Prólogo/ Capítulos 1 e 2

3714 Words
–Veja Edward! Olha que maravilha! – Âmber exclamou empolgada com os peixes que se aglomeravam ao redor de seus pés desnudos enquanto os balançava dentro do lago – Não sei como você consegue ficar aí com esses cadernos num dia lindo como este! Por detrás da armação dos óculos, pesados demais para um garotinho de sua idade, Edward levantou o olhar e a encarou com uma expressão séria. – E eu não sei como você consegue ficar aí balançando os pés para esses bichos asquerosos, enquanto as provas finais se aproximam rapidamente. Âmber lhe encarou de volta com um sorriso de orelha a orelha. – Você é chato demais, Edward! Tão chato que não tenho palavras para descrever! – Falou só para provocá-lo, colocando-se em pé – Sinceramente não consigo entender o porquê de eu continuar sendo sua amiga! – Correu na direção dele dando uma sonora gargalhada. – Simples! – Respondeu Edward olhando-a nos olhos – Eu sou o único que suporta essa sua euforia descomedida por causa de nada. – Nada? Ora Edward, como pode dizer isso? A alegria está em absolutamente tudo! Não é maravilhoso ver tantos tons de azul neste lugar? – Âmber contestou enquanto girava de braços abertos em torno do próprio eixo. Edward olhou em volta cético. – Tantos tons de azul? Só estou vendo um, o azul do céu. – Disse com desdém. – Ai, ai, sempre desagradável... Levanta daí que vou te mostrar como há quatro tons de azul aqui. – Não, obrigado. – Ah, mas vai levantar sim! – Âmber ordenou, já começando a ficar irritada com a teimosia do amigo. Com um puxão, ela obrigou Edward a se colocar em pé e com um t**a certeiro arremessou o caderno que ele segurava na grama. – Se você manchar meu caderno, eu vou te fazer copiar a matéria pra mim outra vez! – Edward esbravejou. – Nem ligo! Agora veja: o primeiro azul é o azul do céu. – Aham, eu já tinha dito isso, nada novo. – Ele desdenhou. – O segundo azul Senhor Chato, é aquele ali das águas do lago. – Aquilo não é azul, é verde. – É azul! – Verde! – Tá bom, é um azul esverdeado, mas ainda assim é azul. – Pra mim é um verde azulado, mas vamos dizer que sim. Âmber bufou. – Agora veja aquele pássaro na árvore – apontou para a criatura de espécime desconhecida sobre um galho próximo – Seu penacho é azul! – Ok. Aquele penacho é mesmo azul. – Não falei? Olha quantos tons! Mas você disse quatro tons de azul e até agora só me mostrou três. E aí sabichona, onde está o quarto? Naquele momento Âmber, que ainda olhava para o pássaro, virou-se para ele e o encarou com um sorriso doce nos lábios. – Ora Edward, o azul dos seus olhos... – Respondeu. Aquelas palavras paralisaram o garoto. Desde seu nascimento ninguém além dele mesmo nunca –sequer uma vez – havia notado que seus olhos eram azuis. Ou então, se alguém notou, não havia dito nada. – Seus olhos são de um azul único! Não é um tom de azul que estamos acostumados a ver por aí, banalmente. É um azul especial, acinzentado, como as nuvens que antecedem uma tempestade. São absolutamente lindos! – O-obrigado... – Edward gaguejou. Ele queria ter feito um agradecimento melhor, mas ali parado, vendo o sorriso largo e perfeito de Âmber, um turbilhão de sensações tomou seu estômago. Era como se milhões de borboletas pequeninas fizessem uma revoada dentro dele, provocando cócegas que o faziam querer rir e chorar ao mesmo tempo. Seu coração acelerou e pela primeira vez na vida não foi por medo ou terror. Foi por algo diferente, único, avassalador, algo que seus doze anos de idade não eram capazes de interpretar. E ele permaneceu imóvel, desejando internamente que aquela sensação não acabasse nunca. – Edward, você está bem? – Âmber perguntou tocando seu braço. Foi então tirado de seus devaneios pelo peso do toque dela em sua pele. – Estou. – Conseguiu sussurrar. – Que bom! Temos que entrar agora, seu tio disse que nos serviria um lanche às 15h e já está quase na hora. Não podemos deixá-lo esperando. A simples menção de seu tio foi o suficiente para que o um balde de gelo fosse derramado sobre ele, fazendo-o voltar completamente à realidade. Enquanto Âmber apanhava seus cadernos e seu estojo do chão e caminhava em direção a casa, ele a seguiu