"Todo fim de ciclo nos convida a olhar para trás. Não para sentir saudade do que passou, mas para reconhecer a pessoa que nos tornamos."
Outubro chegou trazendo o cheiro das primeiras chuvas da primavera, os corredores da universidade estavam mais silenciosos do que o normal, não porque houvesse menos alunos, mas porque todos pareciam entender que aqueles meses seriam os últimos antes da despedida, Maya e Lívia caminhavam pelo campus em um ritmo mais lento, como se tentassem guardar cada detalhe, o banco onde almoçavam, a biblioteca, o ateliê, a pequena cafeteria perto da entrada,tudo parecia ganhar um significado novo. Naquela semana, os convites da formatura finalmente chegaram, cada aluno recebeu um envelope azul-marinho com o brasão da universidade, Maya passou os dedos sobre o papel.
— Achei que esse dia nunca fosse chegar.
Lívia sorriu.
— Eu também.
Abriram os envelopes juntas, ali estavam as datas dos ensaios, da colação de grau e do baile, tudo parecia oficial, real.
— Já escolheu quem vai ser sua convidada? — perguntou Maya, brincando.
Lívia fingiu pensar.
— Acho que vou chamar uma artista famosa, que pinta o mar melhor do que ninguém.
— Hum...Conheço alguém assim.
— Ela também faz as melhores torradas queimadas do mundo.
As duas caíram na risada, os colegas olharam curiosos, mas elas já não se importavam. Na sexta-feira, receberam a notícia de que o projeto de pesquisa desenvolvido por elas havia conquistado o prêmio de impacto social da universidade, o auditório inteiro levantou-se para aplaudir quando seus nomes foram anunciados, Maya segurava o troféu com as mãos trêmulas, Lívia m*l conseguia conter as lágrimas, o professor Henrique subiu ao palco ao lado delas.
— Esse prêmio não reconhece apenas um excelente trabalho acadêmico.
Reconhece duas pessoas que entenderam que conhecimento só faz sentido quando transforma vidas, ao entregar o troféu, sorriu discretamente.
— Continuem transformando, o mundo precisa de gente como vocês.
Depois da cerimônia, foram até a praia, era quase uma tradição, sempre que algo importante acontecia, terminavam o dia ali, Maya colocou o troféu sobre a areia, Lívia fotografou a cena.
— Quem diria...
— O quê? — perguntou Maya.
— Que aquele primeiro trabalho em g***o chegaria até aqui.
Maya olhou para o horizonte.
— Acho que nunca foi só sobre o trabalho.
— Não?
Ela balançou a cabeça.
— Foi sobre encontrar alguém que acreditasse em mim quando eu ainda não acreditava.
Lívia segurou sua mão.
— Você fez o mesmo por mim.
Na semana seguinte, a editora entrou novamente em contato, desta vez, Beatriz queria conhecer os capítulos finais do romance, Lívia passou dois dias revisando cada página, mudou palavras, apagou frases e reescreveu diálogos. Quando finalmente enviou o manuscrito, fechou o notebook e respirou fundo.
— Foi.
Maya levantou os olhos da tela que pintava.
— Enviou?
Lívia assentiu.
— Agora não depende mais de mim.
Maya caminhou até ela, abraçou-a por trás.
— Dependeu de você durante meses, agora deixa a história encontrar o caminho dela.
Naquela noite, as duas decidiram fazer uma caminhada longa pela orla, a lua refletia sobre o mar, o vento era leve. Passaram por famílias, corredores, músicos de rua e crianças brincando na areia, em determinado momento, Maya parou.
— Fecha os olhos.
Lívia obedeceu, sentiu Maya colocar alguma coisa em sua mão.
— Pode abrir.
Era uma pequena chave presa a um chaveiro de madeira em forma de onda, Lívia franziu a testa.
— Uma chave?
Maya sorriu, um pouco nervosa.
— Assinei o contrato do apartamento hoje.
Lívia permaneceu completamente imóvel.
— Você...
— Ainda não vamos nos mudar, só depois da formatura.
Ela respirou fundo.
— Queria que essa fosse a nossa primeira chave.
Os olhos de Lívia se encheram de lágrimas imediatamente.
— Você está falando sério?
Maya riu.
— Nunca falei tão sério.
Lívia a abraçou com tanta força que quase a fez perder o equilíbrio.
— Essa é a melhor surpresa da minha vida.
— Ainda nem viu o apartamento.
— Não importa, vai ser nosso.
As ondas quebravam lentamente na areia enquanto permaneciam abraçadas, pela primeira vez, aquele futuro deixava de ser apenas um plano, agora tinha paredes, janelas, uma varanda de frente para o mar e uma chave. Uma pequena chave capaz de abrir muito mais do que uma porta, ela abriria o próximo capítulo da vida das duas, Maya olhou para Lívia e sorriu.
— Pronta para começar uma nova história?
