Capitulo 15 - Novos horizontes

2295 Words
''Existem dias que a vida muda sem fazer barulho, ela apenas abre uma porta e espera que tenhamos coragem de atravessa-lá''. O semestre caminhava para o fim, os corredores da universidade voltam a ficar silenciosos entre uma prova e outra, mas para Lívia e Maya nada parecia realmente igual desde a viagem a Paraty. O projeto continuava sendo comentado pelos professores, a exposição começava a tomar forma e o pequeno caderno azul de Lívia ganhava novas páginas todas as noites. Naquela terça-feira, Maya estava no ateliê terminando uma pintura inspirada nas ruas de Paraty, a tela mostrava duas mulheres caminhando por uma rua de pedras, de mãos dadas, enquanto o mar aparecia ao fundo, ela deu um passo para trás e sorriu ainda faltavam alguns detalhes, mas já era uma das obras de que mais se orgulhava. — Posso entrar? Lívia apareceu na porta segurando dois cafés. — Sempre. Ela entregou um copo para Maya. — Ainda pintando? — Ainda sonhando. Lívia observou a tela por alguns instantes. — Essa sou eu? — Talvez. — E você? Maya riu. — Talvez também. — Você gosta de deixar tudo misterioso. — Porque algumas histórias ficam mais bonitas quando cada pessoa encontra um pedaço de si nelas. Lívia aproximou-se e segurou sua mão. — Você nasceu para isso. — Para pintar? — Para fazer as pessoas sentirem. Naquela mesma tarde, o professor Henrique reuniu as duas em sua sala, sobre a mesa havia uma pasta preta. — Recebi uma ligação da Galeria Horizonte. Maya sentiu o coração acelerar. Henrique abriu um sorriso. — Eles analisaram o seu portfólio e querem que você participe da exposição de jovens artistas no próximo semestre. Por alguns segundos, Maya ficou completamente imóvel. — Eu... Ela não conseguiu terminar a frase. Henrique levantou-se e apertou sua mão. — Parabéns, você merece. Lívia abraçou Maya antes mesmo que ela reagisse. — Eu sabia! Maya começou a rir e a chorar ao mesmo tempo. — Eu achei que nunca fosse conseguir... — Conseguiu, porque nunca desistiu. Mais tarde, sentadas na praia, Maya observava o convite da galeria. — Ainda parece um sonho. Lívia desenhava círculos na areia. — Lembra da primeira vez que nos encontramos aqui? — Lembro. — Você disse que tinha medo de mostrar suas pinturas para o mundo. Maya sorriu. — Agora o mundo quer vê-las. Ela permaneceu em silêncio,depois olhou para Lívia. — Você sabe qual é o próximo sonho que quero realizar? — Qual? — Ver seu livro publicado. Lívia abaixou os olhos. — Ainda falta muito. — Falta? Maya retirou delicadamente o caderno azul da mochila da namorada, folheou algumas páginas e sorriu. — Você já escreveu quase metade. Lívia arregalou os olhos. — Você contou? — Contei. — Maya! — O quê? — Isso não se faz. Ela riu. — Eu estava curiosa. Lívia tentou parecer brava, não conseguiu. As duas acabaram rindo juntas, na semana seguinte, aconteceu a inauguração da exposição organizada pela universidade, fotografias, pinturas e relatos da pesquisa ocupavam todo o salão principal. Alunos caminhavam entre os painéis lendo as histórias coletadas durante o projeto, no centro da sala estava a pintura de Maya, ao lado dela, um pequeno texto escrito por Lívia. As duas obras se completavam, como sempre acontecia. Henrique aproximou-se emocionado. — Vocês perceberam? — O quê? — perguntou Lívia. — Sem combinar, uma contou a história que a outra pintou. Maya olhou para a namorada, sorriu, era verdade. No fim da noite, quando os visitantes começaram a ir embora, um senhor de cabelos brancos aproximou-se lentamente da pintura, ficou observando-a durante vários minutos. Depois leu o texto de Lívia, respirou fundo e virou-se para as duas. — Posso dizer uma coisa? Elas assentiram. — Minha esposa morreu há dois anos, desde então, eu não conseguia olhar para o mar. Hoje... Ele sorriu com os olhos marejados. — Pela primeira vez, senti v*****e de voltar à praia, obrigado. O homem foi embora antes que qualquer uma das duas pudesse responder. Lívia percebeu que Maya chorava discretamente. — Está tudo bem? Ela assentiu. — É por isso que eu quero continuar pintando. Lívia segurou sua mão. — E é por isso que eu quero continuar escrevendo. Naquele instante, compreenderam que a arte não existia apenas para ser admirada, ela existia para alcançar pessoas, para curar ferida, para lembrar que ninguém estava sozinho. Enquanto saíam da universidade, o vento trouxe novamente o cheiro do mar. Maya sorriu. — Acho que ele continua acompanhando a gente. Lívia entrelaçou seus dedos aos dela. — Talvez porque ainda tenha muitas histórias para contar. E, lado a lado, seguiram caminhando em