lentamente tentando processar o que acabara de acontecer dentro de si. Há algum um tempo algo já havia mudado dentro dele, mas se recusava a dar atenção a isso. Certo dia, estar com Âmber começou a parecer mais interessante do que jogar futebol com os garotos do colégio. Ouvi-la falar sem parar sobre as coisas ao seu redor passou a ser mais empolgante do que ler um livro ou jogar videogame. Saber que a veria mais tarde lhe dava energia para levantar da cama, independente da hora em que havia pegado no sono. E agora, nesta tarde, as peças do quebra-cabeça que havia dentro dele finalmente se juntaram e tudo fez sentido. Era por ela e para ela que ele ainda continuava vivo mesmo que... Mesmo que tudo fosse tão difícil... – Vem Edward! Assim só chegaremos lá amanhã! – Âmber sorriu virando-se para ele enquanto seus cabelos cor de cobre esvoaçavam levados pelo vento, fazendo com que sua imagem naquela paisagem formasse a mais bela pintura que ele já havia visto. "Por ela e para ela..." – Ele pensou – "Para todo o sempre...". Cinco anos depois  A luz do sol penetrou agressiva pelo vidro da janela acertando em cheio a face de Âmber e fazendo-a franzir o cenho em desagrado. – Mas o que... – Ela pensou atordoada enquanto tentava abrir as pálpebras e se livrar do emaranhado de cabelos que caíam sobre o seu rosto. – Minha querida... – A voz de sua mãe quebrou o silêncio do ambiente – Se eu fosse você acordava meia hora antes de seu marido quando se casar, só para pentear os cabelos e se livrar dessa cara amassada de travesseiro. – Disse Judy enquanto terminava de abrir as persianas – O coitado não merece ter essa visão quando acordar. Em meio a uma bagunça de lençóis e cobertores, a garota levantou a cabeça com uma expressão aborrecida. – Fecha essa persiana, mãe! – Âmber disse enquanto cobria a cara com uma almofada. – Você faz ideia de que horas são, senhorita? – Hora de você sair do meu quarto e me deixar dormir. – Ela grasnou por baixo da barreira que havia criado para não ser atingida pela luz. – Bela tentativa mocinha. Levanta daí, já são 7h. – Tá de brincadeira né? – Não, não estou. Além do mais, Edward já está lá embaixo te esperando. Em um gesto brusco e repentino, Âmber atirou todos os cobertores e travesseiros para o lado e se colocou de pé em um pulo. – Caramba! Eu me esqueci! – Gritou enquanto corria para suíte do quarto. – Cabecinha de vento como sempre... – Sussurrou Judy após um suspiro. – Eu ouvi isso! – Sua filha gritou do banheiro. – Ora, eu não me importo, não é segredo para ninguém essa sua mania de esquecer seus compromissos. – Isso é calúniaann! – Âmber tentou contestar enquanto a escova de dente preenchia sua boca – É que na noite passada eu não consegui pegar no sono. – Me deixa adivinhar... – Sua mãe a encarou com um sorriso cínico – Mais uma vez você ficou em frente ao computador escrevendo uma de suas historinhas e quando olhou no relógio já eram três da manhã? A declaração da mãe a fez sair novamente do banheiro, com cara irritada e a escova de cabelo em uma das mãos. – Para começo de conversa não são historinhas, eu sou uma escritora! E-s-c-r-i-t-o-r-a! Isso é uma profissão sabia? – Ela bufou – E para término de conversa, não eram três da manhã. Eram cinco e meia. – Cinco e meia! – Gritou Judy soltando o lençol que esticava na cama – Cinco e meia senhora Âmber? Isso são horas de dormir?! – Ora, mas vejam só. Até agora há pouco eu era a "senhorita" Âmber. Agora que fiquei acordada até um pouco mais tarde que o habitual, já fui promovida a "senhora Âmber". – Não me faça deboche menina! – Judy a encarou, furiosa. – Xi... Agora regredi ao status de "menina" de novo. – Âmber Katherine... Quando sua mãe lhe chamava pelos dois primeiros nomes, cuja combinação ela detestava, já sabia que era hora de parar a brincadeira. – Mãe... – Suspirou se rendendo –... Desculpe-me, ok? Eu não vi a hora passando ontem porque estava muito concentrada digitando. Vou me esforçar para não dormir mais nesse horário. Judy torceu a face enquanto a encarava. – Acho muito bom. O coitado do Edward vive pagando o pato por suas irresponsabilidades e ele não merece... – O Edward! – Âmber gritou e saiu