Capitulo 16 - Marés da vida

3573 Words
'' O amor amadurece quando deixa de ser uma promessa e passa a fazer parte da rotina.'' O verão chegou trazendo dias mais longos e um céu que parecia nunca perder o tom azul, as aulas haviam entrado em recesso, mas a rotina de Maya e Lívia continuava intensa, Maya passava as manhãs na Galeria Horizonte, preparando sua primeira exposição individual, Lívia passava as tardes escrevendo. Pela primeira vez, escrever deixara de ser apenas um sonho, agora era disciplina, todos os dias, das duas às cinco da tarde, ela desligava o celular, fazia uma xícara de café e sentava diante do computador, nem sempre as palavras vinham, mas ela aprendera que escrever também significava permanecer, em uma dessas tardes, Maya apareceu em sua casa sem avisar, trazia uma sacola de padaria e um sorriso enorme. — Interrompi uma escritora famosa? Lívia levantou os olhos do notebook. — Ainda não sou famosa. — Tempo. Maya colocou a sacola sobre a mesa. — Trouxe pão de queijo. Lívia fechou o computador imediatamente. — Agora sim você conseguiu minha atenção. As duas riram, enquanto preparavam café, Maya observou a tela do notebook. — Quantas páginas? Lívia hesitou. — Cento e vinte e três. Maya arregalou os olhos. — Você escreveu tudo isso? — Nem percebi. Ela sorriu. — Acho que a história começou a caminhar sozinha. Maya aproximou-se, beijou delicadamente sua testa. — Tenho orgulho de você. Na semana seguinte, a exposição de Maya foi oficialmente inaugurada, diferente da coletiva anterior, aquela era inteiramente dedicada ao seu trabalho.,Na entrada da galeria, um painel anunciava: MARÉS - Uma exposição de Maya Soares Ao ver seu nome escrito em letras grandes, Maya parou por alguns segundos, sentiu um nó na garganta. Lívia segurou sua mão. — Está tudo bem? Ela assentiu. — Minha mãe sonhava com isso. Lívia sorriu. — Hoje esse sonho também é seu. A galeria começou a receber visitantes logo nas primeiras horas, alguns caminhavam lentamente entre os quadros, outros permaneciam longos minutos diante da mesma pintura. Uma menina de aproximadamente doze anos observava "Escolha" completamente encantada, depois de algum tempo, aproximou-se de Maya. — Foi você quem pintou? — Foi. A menina sorriu timidamente. — Eu também desenho, mas acho que nunca vou conseguir fazer algo assim. Maya ajoelhou-se para ficar na mesma altura dela. — Posso te contar um segredo? A menina assentiu. — Eu também pensava exatamente isso quando tinha sua idade. Os olhos da garota brilharam. — Sério? — Muito sério. Ela sorriu. — Continue desenhando, mesmo nos dias em que achar que não está bom, porque ninguém aprende desistindo. A menina abraçou um caderno de desenhos que carregava. — Obrigada. Ao vê-la sair sorrindo, Maya percebeu que aquela conversa tinha valido tanto quanto qualquer elogio,no mesmo dia, Lívia recebeu uma mensagem inesperada da professora de literatura. - "Passe na universidade amanhã. Gostaria de conversar com você." Ela mostrou o celular para Maya. — Será que fiz alguma coisa? Maya riu. — Acho difícil, talvez seja algo bom. — Você sempre acha isso. — Porque normalmente é. Na manhã seguinte, Lívia entrou na sala da professora ainda curiosa, ela estava organizando alguns livros quando levantou o olhar. — Entre, tenho uma proposta para você. Lívia sentou-se. — Estou ouvindo. A professora colocou um envelope sobre a mesa. — Uma editora independente está organizando uma coletânea de novos autores, li o texto que você apresentou em aula, acho que ele merece participar. Lívia ficou completamente imóvel. — Meu texto? — Sim, não é o livro inteiro, mas é um começo. Ela sorriu. — Todo escritor publica a primeira página antes de publicar a última. As mãos de Lívia tremiam enquanto recebia o envelope, durante anos sonhara com aquele momento, agora ele finalmente acontecia. Naquela noite, ela encontrou Maya na praia, o céu estava pintado de tons alaranjados, sem dizer uma palavra, entregou-lhe o envelope, Maya leu a carta lentamente, quando terminou, abraçou Lívia tão forte que quase a levantou do chão. — Você conseguiu! Lívia ria e chorava ao mesmo tempo. — Ainda é só um conto. — Não. Maya segurou seu rosto. — É o primeiro passo e os primeiros passos sempre são os mais difíceis. Sentaram-se na areia enquanto o sol desaparecia no