direção ao futuro, sem perceber que a maior mudança de suas vidas ainda estava por vir. Os dias seguintes foram tomados pelos preparativos da exposição de Maya na Galeria Horizonte, embora ainda faltassem alguns meses para a a******a, havia muito trabalho pela frente, selecionar obras, escolher molduras, escrever pequenas descrições para cada quadro. Pela primeira vez, Maya sentia que sua arte deixaria o ateliê para encontrar pessoas que nunca a tinham visto e isso era, ao mesmo tempo, emocionante e assustador. Numa tarde de sexta-feira, ela recebeu um e-mail da curadora da galeria. O assunto dizia apenas: "Primeira reunião'', Maya abriu a mensagem com as mãos trêmulas, a reunião aconteceria na semana seguinte. Ela deveria levar cinco pinturas inéditas, cinco, ela tinha apenas duas prontas. — Acho que estou em apuros... — murmurou. Naquele instante, Lívia entrou no ateliê. — Falando sozinha de novo? Maya virou a tela do computador para ela. — Preciso criar três quadros em menos de um mês. Lívia leu o e-mail atentamente. Depois sorriu. — Então vamos fazer um plano. — "Vamos"? — Claro, você acha que vai passar por isso sem mim? Maya riu. — Definitivamente, não. Naquela noite, espalharam telas, pincéis e cadernos pelo chão do apartamento de Maya, enquanto ela desenhava os primeiros esboços, Lívia escrevia pequenas ideias em um bloco de notas. — Que tal uma série sobre recomeços? — sugeriu. — Hum... — Ou sobre cartas. Maya levantou os olhos. — Cartas... Ela sorriu. — Gostei. — Sua mãe mudou sua vida através delas, talvez elas também possam mudar alguém que veja seus quadros. Maya ficou em silêncio por alguns segundos, pegou um lápis novo, na tela em branco, desenhou um envelope sendo levado pelas ondas do mar. — Acho que encontramos o primeiro quadro. As semanas passaram depressa, entre provas da faculdade e noites em claro pintando, Maya produziu obras como nunca havia feito antes. Uma mostrava uma janela aberta para o oceano, outra retratava um barco sem ninguém a bordo, iluminado pelo nascer do sol, a última era a mais especial, duas jovens caminhando pela areia,sem rostos, sem nomes, apenas de mãos dadas. Lívia observou a tela terminada. — Essa... É a minha favorita. — Também é a minha. — Como vai chamá-la? Maya pensou por alguns segundos. Depois respondeu: — "Escolha." — Escolha? — Porque amar alguém é uma escolha que fazemos todos os dias. Lívia sorriu emocionada. — Você consegue transformar sentimentos em pintura. Maya aproximou-se. — E você transforma pintura em palavras. Na semana da reunião, as duas viajaram novamente, desta vez, para conhecer a Galeria Horizonte. O prédio era moderno, com enormes paredes brancas e janelas de vidro, assim que entraram, Maya parou completamente, quadros ocupavam cada espaço. Pessoas caminhavam lentamente entre as obras. Ela respirou fundo. — Um dia...Quero ver meu nome aqui. Lívia segurou sua mão. — Você vai, porque já começou a construir esse caminho. A curadora, Helena Duarte, recebeu as duas com um abraço caloroso. — Fico feliz que tenham vindo. Ela observou atentamente as pinturas levadas por Maya, demorou vários minutos analisando cada detalhe, no fim, sorriu. — Você pinta saudade de um jeito muito bonito. Maya abaixou os olhos. — Acho que aprendi a conviver com ela. Helena assentiu. — E isso aparece nas telas. Depois olhou para Lívia. — Você continua escrevendo? Lívia sorriu. — Todos os dias. — Ótimo, porque artistas precisam de artistas por perto, vocês inspiram uma à outra, não deixem que isso se perca. Na volta para casa, já dentro do ônibus, Maya encostou a cabeça no ombro de Lívia. — Posso confessar uma coisa? — Claro. — Às vezes ainda tenho medo de tudo isso acabar. Lívia virou-se para ela. — O quê? — A faculdade, os projetos, a rotina.Tenho medo de que, quando tudo mudar...Nós mudemos também. Lívia segurou delicadamente seu rosto. — Nós vamos mudar, isso é inevitável. Maya baixou os olhos. — Mas vamos mudar juntas e existe uma grande diferença nisso. Maya sorriu, sentiu o peito finalmente relaxar, porque percebeu que o futuro já não parecia uma ameaça. Era apenas um novo capítulo esperando para ser escrito, ao longe, pela janela do ônibus, o mar voltou a aparecer, as ondas seguiam o mesmo ritmo de sempre, e de alguma forma, lembravam às duas que a vida nunca permanecia igual. Ainda assim...O amor podia continuar sendo o porto seguro para onde sempre escolheriam voltar. As últimas semanas do semestre chegaram depressa, os corredores da universidade voltaram a ficar cheios de alunos preocupados com provas, apresentações e trabalhos finais, mas, entre um compromisso