em disparada pela porta, pois acabava de lembrar que havia esquecido novamente que o amigo estava lá embaixo. – Menina aloprada... – Reclamou a mãe enquanto terminava de fazer sua cama. CAPÍTULO 1 - "Você foi um erro de percurso" Era difícil colocar em palavras a r*****o de Âmber com sua mãe. Embora na maior parte do tempo elas convivessem pacificamente, uma tensão estranha sempre existiu. Desde que era uma pequena garotinha de cabelos cor de cobre, jovem demais para entender a complexidade das relações humanas, ela já percebia que sua inteiração com a progenitora era bem diferente das que tinham suas colegas de escola. Enquanto para as outras mães as filhas eram como pequenas princesas, entregues a elas dentro de um pacote de presente para serem amadas e cuidadas com devoção, Judy nunca pareceu se alegrar com o fato de ter dado à luz uma menina. Ela sempre fazia questão de ressaltar, mesmo em frente à filha, o quanto estava feliz e satisfeita como mãe de dois meninos quando acidentalmente engravidou do terceiro bebê. Segundo a vívida descrição que fazia, seu sonho sempre foi ser mãe de dois rapazes grandes e fortes e ela estava mais do que realizada com Anthony e Richard quando, certa manhã, foi tomada novamente por tonturas e náuseas. "Eu surtei quando soube que estava grávida!" – Contava aos risos para as amigas – "Mas o que me consolava era a esperança de ter mais um menino grande e forte. Ledo engano. Fui presenteada... – Fazia sinal de aspas com os dedos – Com um furacãozinho de cabelos cor de cobre, não é Âmber querida?" A crueldade do que ela dizia e as frequentes brincadeiras de mau gosto que Judy fazia sobre a cor acobreada do cabelo da filha – completamente diferente de seus fios negros e reluzentes – partiam em mil pedaços o coração da p***e menininha. Quando reclamava para seu pai, que estava sempre ausente por causa do trabalho, ele simplesmente lhe mandava desconsiderar os desatinos de sua esposa, pois ela era uma pessoa depressiva que não sabia o que dizia. Âmber sempre achou bem curioso o fato de que sua mãe – uma advogada extremamente graduada e reconhecida em sua área – tivesse depressão e não procurasse por ajuda. Certa manhã, enquanto comia um biscoitinho sentada junto à bancada da cozinha, ela havia perguntado para Judy o porquê de se chamar Âmber. "Quando você nasceu, o médico que fez o parto nos disse que seus grandes olhos pareciam um colar de âmbar e como não tínhamos nenhum nome escolhido, já que nunca quisemos ter uma menina, seu pai sugeriu que colocássemos o nome de Âmber" – respondeu Judy. A pequena mocinha achou fascinante que seu nome fosse uma alusão à cor de seus olhos e m*l pôde se conter de tanta euforia. Por dias a fio ela repetia sem parar para quem visse pela frente, com uma empolgação cada vez mais crescente, que seu nome fazia referência a uma pedra preciosa utilizada para fazer colares e ornamentos e que essa pedra tinha a mesma cor de seus olhos. Uma noite enquanto a família jantava, ao ver a felicidade gigantesca da filha por aquele detalhe que considerava totalmente sem importância, Judy resolveu acabar com festa. "Pare de ficar repetindo essa besteira sobre os seus olhos serem como pedras preciosas, menina boba! Para sua informação o âmbar não passa de uma resina fóssil que nem mineral é! Não tem valor nenhum!" Aquele balde de água gelada fez com que lágrimas rolassem pela pequenina face rosada. A menina olhou para o pai e para os irmãos buscando algum tipo de consolo e defesa, mas tudo o que encontrou foi o mais duro silêncio. Deixando o prato ainda cheio na mesa, ela subiu as escadas correndo, se atirou sobre a cama e chorou até que não lhe restassem mais lágrimas. E assim, sem ter onde ou em quem se apoiar, decidiu que não deixaria nada nem ninguém destruir a sua felicidade. Aos seus olhos, a vida tinha beleza demais para ser desperdiçada e ela viveria cada momento intensamente, absorvendo cada pequeno brilho da existência com toda a força de seu ser. Que se danasse o fato de que âmbar não era uma pedra preciosa! Era lindo e pronto! E era exatamente da cor de seus olhos! A partir daquele momento, não se deixaria mais afetar pelas brincadeiras