horizonte, Lívia encostou a cabeça no ombro de Maya. — Você percebeu? — O quê? — Quando nos conhecemos, eu sonhava escrever, você sonhava expor, hoje...Os dois sonhos começaram a acontecer. Maya olhou para o mar, depois para Lívia. — Acho que o mar realmente sabia o caminho. Lívia sorriu. — E ainda tem muitos capítulos pela frente. Maya segurou sua mão. — Então vamos escrevê-los juntas. As ondas quebraram suavemente diante delas, como se respondessem à promessa. E, pela primeira vez, o futuro parecia menos um lugar desconhecido, parecia apenas a próxima página de uma história que ainda estava longe de terminar. As manhãs passaram a ter um ritmo diferente, Maya acordava cedo para trabalhar nas pinturas da exposição, Lívia fazia café enquanto o rádio antigo da cozinha tocava músicas baixas. Sem perceber, haviam criado pequenos rituais, Maya preparava as torradas, Lívia reclamava que ela sempre as deixava queimadas, Maya dizia que aquilo era "caramelização artística", Lívia fingia acreditar e as duas acabavam rindo antes mesmo de terminar o café. Numa dessas manhãs, enquanto lavava as xícaras, Lívia observou Maya parada diante da janela, ela parecia distante. — Onde você foi? Maya sorriu sem olhar para trás. — Em lugar nenhum. — Foi, sim, você faz essa cara quando está pensando demais. Ela virou-se. — Estava lembrando da minha mãe. Lívia aproximou-se devagar. — Aconteceu alguma coisa? — Hoje seria o aniversário dela. O silêncio tomou conta da cozinha, Lívia apenas segurou sua mão, não existiam palavras capazes de diminuir aquela saudade e Maya não precisava de respostas, precisava apenas de companhia. No fim da tarde, decidiram ir ao cemitério, Maya levava um pequeno buquê de margaridas, as flores preferidas da mãe, o caminho inteiro foi silencioso. Quando chegaram, Maya ajoelhou-se diante da lápide, passou delicadamente a mão sobre o nome gravado na pedra. — Oi, mãe...Fazia tempo que eu não vinha. Respirou fundo. — Tenho tanta coisa para contar... Começou a falar como se a mãe estivesse realmente ali, contou sobre a exposição, sobre a universidade, sobre Paraty, sobre a primeira obra vendida, depois olhou para Lívia. Ela continuava alguns passos atrás, respeitando aquele momento, Maya sorriu. — E quero apresentar alguém. Lívia aproximou-se lentamente, sentia o coração apertado, Maya segurou sua mão. — Essa é a Lívia, a pessoa que fez o mundo voltar a ter cor. Os olhos de Lívia se encheram de lágrimas, ela abaixou a cabeça em sinal de respeito. — Obrigada por ter criado alguém tão incrível. O vento soprou suavemente entre as árvores, as margaridas balançaram, Maya fechou os olhos, pela primeira vez desde a morte da mãe, conseguiu sair dali sem sentir apenas tristeza, agora existia paz. Na volta para casa, caminharam pela orla, o céu estava coberto por nuvens rosadas, o mar parecia tranquilo. — Obrigada por ter ido comigo — disse Maya. — Eu iria com você para qualquer lugar. Maya sorriu. — Eu sei e é isso que me faz ter menos medo. Naquela noite, enquanto Maya tomava banho, Lívia abriu o notebook, começou a escrever um novo capítulo de seu livro, mas, dessa vez, não falava sobre despedidas, escrevia sobre permanências. "Amar alguém é também conhecer suas ausências, é aprender que algumas pessoas continuam presentes mesmo quando já partiram. Porque existem amores que mudam de lugar, mas nunca deixam de existir." Ela releu o texto, sorriu discretamente, talvez estivesse, finalmente, encontrando sua própria voz, antes de dormir, Maya deitou ao lado de Lívia, as duas permaneceram olhando para o teto escuro do quarto. — Posso te fazer uma pergunta? — disse Maya. — Pode. — Você acha que a gente vai continuar assim daqui a dez anos? Lívia virou o rosto para ela. — Como? — Dividindo café, rindo das mesmas piadas, assistindo ao pôr do sol, Lívia sorriu pegou delicadamente a mão de Maya. — Não. Maya franziu a testa. — Não? — Acho que vai ser ainda melhor, porque, até lá, teremos construído muito mais lembranças. Maya sorriu emocionada, aproximou-se, beijou-a com calma, sem pressa. Como quem já não tinha medo do futuro, do lado de fora, o mar continuava cantando sua canção antiga, e dentro daquele pequeno apartamento, duas vidas seguiam encontrando abrigo uma na outra. Os dias passaram depressa, a exposição de Maya seguia recebendo