Capitulo 8 - Entre o medo e a coragem

2696 Words
'' O amor nunca chega perguntando se já estamos prontos. Ele apenas encontra um lugar para ficar''. Na manhã seguinte, Lívia acordou antes do despertador. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, e o som distante da chuva batendo na janela fazia tudo parecer mais lento. Ela permaneceu deitada, observando o teto branco, enquanto as lembranças do dia anterior voltavam como ondas insistentes. -"Você ficou com ciúmes?" A pergunta de Maya parecia ter ficado presa em sua cabeça. Ela havia n****o,mas, pela primeira vez na vida, percebeu que mentira para alguém... e para si mesma. Não era apenas amizade,não era apenas admiração.Era algo que crescia silenciosamente, ocupando espaços que antes pertenciam apenas à rotina. Pegou o celular na mesa de cabeceira. Havia uma notificação. -Maya — 07h12 -"Bom dia, mar." Lívia franziu a testa e sorriu ao mesmo tempo. Respondeu: -"Mar?" A resposta veio quase instantaneamente. -"Ainda não descobri se você é porto ou tempestade. Então resolvi te chamar de mar." Lívia ficou olhando para a tela por alguns segundos. Seu coração parecia sorrir antes mesmo de seus lábios. Ela digitou: -"Bom dia, artista." Demorou menos de cinco segundos para Maya responder. -"Gostei desse apelido." -"Achei justo." -"Então hoje você me paga um café." -"Isso foi uma cobrança?" -"Foi um convite disfarçado." -"Às dez?" -"Às dez." O café de sempre. A cafeteria estava cheia,o cheiro de café recém-passado misturava-se ao de pão de queijo saindo do forno. Lívia chegou primeiro,escolheu a mesa perto da janela, a mesma onde haviam planejado o projeto semanas atrás. Enquanto esperava, abriu o pequeno caderno azul que Maya lhe dera de presente,ainda havia poucas páginas escritas. Na primeira delas, apenas uma frase: "Talvez algumas pessoas apareçam para nos ensinar que amar também pode ser tranquilo." Ela passou os dedos sobre a tinta,nunca havia mantido um diário,mas aquele caderno começava a guardar coisas que ela não conseguia dizer em voz alta. — Você escreve bonito. Lívia levantou os olhos. Maya estava parada ao lado da mesa. Usava uma camisa de linho azul-clara, uma calça jeans e os cabelos presos em uma trança frouxa. — Você chegou sem fazer barulho. — Você estava concentrada. Ela apontou para o caderno. — Posso? Lívia hesitou por um instante, depois entregou o caderno. Maya leu apenas a primeira frase. Quando terminou, fechou a capa com delicadeza. — Isso é sobre alguém? Lívia sentiu o rosto esquentar. — Talvez. — Essa pessoa tem sorte. Ela devolveu o caderno. — Porque alguém escreveu uma frase assim pensando nela. Lívia abaixou os olhos para esconder o sorriso. Se Maya soubesse... Uma proposta inesperada,depois do café, caminharam até a universidade. O professor Henrique já os esperava na sala. — Tenho uma novidade para vocês. A turma imediatamente silenciou. — O projeto de vocês foi selecionado para representar a universidade em uma mostra acadêmica. Os alunos começaram a comemorar. — Porém... Henrique levantou um dedo. — A apresentação será feita em dupla. Lívia olhou para Maya. Maya olhou para Lívia. As duas sorriram ao mesmo tempo. — E vocês terão apenas três semanas para finalizar tudo. Assim que a aula terminou, Maya bateu levemente no ombro de Lívia. — Acho que vamos passar bastante tempo juntas. Lívia respondeu sem pensar: — Eu não me importo. As palavras escaparam antes que pudesse filtrá-las. Maya sorriu, daquele jeito calmo que fazia qualquer ambiente parecer mais leve. — Eu também não. O primeiro ensaio Na biblioteca, espalharam livros, fotografias e entrevistas sobre a mesa. Entre uma anotação e outra, Maya observava Lívia discretamente. — O que foi? — perguntou Lívia. — Posso falar uma coisa? — Claro. — Você está mais leve. Lívia ergueu uma sobrancelha. — Como assim? — Quando te conheci, parecia que você carregava o peso do mundo nos ombros. Ela sorriu. — Agora você ri mais. Lívia permaneceu em silêncio. Talvez fosse verdade. Talvez a vida tivesse ficado um pouco mais bonita desde que Maya apareceu. E talvez... A razão estivesse sentada bem à sua frente. A biblioteca