Lívia segurou a chave entre os dedos, depois segurou a mão de Maya.
— Desde o dia em que te conheci.
As duas seguiram caminhando pela praia, lado a lado, a trás delas, o mar apagava lentamente as pegadas na areia, mas havia marcas que nenhuma onda conseguiria levar, porque algumas histórias não terminam quando encontramos o amor. Elas apenas começam uma nova maré.
Dois dias depois de receberem a chave, Maya insistiu para que fossem conhecer o apartamento.
— Não quero esperar até a mudança — disse ela, sorrindo enquanto girava o chaveiro em forma de onda nos dedos.
Lívia concordou sem pensar duas vezes, pegaram um ônibus no início da tarde. Durante todo o trajeto, Maya parecia inquieta. Batia os dedos no banco, olhava pela janela, voltava a sorrir sozinha.
— Você está nervosa? — perguntou Lívia.
— Muito.
— Achei que só eu ficasse assim.
— É que... isso está deixando de ser um sonho, está virando vida.
O prédio ficava em uma rua tranquila, a poucos quarteirões da praia, era simples, sem luxo, mas tinha uma fachada branca coberta por pequenas plantas que desciam das sacadas, subiram dois lances de escada. Quando Maya colocou a chave na fechadura, as duas prenderam a respiração, a porta se abriu lentamente, o apartamento ainda estava completamente vazio, paredes brancas, piso de madeira clara, uma sala iluminada pela luz da tarde e ao fundo, uma varanda, Lívia caminhou até ela quase sem perceber. Quando abriu a porta de vidro, o vento trouxe o cheiro salgado do mar, lá longe, o oceano ocupava toda a linha do horizonte, ela sorriu.
— Maya...Você escolheu exatamente o lugar que eu imaginava.
Maya aproximou-se.
— Eu escolhi o lugar onde imaginei nós duas.
Passaram a tarde inteira explorando cada cômodo, na cozinha, discutiram onde ficaria a cafeteira.
— Aqui.
— Não, perto da janela.
— Mas aí o sol bate de manhã.
— Melhor ainda, café com sol.
No quarto, começaram a imaginar onde colocariam a cama, na sala, Maya apontou para uma parede vazia.
— Meu ateliê vai ficar aqui.
Lívia olhou para a parede oposta.
— E minha estante ali.
— Vai caber?
— Não.
— Então vamos comprar outra.
As duas riram, era engraçado planejar uma casa que ainda não tinha um único móvel, mas, de algum modo, ela já parecia cheia de planos. Quando o sol começou a se pôr, sentaram-se no chão da varanda, sem cadeiras, sem mesa, apenas lado a lado. O céu se transformava lentamente em tons de laranja e rosa, Maya permaneceu em silêncio por alguns minutos, depois falou baixinho:
— Sabe qual é a minha maior felicidade?
Lívia virou-se para ela.
— Qual?
— Descobrir que eu não preciso de uma casa enorme, nem de uma vida perfeita, só preciso que exista um lugar onde eu possa voltar no fim do dia...E encontrar você.
Os olhos de Lívia se encheram de lágrimas, ela segurou delicadamente a mão de Maya.
— Eu passei anos procurando um lugar onde me sentisse em casa.
Sorriu.
— Agora descobri que casa nunca foi um lugar, sempre foi uma pessoa.
Maya aproximou-se lentamente, o beijo aconteceu com a mesma delicadeza das ondas que quebravam ao longe, sem pressa, sem medo. Como quem sabia que ainda teria uma vida inteira para repetir aquele momento. Antes de irem embora, Maya retirou um pequeno envelope da mochila.
— Tem mais uma coisa.
— Outra surpresa?
— Prometo que essa é a última... por hoje.
Lívia abriu o envelope, dentro havia duas folhas, ela começou a ler, era um contrato. Na última página, um espaço aguardava uma segunda assinatura, Lívia levantou os olhos, surpresa.
— Você...
Maya sorriu, um pouco emocionada.
— Eu assinei primeiro, mas só quero morar aqui se esse também for o seu sonho.
As lágrimas escorreram pelo rosto de Lívia antes mesmo que ela respondesse, ela pegou a caneta, olhou mais uma vez para Maya, depois assinou seu nome. Naquele instante, o apartamento deixava de ser apenas um imóvel alugado, tornava-se o primeiro capítulo da vida que escolheram construir juntas, quando saíram do prédio, o céu já estava escuro, as luzes da cidade começavam a se acender e o mar, como desde o início daquela história, permanecia ali, silencioso, constante, como se soubesse que ainda guardava uma última maré para elas.
O último mês da graduação chegou quase sem que percebessem, durante quatro anos, Maya e Lívia haviam contado os dias para as férias, para as viagens, para a entrega dos trabalhos e agora, pela primeira vez, contavam os dias para dizer adeus. A universidade organizou uma cerimônia simples para os formandos, nada muito formal, apenas uma tarde para que professores e alunos compartilhassem as últimas lembranças antes da colação de grau, o campus estava enfeitado com fotografias de todas as turmas. Em um grande mural, cada estudante podia escrever uma mensagem, Lívia ficou alguns minutos observando os bilhetes.
"Nunca desistam dos seus sonhos."
"A amizade foi meu maior diploma."
"Até breve."
Ela pegou uma caneta, pensou durante alguns segundos, então escreveu:
"Obrigada por me apresentar a pessoa que mudou a minha vida."
Ao lado da frase, desenhou uma pequena onda, Maya, que observava de longe, sorriu ao reconhecer o desenho. No auditório, o professor Henrique fazia seu último discurso para a turma, ele caminhou lentamente até o centro do palco, olhou para todos os alunos antes de começar.
— Durante muitos anos, pensei que meu trabalho era ensinar teoria.
Hoje sei que estava errado, o silêncio tomou conta da sala.
— Nosso verdadeiro trabalho é ajudar vocês a descobrirem quem são, alguns encontrarão isso na profissão, outros, nas pessoas que conheceram aqui e alguns terão a sorte de encontrar os dois.
Henrique olhou discretamente para Maya e Lívia.
As duas sorriram, sabiam que aquelas palavras também eram para elas.
— Nunca deixem que o medo seja maior do que a curiosidade, foi a curiosidade que trouxe vocês até aqui, agora deixem que ela conduza o restante da viagem.
O auditório inteiro levantou-se para aplaudi-lo, depois da cerimônia, os corredores foram tomados por abraços, fotografias e promessas de reencontro, Sofia apareceu correndo.
— Última selfie da faculdade!
— Você fala isso desde a semana passada — brincou Maya.
— Porque cada dia é uma última coisa diferente.
As quatro amigas riram, tiraram dezenas de fotos, na escadaria principal, na biblioteca, no jardim, no ateliê, no banco onde tantas vezes estudaram juntas. Cada clique parecia tentar congelar o tempo, como se, ao registrar aqueles instantes, conseguissem impedir que eles terminassem, no fim da tarde, Maya e Lívia voltaram sozinhas ao ateliê, as mesas estavam organizadas, os cavaletes vazios, o cheiro de tinta permanecia no ambiente. Maya caminhou até o canto onde havia pintado sua primeira tela, passou os dedos sobre a madeira da bancada.
— Foi aqui que tudo começou.
Lívia aproximou-se.
— Não.
Maya olhou para ela.
— Tudo começou quando você me perguntou se eu precisava de ajuda para carregar aquelas telas.
As duas sorriram, era uma lembrança pequena,quase insignificante, mas que havia mudado completamente suas vidas. Antes de irem embora, Maya retirou um pincel da mochila, molhou a ponta em um pequeno pote de tinta azul que havia levado consigo, na parte de trás de um velho cavalete que seria descartado, pintou discretamente uma pequena onda.
Lívia observou em silêncio.
— Para quê?
Maya limpou as mãos.
— Talvez um dia alguém encontre isso e saiba que duas garotas passaram por aqui.
Lívia sorriu, pegou uma caneta do bolso, logo abaixo da onda escreveu:
"Toda história começa com um encontro."
As duas se afastaram alguns passos para observar, ninguém perceberia aquela pequena marca, mas elas saberiam e isso bastava. Quando deixaram a universidade pela última vez como estudantes, o sol começava a desaparecer, caminharam até a praia sem precisar combinar, era impossível terminar aquele capítulo em outro lugar, sentaram-se na areia, exatamente onde haviam conversado tantas vezes, o mar estava tranquilo, as ondas quebravam lentamente, como se também se despedissem.
Lívia apoiou a cabeça no ombro de Maya.
— Você acha que algum dia vamos esquecer tudo isso?
Maya sorriu.
— Não, acho que um dia vai doer menos sentir saudade, mas esquecer...Nunca.
Ela segurou a mão de Lívia, as duas permaneceram em silêncio, não era um silêncio triste, era um daqueles silêncios que só existem quando duas pessoas sabem que não precisam dizer mais nada, o céu escurecia lentamente, as primeiras estrelas surgiam e o mar continuava ali, exatamente como no dia em que elas se conheceram, constante, paciente, infinito. Maya olhou para o horizonte e sorriu.
— Pronta para a próxima maré?
Lívia entrelaçou seus dedos aos dela.
— Desde o primeiro dia.
Levantaram-se juntas, atrás delas, a universidade permanecia cheia de histórias, à frente, uma nova vida as esperava e entre esses dois mundos, havia o mar. O mesmo mar que testemunhou o primeiro encontro, o primeiro beijo, os primeiros sonhos e que agora assistia, silenciosamente, ao início de um futuro construído por duas mulheres que aprenderam que amar também era escolher permanecer.