inconvenientes da mãe e nunca falaria sobre elas para ninguém. Ajoelhada junto ao gaveteiro encontrou um caderno e começou a escrever nele tudo o que sentia. Completou suas páginas em poucos dias e logo teve que começar outro diário. E então, na escrita ela encontrou uma forma de tirar de dentro de si tudo aquilo que a intoxicava e todo m*l que tentavam jogar sobre ela. Foi com papel e caneta na mão que aprendeu a ser livre. Foi anotando tudo o que lhe encantava na natureza e na vida que aprendeu a apreciar cada pequeno momento. Foi criando e escrevendo histórias que edificou uma muralha para se defender de toda a maldade e indiferença que sua família lhe oferecia. E nesse mundo que criou para si, ninguém poderia machucá-la. Ou pelo menos ela acreditava totalmente que não. Azar dos que não sabiam sonhar, porque ela jamais se deixaria consumir pelo peso da dura e fria realidade. CAPÍTULO 2: "Até o de número 50" Se fosse de se queixar, Âmber poderia reclamar de muitas coisas na vida. Exceto de uma: Edward. Na contramão de tudo o que parecia fútil e superficial, seu amigo-irmão era alguém que realmente era de verdade. Não importava o dia, a hora ou a circunstância, ele estava sempre ali por ela. Na verdade, surpreendia-a o fato de ele não estar enjoado de sua presença como todos em sua casa pareciam estar. As frequentes reclamações sobre seu comportamento eufórico e cheio de energia com certeza eram indício de que não a suportavam mais. Mas com Edward era diferente. Calmo como poucas pessoas conseguem ser, o garoto rechonchudo que ela conheceu na terceira série não tirava a cara dos livros e nunca foi de muita conversa. Para todos os alunos de sua classe, ele não passava de um móvel como qualquer carteira da sala: não falava, não bagunçava e não saía do lugar desde a hora que chegava até soar o sinal. Para os professores, antes de se tornar amigo de Âmber, o menino era uma incógnita completa: não fazia perguntas, não copiava a matéria, mas sempre tirava nota máxima em todos os quesitos, menos na sociabilidade. Certo dia, seu Tio Rupert foi chamado à instituição de ensino e avisado de que nem sequer uma folha do caderno do sobrinho estava preenchida. – Certo. Então ele não copia as lições? – Ele perguntou enquanto passava a mão pela barba espessa. – Nenhuma delas, Senhor Baudelaire. Os professores já lhe deram repreensões, o enviaram para o castigo após a aula e tiraram pontos de sua nota. Mesmo assim, ele não diz uma só palavra e continua a olhá-los sem nenhuma reação. – Entendo. – O senhor de meia idade parecia refletir na questão – E pode, por favor, me dizer por que o boletim dele só tem notas altas? Eu mesmo confiro isso. A diretora pareceu desconsertada por alguns instantes. – Bom... É que... – Ela limpou a garganta – Na verdade, Edward tira notas altas em todas as matérias. Nunca menos que 10. O homem a olhou com uma das sobrancelhas erguida. – Então ele não copia nada, mas acerta todas as questões das provas? Obviamente está colando. – Foi o que pensamos de início. – Ela ajeitou os óculos de grau – Porém, passamos a realizar todas as avaliações dele por prova o**l e ele sabia todas as respostas. – Está me dizendo que meu pequeno e amado sobrinho, embora não copie ou faça as lições, sabe explicar todas as questões verbalmente sem dificuldade? – Na verdade, consideramos a possibilidade de que ele seja superdotado. – Mas isso é uma maravilha! Não esperava menos de um Baudelaire! A mulher o encarou com nervosismo. – Entendo que possa se orgulhar disso, mas Edward n******e continuar agindo assim. Como ele se recusa veementemente a cumprir as regras, outros alunos estão se achando no direito de fazer o mesmo. Precisamos que ele colabore com as diretrizes da escola, ou teremos que pedir que o senhor encontre outra instituição para acolhê-lo como aluno. Em uma fração de segundos, toda a serenidade de Rupert foi pelos ares e ele bateu a mão na mesa maciça de madeira, com uma força que fez reverberar o som no ambiente enquanto a diretora se colocava de pé com um pulo. – Está me dizendo que todo o dinheiro que eu enfio anualmente na conta desta espelunca não é o suficiente para cobrir os inconvenientes que possam ter com a atitude , digamos, exótica de Edward? Com a respiração acelerada, Sra. Lewis pensava no que responder. – Eu sugiro que considere com cuidado suas próximas palavras, minha cara. Se meu sobrinho for convidado a se retirar desse colégio, fecharei esse pardieiro em menos de um mês. Sabe que tenho todo o dinheiro e influência necessários para isso. Uma batida na porta interrompeu o silêncio tenso que imperava no ambiente. – Com licença, senhora. Trouxe Edward Baudelaire como pediu. O garotinho que acompanhava a secretária da direção ergueu os olhos para o tio, que ainda continuava com a mão sobre a mesa. A secretária sentiu o exato momento em que os ombros do menino começaram a tremer sob suas mãos. – Ti- tio – Ele gaguejou em um sussurro – Algum problema? Rupert encarou a diretora, como que pra dizer que não estava brincando sobre o que havia dito. – Problema nenhum, meu querido. – O tio sorriu na direção do garoto – A Sra. Lewis apenas me chamou até aqui para elogiar seu excelente desempenho acadêmico e achou melhor trazê-lo para ouvir o que ela tem a dizer. Os olhos do pequeno Edward iam do tio para a diretora, que parecia estar em choque. – Não é mesmo, senhora Lewis? – A voz compassiva e arrastada do homem não se parecia em nada com o tom rompante que ele usara há poucos minutos. – Sim, é claro. – A diretora respondeu – Edward, parabéns por suas extraordinárias notas. Decidimos compreender e colaborar com seu jeito de aprender. A partir de hoje você está liberado de copiar a matérias e fará as avaliações verbalmente ou de forma escrita, como preferir. – Mas que maravilha! – Rupert comemorou – Senhora Lewis, se importa se eu retirar meu sobrinho mais cedo hoje para comemorarmos as boas notícias? Os ombros do menino começaram a tremer mais, o que preocupou a secretária que encarou a diretora sem saber o que fazer. “Diga não, por favor, diga não...” – Edward pensava em desespero. – Creio que não há problema. – Autorizou a diretora. – Excelente! Obrigado por sua cooperação. Com um puxão pela mão, Rupert arrastou o sobrinho para fora da sala. – Eu não gosto desse homem. – A secretária disse após ele bater a porta. – Eu também não. – Concordou Sra. Lewis – Acredito firmemente que ele será uma péssima influência para o sobrinho, mas está além de nossa alçada interferir. – Não há realmente nada que possamos fazer? – Questionou Srta. Grace, aflita pelo que sentiu. – Mesmo se houvesse... Seria arriscado demais. Conheço Rupert a tempo suficiente para saber do que ele é capaz. *** A sensação de ardência veio junto com o primeiro estalo. No segundo, a dor acompanhou o golpe. Edward tinha certeza que poderia aguentar até o de número cinquenta, pois era quando havia desmaiado da última vez. Mais que isso, já não tinha como garantir. Em meio à tontura causada pela dor das chicotadas, ele tentava inutilmente contar as batidas. A voz de seu tio parecia longínqua e abafada. Estaria ele distante? Ou a bofetada no ouvido lhe tinha causado alguma lesão? – Você ousa interromper meu trabalho para me fazer ir até aquela espelunca que chamam de escola, só para ouvir que o retardado do meu sobrinho não copia a matéria? Outra pancada. – Eu deveria ter pensado duas vezes antes de adotar um inútil como você! Chicotada número 4. – Responda seu i*****l! Como ousa me causar problemas? Chicotada número 5. – Quem você que pensa que é para ditar regras na sua miserável vida? Chicotada número 6. – Você deveria me agradecer por te dar um teto e educação, seu peso morto! Chicotada número 7. Edward sentia o sangue começar a escorrer por suas costas. – É sua obrigação não me causar problemas! Chicotada número 8. Com tristeza, o garoto lembrou que foi tirado da escola antes do horário do lanche. Com o estômago vazio dificilmente conseguiria chegar ao golpe de número cinquenta. Seus joelhos tremeram. Sua boca secou. E ele viu o ambiente girar em câmera lenta antes que sua face atingisse o chão. – Mas é um fracote mesmo! – Ouviu seu tio exclamar enquanto sentia a dor intensa de um chute nas costelas, logo antes de perder completamente os sentidos.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD