Já tinham se passado três meses desde que tudo aconteceu, desde que minha vida mudou. Meu telefone tocou, era minha mãe com uma voz cansada, disse que ligou para se despedir. Eu não entendi, ela só disse que estava doente e que queria fazer seu último pedido. Que vinha aceitando tudo e vendo como eu era errada durante anos e se sentia culpada pela mulher que eu me tornei, mas que queria que eu fosse uma mulher de verdade, responsável. Disse que trair não me levava a lugar nenhum, que eu cavei a minha própria cova, que eu tinha que estar em casa cuidando dos meus filhos e não na rua procurando por homens, que isso a envergonhava, que nunca tinha traído meu pai e que, se ela pudesse ir em paz, pediu que eu prometesse que iria tentar recuperar o respeito e amor dos meus filhos e para eu não trair e ficar me envolvendo em escândalos. Eu achei que fosse brincadeira, mas pela voz dela me assustei. Eu prometi, disse que queria falar com ela. Ela falou que me amava e pediu desculpas por errar na minha criação e desligou. Perdi o chão, mas no fundo achava que era mentira dela, na última vez ela estava bem, só queria fazer aquilo para me deixar pensativa.
Passaram-se uns dias e eu decidi ir na casa dos meus pais. Quando cheguei lá, meu pai me humilhou muito, disse que eu trouxe tanta vergonha para a família que minha mãe estava doente. Eu não acreditei no que estava vendo e ouvindo, minha mãe deitada e acamada, magra. Ela tinha uma doença terminal e não me contou para me poupar, mas nessa altura já não dava mais para esconder. Ela chamou meu pai e pediu para ficarmos bem, queria que eu voltasse para casa e que ela iria sempre olhar por mim. Decidi voltar para passar os últimos momentos com ela. Meu pai aceitou, mas não me olhava e quando olhava, jogava piadas.
Dom levava meus filhos lá para passarem tempo com a avó, me ajudava na medida do possível. Isso me deixava cada vez mais arrependida, mas ele também não estava bem do câncer. Estava fazendo tratamento, mas precisava de remédios e um tratamento caro. Gastava muito dinheiro com a casa e os três filhos, por mais que eu pagasse pensão, não era o suficiente.
Dom continuava namorando, ela sempre o apoiava, ia nas quimioterapias com ele e ajudava a criar meus filhos. Eu via a forma que ela se comportava e sentia que nunca conseguiria ser essa mulher, certa, que não trai e só pensa na casa e nos filhos, mas no fundo, eu queria ter uma nova chance de mudar. Contei para minha mãe e ela disse que eu iria ser uma mãe melhor e que o Dom, quando eu mudasse, me aceitaria de volta por me amar, mas que ele é um bom homem e não merecia sofrer mais. Passei as últimas semanas todo tempo livre com ela, meus filhos ficavam lá, mesmo meu mais novo me rejeitando. Foram semanas ótimas. Um dia acordei para ir trabalhar e fui ao quarto dela dar um beijo de despedida.
Ela estava gelada e meu mundo parou. Sacudi, mas ela não estava mais respirando. Eu gritei, chorei, por mais que eu soubesse que isso iria acontecer, não queria que fosse tão rápido e dolorido. Meu pai tinha ido na rua, ouviu meus gritos e entrou e começou a chorar. Liguei para o Dom, ele foi e me ajudou com tudo, por mais que estivesse gastando dinheiro com tratamento e com as crianças, pagou o enterro e tudo o que eu precisei. Eu me lembrava dela falando que eu perdi um grande homem e a chance de ser uma grande mãe e entendi, realmente ela estava certa.
No dia do enterro, estava tudo bonito, flores, do jeito que ela merecia. Por mais que ela não estivesse ali para ver, me despedi dela e não queria que o caixão fechasse. Fazia carinho e beijava sua bochecha gelada, olhava seus cabelos, queria gravar seu rosto para sempre com medo de um dia esquecer. Chegou a hora de fechar o caixão, mas eu não queria. Meu mundo acabou ali, Dom me segurou e eu caí no chão, gritei, eu não queria aceitar o fato de nunca mais olhar para minha mãe, de não ter minha melhor amiga, a mulher que sempre me apoiou. Mas ali era o fim de tudo. Ele me amparou e eu vi jogarem terra sobre seu caixão, então percebi que a vida era muito curta e eu tinha escolhido o caminho errado.
Tirei uns dias em casa, não queria dormir ou comer, só pensava em tudo, queria dar orgulho à minha mãe, mas mesmo assim eu não consegui, queria ser diferente. Decidi estudar para dar um futuro melhor para meus filhos e ajudar o Dom. Nesse tempo que passei em casa, meu pai o tempo todo me humilhava, descontava a raiva da morte da minha mãe em mim, dizia que ela morreu de desgosto. Por mais que eu soubesse que não era verdade, sabia que era uma forma de ele aliviar, descontando sua frustração de não poder ajudar em alguém. Por mais que me doesse ouvir tudo aquilo, um dia ele disse que o próximo seria o Dom, porque eu era tão tóxica que matava de desgosto todos que me amavam. Aquilo me doeu, porque eu amava o Dom, eu já sabia disso e o Dom estava com câncer e se tratando. Não era um câncer terminal, ele iria conseguir viver, eu não estava pronta para perder ele também. Achei malvado o que meu pai disse, eu não conseguia dormir e não sentia mais fome ou força para nada.
Tive que voltar a trabalhar. Eu não sentia vontade de sair de casa, mas tinha que sustentar meus filhos. O Dom disse que eu podia parar, dar um tempo, que ele segurava as contas, mas ele gastava tanto com seu tratamento, não era justo. Eu não tinha força para tomar banho, me arrumar, comecei a andar m*l arrumada, às vezes levava dois dias para tomar banho, comia pouco e perdi peso. Fiquei com olheiras, descabelada, unhas feias, coisa que nunca tinha acontecido, mas meu pai ainda continuava falando de mim. Eu gostava de trabalhar só para não ter que ficar o tempo todo ao lado dele. Quando cheguei em casa, Alexandre estava me esperando. Minha mãe tinha dito que não queria mais que eu ficasse com esse homem e eu iria respeitar. Ele veio me oferecer um perdão, mas não quis ouvir. Ele disse que eu precisava dele, que iria dar tudo para os meus filhos se eu voltasse e me casasse com ele. Eu neguei e entrei em casa. Ele tentou me procurar, mas eu não atendia.