estava quase vazia quando o relógio marcou cinco da tarde. Os raios de sol atravessavam as grandes janelas de vidro, iluminando as pilhas de livros espalhadas pela mesa,Lívia revisava as entrevistas enquanto Maya desenhava o mapa que usariam na apresentação. — Você já percebeu que faz uma cara engraçada quando está concentrada? — perguntou Maya. Lívia levantou os olhos. — Eu faço? — Faz. — Que tipo de cara? Maya mordeu o lábio para segurar o riso. — Parece que está brigando mentalmente com o texto. Lívia pegou um marcador e fingiu ameaçá-la. — Muito engraçado. — É mesmo. As duas começaram a rir. O bibliotecário levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio. — Desculpa... — disseram ao mesmo tempo. Quando saíram da biblioteca, continuaram rindo. — A culpa foi sua — disse Lívia. — Minha? — Foi você quem começou. — Eu só falei a verdade. — Você fala verdades inconvenientes. — E você foge delas. A frase fez Lívia diminuir o passo. — O que quer dizer? Maya respirou fundo. — Você sempre muda de assunto quando a conversa chega perto dos seus sentimentos. Lívia ficou alguns segundos sem responder,ela sabia que Maya estava certa,mas admitir isso em voz alta parecia assustador. — Talvez eu ainda esteja aprendendo. Maya sorriu. — Tudo bem. - Eu também estou. Naquela noite, resolveram caminhar pela orla antes de ir para casa,omar estava calmo. Algumas pessoas caminhavam pela areia, outras assistiam ao pôr do sol sentadas no calçadão. Maya tirou os tênis e desceu até a água. — Vem! Lívia riu. — Eu estou de calça. — E daí? — Vai molhar. — Algumas coisas valem a roupa molhada. Depois de hesitar por alguns segundos, Lívia desceu também. A água fria fez as duas estremecerem. — Você tinha razão... — Eu sempre tenho. — Não exagera. Caminharam em silêncio por alguns minutos,as ondas tocavam seus pés e voltavam para o mar. Foi Maya quem quebrou o silêncio. — Sabe do que eu tenho medo? — Do quê? Ela olhou para o horizonte. — De criar expectativas. Lívia virou o rosto para ela. — Por quê? — Porque toda vez que esperei demais de alguém... ...essa pessoa foi embora. A resposta ficou suspensa entre elas,Lívia aproximou-se um pouco. — Eu não pretendo ir embora. Maya sorriu, mas havia tristeza em seus olhos. — As pessoas sempre dizem isso. Sem pensar, Lívia segurou sua mão,dessa vez, não foi um gesto impulsivo foi uma escolha. Maya olhou para os dedos entrelaçados. Depois para Lívia. — Você percebe que está segurando minha mão? Lívia sorriu, nervosa. — Percebo. — E vai soltar? Ela respirou fundo. — Não... se você não quiser. Maya respondeu apertando sua mão com delicadeza. — Então não solta. As duas continuaram caminhando,agora de mãos dadas,nenhuma delas comentou o que aquilo significava,não precisavam.O gesto dizia tudo o que ainda faltava coragem para transformar em palavras.Quando o céu começou a escurecer, sentaram-se na areia,Maya desenhava distraidamente círculos com o dedo. — Posso confessar uma coisa? — Claro. — Eu fiquei com medo quando a Helena apareceu. Lívia ficou surpresa. — Medo? — De você achar que eu ainda estava presa ao passado. Lívia balançou a cabeça. — Eu nunca pensei isso. — Pensou um pouquinho. Ela sorriu. — Pensei que talvez você ainda tivesse sentimentos por ela. Maya virou completamente o corpo em sua direção. — Eu não tenho. Meu coração está aprendendo a gostar de outra pessoa,Lívia sentiu o peito apertar,o vento parecia ter parado,as ondas continuavam quebrando, mas ela já não as ouvia. — E... Quem é? Maya sorriu daquele jeito calmo que Lívia conhecia tão bem,mas, antes que pudesse responder, o celular de Maya começou a tocar. As duas olharam para a tela,o nome da ligação fez o sorriso desaparecer,"Pai." Maya suspirou. — Eu preciso atender. Ela levantou e caminhou alguns metros,Lívia permaneceu sentada na areia,observando,sem conseguir afastar a sensação de que aquela ligação mudaria alguma coisa entre elas.E, pela expressão que Maya fazia enquanto ouvia a voz do outro lado da linha...A notícia definitivamente não era boa. Maya demorou alguns minutos para desligar o telefone. Lívia observava de longe, a garota que sempre falava com as mãos, sorria sem medo e encontrava poesia em qualquer detalhe agora permanecia imóvel, olhando para o chão. Quando voltou, seu sorriso havia desaparecido. — Está tudo bem? — perguntou Lívia, levantando-se da areia. Maya demorou a responder. — Meu pai quer vender a casa. — A casa onde vocês moravam? Ela assentiu. — A última que minha mãe escolheu. Sua voz falhou. — Ele disse que não consegue mais entrar lá sem lembrar dela. Lívia não sabia o que dizer,havia momentos em que nenhuma palavra era suficiente.Então fez a única coisa que parecia certa,abraçou Maya. No começo, Maya permaneceu rígida,como se tivesse esquecido como era ser acolhida.Depois, lentamente, descansou a cabeça no ombro de Lívia,e chorou,não era um choro alto,era silencioso,daqueles que doem mais porque foram guardados por muito tempo. Lívia apenas permaneceu ali,sem interromper,sem pedir que ela fosse forte,sem dizer que tudo ficaria bem.Porque sabia que algumas dores não desaparecem, elas apenas aprendem a ocupar menos espaço.Quando Maya conseguiu se acalmar, sentaram-se novamente na areia.O céu já estava escuro, e apenas a lua refletia sobre o mar. — Sabe do que eu mais tenho medo? — perguntou Maya. Lívia balançou a cabeça. — Esquecer a voz dela. Ela sorriu entre as lágrimas. — Eu lembro do cheiro do perfume. Da risada,do jeito que ela fazia cafuné,mas a voz...Às vezes ela começa a escapar da minha memória. Lívia segurou sua mão. — Então me conta sobre ela. Maya a encarou. — O quê? — Conta tudo. Cada história,cada lembrança.Enquanto você contar...ela continua viva dentro de você,os olhos de Maya voltaram a se encher de lágrimas,mas, dessa vez, havia um sorriso. — Você sempre sabe o que dizer? Lívia riu baixinho. — Na verdade... Quase nunca. As duas riram juntas,pela primeira vez naquela noite, o peso diminuiu um pouco,durante mais de uma hora, Maya falou sobre a mãe,contou como ela desafinava cantando músicas antigas enquanto cozinhava,como insistia em colocar plantas pela casa, mesmo sabendo que esquecia de regá-las,como dizia que o mar era a melhor terapia do mundo. Lívia ouviu cada palavra com atenção,guardando todas elas como se fossem também suas lembranças. Quando Maya terminou, respirou fundo. — Obrigada por escutar. — Obrigada por confiar em mim. O silêncio voltou,mas agora era um silêncio tranquilo,na volta para casa, pegaram o mesmo ônibus,estava quase vazio,sentaram-se lado a lado, perto da janela,o balanço do veículo e o cansaço do dia fizeram Maya fechar os olhos,sem perceber, sua cabeça encostou no ombro de Lívia. Lívia sorriu discretamente,olhou para a janela,depois para Maya.Por um instante, pensou em acordá-la, mas desistiu,ela parecia em paz.Então permaneceu imóvel durante todo o trajeto, apenas para não interromper aquele descanso,quando o ônibus parou no ponto de Maya, ela despertou assustada. — Meu Deus... Ela levou a mão ao rosto. — Eu dormi? Lívia riu. — Dormiu. — E eu fiquei... Ela percebeu onde estava apoiada,ficou completamente vermelha. — Desculpa. — Não precisa pedir desculpas. Maya sorriu. — Acho que seu ombro virou meu lugar favorito. Lívia sentiu o coração acelerar,era incrível como Maya conseguia dizer coisas simples que pareciam enormes. Antes de ir embora, Maya caminhou alguns passos,depois voltou. — Lívia? — Oi? Ela respirou fundo. — Obrigada por hoje. Não apenas por me ouvir,mas por ficar. Lívia deu um pequeno sorriso. — Eu prometi que não iria embora. E pretendo cumprir. Maya a encarou por alguns segundos,como se quisesse dizer alguma coisa,mas apenas sorriu,virou-se e entrou no prédio. Lívia ficou observando até a luz do apartamento acender,naquele momento, percebeu que amar alguém também era isso,esperar que a pessoa chegasse em casa em segurança,torcer pelo sorriso dela,e desejar, silenciosamente, ser um lugar onde ela pudesse descansar o coração. Na manhã seguinte, Salvador acordou coberta por um céu cinza,Lívia passou a aula inteira distraída.Tentava copiar as anotações do professor, mas sua mente voltava repetidamente à noite anterior,ao abraço, á conversa sobre a mãe de Maya. À frase que não saía da sua cabeça. "Meu coração está aprendendo a gostar de outra pessoa." Ela queria acreditar que aquela pessoa era ela,mas tinha medo de criar expectativas.No intervalo, caminhou até a cafeteria,encontrou Maya sentada perto da janela, desenhando em seu caderno,assim que levantou os olhos, sorriu. Aquele sorriso que parecia iluminar qualquer lugar. — Você demorou. — O professor resolveu explicar a mesma coisa cinco vezes. — Coitado... — De quem? — Do conteúdo. As duas riram. Maya empurrou um copo de café em direção a Lívia. — Já pedi o seu. — Você realmente não vai desistir de cuidar de mim, né? Maya deu de ombros. — Não enquanto você continuar esquecendo de cuidar de si mesma. Lívia abaixou os olhos para esconder o sorriso. Naquela tarde, decidiram terminar os últimos detalhes da apresentação,passaram horas organizando fotos, revisando entrevistas e montando os slides. Quando terminaram, a universidade já estava quase vazia. — Conseguimos. — Maya comemorou, levantando os braços. — Finalmente. — Agora falta uma tradição. — Que tradição? — Comemorar. — Você comemora absolutamente tudo. — Claro. As pequenas vitórias também merecem festa,foram caminhando até a praia,o pôr do sol pintava o céu em tons de laranja, rosa e dourado. Maya tirou uma câmera analógica da mochila. — Fica ali. — Para quê? — Confia. Lívia caminhou até perto da água. O vento bagunçou seus cabelos. Ela olhava para o horizonte quando ouviu o clique da câmera. — Posso ver? — Ainda não. — Por quê? — Porque filme precisa ser revelado. Ela sorriu. — Algumas coisas ficam mais bonitas quando aprendem a esperar. Lívia balançou a cabeça. — Você transforma tudo em poesia. — Culpa sua. — Minha? — Você me inspira. As palavras saíram baixas,mas chegaram com força. Lívia perdeu completamente a coragem de responder. Sentaram-se na areia, o mar estava calmo, por alguns minutos, apenas observaram as ondas. Até que Maya respirou fundo. — Posso te contar uma coisa? — Sempre. Ela brincava com a areia entre os dedos. Claramente nervosa. — Lembra quando você perguntou se eu ainda gostava da Helena? Lívia assentiu. — A resposta continua sendo não. Ela sorriu de leve. — Porque faz algum tempo que meu coração escolheu outra pessoa. O silêncio pareceu durar uma eternidade. Lívia sentiu o coração acelerar. — Maya... Ela ergueu os olhos. Havia medo neles,mas também havia esperança. — Eu não sei o que vai acontecer com a gente,não sei se você sente o mesmo e não quero colocar nenhum peso sobre você, só... Ela respirou profundamente. — Achei que você merecia saber. Lívia demorou alguns segundos para encontrar a própria voz. As mãos tremiam, o peito parecia pequeno demais para guardar tudo o que sentia. — Eu também estou com medo. Maya permaneceu em silêncio. — Passei anos tentando convencer a mim mesma de que era mais seguro não deixar ninguém entrar, mas você entrou, sem pedir licença e... Ela sorriu, nervosa. — Acho que nunca mais consegui imaginar meus dias sem você. Os olhos de Maya ficaram marejados, ela deu um passo à frente, devagar como quem se aproxima de um passarinho assustado. — Posso fazer uma coisa? Lívia apenas assentiu. Maya segurou delicadamente suas mãos. Os dedos se encaixaram como se já se conhecessem havia muito tempo, nenhuma das duas falou. O vento fazia os cabelos dançarem, as ondas quebravam logo atrás delas, Maya aproximou o rosto lentamente e parou a poucos centímetros de Lívia. — Se eu estiver indo rápido demais...Me diz. Lívia sorriu. Era um sorriso pequeno, mas cheio de coragem. — Não está. As duas fecharam os olhos ao mesmo tempo, quando seus rostos estavam prestes a se tocar...O celular de Lívia começou a tocar. As duas se afastaram, rindo do momento inesperado, na tela aparecia o nome de Clara. — Ela tem um talento impressionante para interromper momentos importantes — comentou Maya, entre risos. Lívia desligou a chamada, olhou novamente para Maya, as duas continuaram sorrindo. O beijo não aconteceu, ainda,mas, pela primeira vez, ambas tinham certeza de que ele aconteceria.E essa certeza era suficiente, porque, às vezes, a espera também faz parte da história de amor.
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