visitantes, e o conto de Lívia havia sido aceito para a coletânea da editora. Pela primeira vez, elas experimentavam uma rotina cheia de compromissos, entrevistas para a universidade e novos projetos, era exatamente o que sempre sonharam, mas sonhar também cansava. Numa quarta-feira chuvosa, Maya chegou ao apartamento completamente exausta, largou a mochila no sofá, sentou-se em silêncio. Lívia percebeu imediatamente. — Aconteceu alguma coisa? Maya demorou a responder. — Hoje fiquei olhando para uma tela em branco por quase três horas. — E? — Não consegui pintar nada. Lívia aproximou-se. — Isso acontece. — Nunca tinha acontecido assim. Ela esfregou o rosto com as mãos. — Tenho medo de que as pessoas esperem sempre algo extraordinário de mim, e se eu não conseguir? Lívia permaneceu em silêncio por alguns segundos, depois caminhou até a estante e pegou o caderno azul, abriu em uma página qualquer. — Posso ler? Maya assentiu, Lívia começou: "Existem dias em que o mar parece imóvel, mas, mesmo quando não vemos, as correntes continuam trabalhando lá embaixo." Ela fechou o caderno. — Você não precisa criar uma obra-prima todos os dias, ás vezes, descansar também faz parte da criação. Maya sorriu de leve. — Você sempre encontra as palavras certas. — Porque alguém me ensinou a olhar o mundo com mais calma. Na semana seguinte, foi a vez de Lívia enfrentar suas próprias inseguranças, a editora enviou as primeiras sugestões de revisão do conto. Havia comentários em quase todas as páginas, ela passou a tarde inteira encarando o computador, sem escrever uma única palavra. Quando Maya chegou, encontrou o notebook fechado. — Não escreveu hoje? Lívia balançou a cabeça. — Acho que meu texto não era tão bom quanto eu imaginava. Maya puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente. — Posso ver? Lívia entregou o manuscrito, Maya leu os comentários com atenção, depois sorriu. — Sabe o que isso significa? — Que preciso reescrever tudo? — Não, que alguém leu sua história com cuidado, se ninguém acreditasse no seu potencial, não perderia tempo fazendo sugestões. Lívia ficou em silêncio, nunca havia pensado por esse lado, Maya segurou sua mão. — Revisão não é rejeição, é alguém dizendo: "Sua história vale o esforço." Os olhos de Lívia se encheram de lágrimas. — Obrigada. — Sempre. Na sexta-feira, decidiram fugir um pouco da rotina, pegaram um ônibus sem destino certo e desceram em uma pequena praia quase deserta, o céu estava limpo, o vento era leve, sentaram-se sobre uma toalha estendida na areia, sem celulares, sem cadernos, sem tintas, apenas elas. Depois de alguns minutos em silêncio, Maya perguntou: — Se pudesse voltar no tempo e conversar com a garota que você era antes de entrar na faculdade...O que diria? Lívia pensou por um instante. — Eu diria para ela não ter tanto medo, que algumas pessoas vão embora, mas outras chegam para ficar. Ela sorriu. — E você? Maya olhou para o horizonte. — Eu diria que a culpa não dura para sempre, que um dia eu voltaria a pintar sem sentir que estava deixando minha mãe para trás. Lívia segurou sua mão. — Ela nunca deixou de caminhar com você. Maya respirou fundo, pela primeira vez em muito tempo, conseguiu pensar na mãe sem que a dor ocupasse todo o espaço, agora havia saudade, mas também havia gratidão, antes de voltarem para casa, escreveram seus nomes em um pequeno pedaço de madeira encontrado na areia, Maya desenhou uma onda ao lado, Lívia escreveu a data, depois enterraram o pedaço de madeira perto de uma amendoeira. — E se alguém encontrar? — perguntou Lívia. Maya deu de ombros. — Talvez descubra que duas garotas foram muito felizes aqui. Lívia sorriu. — Ou talvez pense que é o começo de uma história. Maya inclinou a cabeça. — De certa forma...