e outro, Lívia e Maya sempre encontravam um momento para si, nem que fosse apenas quinze minutos na praia antes de voltarem para casa. Naquela quinta-feira, encontraram-se no lugar onde tudo havia começado, o mesmo banco de madeira, o mesmo mar, as mesmas ondas quebrando contra as pedras. Maya sentou-se primeiro. — Você percebeu uma coisa? — O quê? — perguntou Lívia. — Faz quase um ano que nos conhecemos. Lívia sorriu. — Parece muito mais. — Ou muito menos. As duas riram, era estranho pensar em como tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo, Lívia tirou da mochila uma pequena caixa embrulhada em papel pardo. — Tenho uma coisa para você. Maya arqueou as sobrancelhas. — Não é meu aniversário. — Eu sei. — Então por quê? — Porque sim. Maya recebeu a caixa com cuidado, dentro havia um pingente de prata em forma de onda, simples, delicado. No verso, uma pequena gravação. "Sempre de volta para casa." Os olhos de Maya se encheram de lágrimas. — Lívia... — Gostou? Ela não respondeu imediatamente, apenas colocou o pingente na palma da mão, depois sorriu. — É o presente mais bonito que já recebi. — Achei que combinava com você. — Por quê? Lívia segurou sua mão. — Porque não importa onde a vida nos leve...Quando penso em casa...Penso em você. Maya abraçou Lívia tão forte que nenhuma das duas conseguiu conter as lágrimas, dias depois, aconteceu a a******a oficial da exposição de Maya na Galeria Horizonte. As paredes brancas agora exibiam suas pinturas, a série chamava-se: "Marés." Cada quadro representava uma fase da vida, a perda, a saudade, o recomeço, a esperança, e por fim...O amor. No centro da exposição estava "Escolha", o quadro das duas jovens caminhando pela praia, era também o mais observado pelos visitantes. Helena aproximou-se de Maya durante a inauguração. — Tenho uma notícia. Maya sorriu nervosa. — Boa? — Excelente, uma das obras já foi vendida. Maya ficou completamente sem reação. — Vendida? — Sim. E o comprador fez apenas um pedido. — Qual? Helena apontou discretamente para um senhor de cabelos brancos, era o mesmo homem que havia visitado a exposição da universidade meses antes, ele aproximou-se lentamente. — Gostaria de agradecer. Maya sorriu. — Pelo quadro? Ele balançou a cabeça. — Pela coragem, sua pintura me fez voltar à praia depois de dois anos, hoje levei flores para minha esposa pela primeira vez desde que ela partiu. Maya sentiu os olhos marejarem. — Obrigada por me contar isso. — Não. Foi ele quem respondeu. — Obrigado por pintar. Na volta para casa, já tarde da noite, Maya permaneceu em silêncio durante boa parte do caminho. Lívia percebeu. — Está tudo bem? Ela sorriu. — Está. Só estou pensando. — Em quê? — Minha mãe costumava dizer que arte só fazia sentido quando encontrava alguém, hoje acho que entendi o que ela queria dizer. Lívia segurou sua mão. — Ela estaria muito orgulhosa de você. Maya olhou para o céu. As estrelas apareciam entre poucas nuvens. — Espero que sim. Na semana seguinte, foi a vez de Lívia viver uma surpresa, durante uma aula de literatura, a professora pediu que cada aluno levasse um texto autoral, Lívia hesitou, pensou em escolher um conto antigo,mas, pela primeira vez, abriu o caderno azul. Leu um trecho de "Entre Nós, o Mar'', sala permaneceu completamente em silêncio, quando terminou, ninguém falou durante alguns segundos. Então a professora levantou-se, aproximou-se. — Quem escreveu isso? Lívia sorriu timidamente. — Eu. A professora respirou fundo. — Não pare, prometa isso, você tem uma voz muito bonita e o mundo precisa ouvi-la. Ao sair da sala, Lívia encontrou Maya esperando do lado de fora. — E então? Ela sorriu. Os olhos brilhavam. — Acho que...Pela primeira vez...Também comecei a acreditar que posso ser escritora. Maya abriu um sorriso enorme, sem se importar com quem passava pelo corredor, puxou Lívia para um abraço apertado. — Eu sempre soube. Naquela noite, voltaram à praia, sentaram-se na areia enquanto o céu se tingia de laranja, Lívia abriu o caderno, escreveu a última frase daquele dia: "Talvez o amor nunca tenha sido sobre encontrar alguém que complete os nossos vazios, talvez sempre tenha sido sobre encontrar alguém disposto a construir futuros ao nosso lado." Ela fechou o caderno, Maya encostou a cabeça em seu ombro, as duas observaram o horizonte em silêncio o mar continuava fazendo o que sempre fizera, levando algumas coisas, trazendo outras, mas, desta vez, elas sabiam que não importava quantas marés ainda enfrentariam. Enquanto caminhassem juntas, sempre encontrariam o caminho de volta.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD