontem. — Eu sei, acabei de sair do hotel. Elas já foram instaladas. Maya prendeu a respiração. — E...? Helena fez uma pequena pausa. — Você precisa vir vê-las. Pouco antes do almoço, Maya e Lívia chegaram ao hotel. O saguão era amplo, iluminado por enormes janelas de vidro voltadas para o mar, funcionários caminhavam de um lado para o outro, hóspedes conversavam próximos à recepção, mas Maya só conseguia olhar para as paredes. As doze pinturas estavam expostas em perfeita harmonia, cada uma representava um momento diferente do oceano, o amanhecer, a calmaria, a tempestade, o pôr do sol, as marés. E, discretamente, em todas elas, apareciam duas pequenas figuras caminhando pela praia, quase invisíveis, mas sempre juntas. Lívia sorriu. — Você deixou um pedaço da nossa história em cada quadro. Maya assentiu. — Porque foi ela que me ensinou a pintar de verdade. Nesse instante, um casal de hóspedes parou diante da última tela, a mulher observou atentamente a pintura, depois comentou com o companheiro: — Parece que essas duas pessoas nunca deixam de caminhar juntas. Maya ouviu a frase sem que eles percebessem, olhou para Lívia, as duas sorriram. Era exatamente isso que desejava transmitir, na semana seguinte, Beatriz telefonou para Lívia, a editora havia definido a data de lançamento. O livro seria publicado no início do verão, além disso, fariam uma pequena sessão de autógrafos em uma livraria da cidade, Lívia desligou o telefone ainda tentando acreditar. — Maya... Ela apareceu imediatamente. — Aconteceu alguma coisa? Lívia respirou fundo. — O livro vai nascer. Maya abriu um sorriso enorme. Abraçou-a com tanta força que as duas quase perderam o equilíbrio. — Eu sabia. Desde a primeira página, sempre soube. O dia do lançamento chegou acompanhado de um céu azul e de uma brisa leve. A livraria estava decorada com flores brancas e pequenos vasos de lavanda, em uma mesa próxima à entrada, dezenas de exemplares de Entre Nós, o Mar aguardavam seus primeiros leitores, quando Lívia viu seu nome impresso na capa, ficou em silêncio. Passou os dedos delicadamente sobre o título, como quem precisava confirmar que aquilo era real. Maya aproximou-se. — Está tudo bem? Ela sorriu emocionada. — Passei anos imaginando esse momento, mas ele é muito mais bonito do que imaginei. Pouco a pouco, os leitores começaram a chegar, alguns haviam acompanhado seus contos, outros conheceriam sua escrita pela primeira vez. Uma jovem esperou pacientemente na fila, quando chegou sua vez, entregou o livro para Lívia. — Obrigada por escrever uma história em que eu consegui me enxergar. Lívia sentiu os olhos marejarem, assinou a primeira página. Depois escreveu uma dedicatória: "Que você nunca tenha medo de viver um amor que faça seu coração se sentir em casa." Ao entregar o livro, percebeu que escrever nunca havia sido apenas um sonho. Era uma forma de alcançar pessoas que talvez nunca conhecesse, naquela noite, depois que tudo terminou, Maya e Lívia voltaram à praia, como sempre, sentaram-se na areia, o mar estava calmo, as estrelas refletiam sobre a água, Lívia segurava um exemplar do romance contra o peito. Maya observava o horizonte. — Sabe qual é a melhor parte disso tudo? — Qual? — perguntou Lívia. — Nenhum dos nossos sonhos acabou hoje. Eles apenas mudaram de tamanho. Lívia sorriu, fechou os olhos por alguns instantes. Depois respondeu: — Então vamos continuar sonhando. Maya entrelaçou seus dedos aos dela. — Sempre. As ondas tocaram suavemente a areia diante delas, o mesmo mar que testemunhara o primeiro encontro, o primeiro beijo, as dúvidas, os medos e as conquistas agora parecia celebrar, em silêncio, tudo o que haviam construído. Porque alguns amores não precisam de promessas grandiosas, precisam apenas de duas pessoas dispostas a escolher uma à outra, todos os dias e foi exatamente isso que Maya e Lívia fizeram. O horizonte continuava infinito, mas pela primeira vez, elas entenderam que não era preciso alcançá-lo, bastava caminhar juntas.
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