É exatamente isso. As duas caminharam de volta de mãos dadas, atrás delas, o mar apagava lentamente suas pegadas na areia, mas nenhuma onda seria capaz de apagar tudo o que haviam construído juntas, porque algumas histórias deixam marcas que nem o tempo consegue levar. O mês de agosto chegou trazendo ventos mais fortes e um céu quase sempre coberto por nuvens, na universidade, os corredores voltavam a ficar movimentados com o início de um novo semestre, para Maya e Lívia, porém, aquele semestre parecia diferente. Era o último antes da reta final da graduação, a palavra formatura já aparecia em todas as conversas, e junto dela, surgiam perguntas que nenhuma das duas sabia responder. — Já decidiu o que vai fazer depois que terminar a faculdade? A pergunta veio durante uma aula, o professor caminhava entre as carteiras enquanto os alunos discutiam seus planos para o futuro, uma colega falou sobre um mestrado, outro comentou que viajaria para o exterior, quando chegou a vez de Lívia, ela respirou fundo. — Quero terminar meu livro, depois tentar publicá-lo. Alguns colegas sorriram, o professor apenas assentiu. — Continue escrevendo, o mundo sempre precisa de boas histórias. Maya, sentada algumas cadeiras atrás, sorriu discretamente, mais tarde, no intervalo, foi a vez de perguntarem a Maya. — E você? Vai continuar pintando? Ela olhou para as próprias mãos, ainda havia pequenas manchas de tinta azul entre os dedos. Sorriu. — Não consigo imaginar minha vida sem pintura, mesmo que seja difícil...É isso que quero fazer. Lívia ouviu a resposta de longe, sentiu um orgulho silencioso, meses antes, Maya jamais teria respondido aquilo com tanta segurança. Na sexta-feira daquela mesma semana, resolveram passar a tarde na antiga biblioteca da universidade, era um lugar tranquilo, cheio de janelas grandes, o cheiro de livros antigos fazia Lívia se sentir em casa. Enquanto pesquisava para um trabalho, encontrou um volume bastante gasto de poemas brasileiros, ao abrir a primeira página, encontrou uma anotação escrita à mão. "Para quem acredita que as palavras também sabem abraçar." Ela ficou olhando para a frase por alguns segundos. — Maya...Olha isso. Maya aproximou-se, leu a dedicatória, sorriu. — Parece algo que você escreveria. Lívia fechou o livro devagar. — Um dia quero que alguém encontre um dos meus livros numa biblioteca...E sinta isso. — O quê? — Que não está sozinho. Maya segurou sua mão sobre a mesa. — Tenho certeza de que vai acontecer. Ao saírem da biblioteca, começaram a caminhar sem destino pelo campus, as árvores balançavam com o vento, folhas secas cobriam parte do caminho. — Sabe o que eu estava pensando? — perguntou Maya. — Hum? — Faz tempo que não fazemos algo só por diversão. Lívia riu. — Você quer fugir das responsabilidades? — Talvez um pouquinho. — E qual é o plano? Maya sorriu daquele jeito travesso que Lívia já conhecia. — Piquenique amanhã. Na praia, sem computadores, sem cadernos, sem pincéis. — Você consegue ficar um dia sem pintar? — Vai ser um desafio. — E eu sem escrever. — Então está combinado. No sábado, o céu amanheceu completamente azul, as duas chegaram cedo à praia carregando uma cesta de palha, uma toalha xadrez e uma pequena caixa de som, haviam preparado sanduíches, frutas e um bolo de limão feito pela mãe de Lívia. Passaram horas conversando, brincaram de adivinhar formatos nas nuvens, entraram no mar, correram pela areia como duas crianças. Em determinado momento, Maya encontrou uma concha perfeitamente branca. — Essa é para você. Lívia recebeu o presente com carinho. — Mais uma lembrança? — Mais uma prova de que o mar gosta da gente. Lívia riu. — Ou de que você gosta de transformar qualquer passeio em uma caça ao tesouro. — Também. Quando o sol começou a se pôr, deitaram lado a lado sobre a toalha, o céu se tingia de laranja, rosa e dourado. Maya quebrou o silêncio. — Você já reparou que quase todos os nossos momentos importantes aconteceram perto do mar? Lívia virou o rosto para ela. — Acho que ele virou personagem da nossa história. — Talvez o principal. Lívia sorriu. — Não, o principal sempre foi você. Maya ficou em silêncio por um instante, depois aproximou-se e beijou Lívia com delicadeza, sem pressa. Como quem conhecia cada detalhe daquele momento e queria guardá-lo para sempre. Quando se afastaram, Maya sussurrou: — Promete uma coisa? — Prometo. — Não importa onde a vida nos leve depois da faculdade...Nunca vamos deixar de voltar para o mar. Lívia olhou para o horizonte, as ondas continuavam chegando à areia, uma depois da outra, estendeu o dedo mínimo. — Promessa. Maya entrelaçou o próprio dedo ao dela. — Promessa. Naquele instante, nenhuma das duas sabia exatamente o que o futuro reservava, mas tinham uma certeza, enquanto existisse um caminho até o mar, sempre haveria um caminho de volta uma para a outra. A segunda-feira começou com uma surpresa, assim que chegaram à universidade, Maya e Lívia encontraram um cartaz afixado no mural principal. SEMANA CULTURAL – VOZES DO FUTURO Exposição de Arte • Lançamento de Livros • Música • Palestras Logo abaixo, uma lista com os participantes convidados, Maya passou os olhos rapidamente, então parou. — Lívia... Ela apontou para um dos nomes. Maya Soares – Exposição "Marés" Lívia sorriu. — Você está oficialmente no cartaz. Maya levou alguns segundos para acreditar, passou os dedos sobre o próprio nome impresso. — É estranho... — O quê? — Passei tanto tempo imaginando esse momento...Agora ele existe. Enquanto caminhavam pelo corredor, ouviram alguém chamá-las, era o professor Henrique. — Estava procurando vocês. Ele carregava uma pasta cheia de documentos. — Tenho mais uma novidade. As duas trocaram um olhar. Henrique riu. — Vocês parecem esperar notícias boas o tempo todo. — Depois dos últimos meses, acostumamos m*l — brincou Lívia. — Pois podem se acostumar mais um pouco. Ele entregou um envelope. — A universidade criou um prêmio para projetos que unam pesquisa e impacto social, o trabalho de vocês foi indicado. Maya abriu o envelope. Leu rapidamente. Depois olhou para Lívia. — Nós fomos indicadas... — Isso significa que... Henrique sorriu. — Significa que o trabalho de vocês está inspirando outras pessoas e isso vale mais do que qualquer troféu. Naquela tarde, decidiram comemorar de um jeito simples, compraram sorvetes em uma pequena lanchonete perto da praia, sentaram-se no calçadão observando crianças brincando na areia, uma delas tentava construir um castelo. Sempre que uma onda chegava, parte da areia desmoronava, mesmo assim, ela começava de novo. Maya observava a cena. — Ela não desiste. Lívia sorriu. — Talvez porque saiba que a graça não está em terminar, está em construir. Maya olhou para ela. — Acho que isso serve para a vida também. Ao anoitecer, caminharam pela areia com os pés descalços, o vento fazia os cabelos de Lívia dançarem, ela parecia mais leve do que nunca. — Posso te perguntar uma coisa? — Claro. — Você ainda sente medo? Maya pensou antes de responder. — Sinto. — De quê? — De perder pessoas, de decepcionar quem acredita em mim, de não conseguir criar algo bonito outra vez. Ela respirou fundo. — Mas o medo deixou de mandar em mim. Lívia apertou sua mão. — Acho que comigo aconteceu a mesma coisa, antes eu tinha medo de nunca ser suficiente, agora...Tenho v*****e de descobrir até onde consigo chegar. Mais tarde, já em casa, Maya encontrou uma caixa antiga no alto do armário, era uma das poucas que ainda não tinha aberto desde a mudança, sentou-se no chão da sala, retirou fotografias, bilhetes, alguns desenhos da infância. No fundo da caixa havia um envelope amarelado, reconheceu imediatamente a letra da mãe. O envelope estava fechado, nunca tinha sido aberto, seu coração acelerou. — Lívia... Ela apareceu na sala. — O que foi? Maya mostrou o envelope. — Acho que minha mãe escreveu isso antes de morrer. As duas permaneceram em silêncio, Maya segurava a carta com as mãos trêmulas. — Você quer abrir agora? Ela respirou fundo, olhou novamente para a letra delicada no papel, depois assentiu. Com cuidado, rompeu o lacre, dentro havia apenas uma folha dobrada, ela começou a ler em silêncio, pouco a pouco, seus olhos se encheram de lágrimas, Lívia esperou, sem perguntar, sem interromper. Quando terminou a leitura, Maya levou a carta ao peito. — O que ela escreveu? Maya sorriu entre as lágrimas. — Ela dizia... "Se um dia a tristeza parecer maior do que você, procure o mar, ele sempre me lembrava que nenhuma tempestade dura para sempre. E, quando encontrar alguém que faça você se sentir em casa... não tenha medo de ficar." Maya não conseguiu continuar, Lívia a abraçou com força. As duas permaneceram assim por vários minutos, em silêncio, porque algumas palavras não precisavam de resposta, precisavam apenas de um abraço. Naquela noite, enquanto o som das ondas chegava pela janela aberta, Maya compreendeu que a mãe nunca lhe deixara apenas lembranças, também lhe deixara coragem, pela primeira vez, sentiu que estava pronta para seguir em frente sem culpa, levando o passado consigo, mas sem permitir que ele a impedisse de viver o futuro.
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