O cheiro de metal e desinfetante se mistura ao da pólvora impregnada nas roupas. Miguel odeia hospitais de campanha. Eles sempre chegam tarde demais.
Carlos está deitado na maca improvisada, o uniforme rasgado e manchado de sangue. O rosto, antes sempre animado, agora carrega uma palidez que não combina com ele. Ainda assim, quando vê Miguel, sorri — fraco, mas verdadeiro.
— Você demorou — murmura, a voz rouca, quase um sopro.
Miguel se aproxima em silêncio. Ajoelha ao lado da maca. Segura a mão do amigo com força, como se pudesse ancorá-lo ali apenas com isso.
— Estou aqui.
Carlos aperta algo entre os dedos. Miguel reconhece a fotografia antes mesmo de vê-la direito. Ele já a viu dezenas de vezes. A moça loira, sorriso aberto, olhos vivos. Clara.
— Ela… — Carlos respira com dificuldade. — Ela vai ficar sozinha.
Miguel engole em seco. Não sabe o que dizer. Nunca sabe o que dizer quando o assunto é dor. Seu certificado de clínico geral e trabalhando por dois anos em hospital militar não faz essa cena ser menos triste.
— Você prometeu. — continua Carlos, com esforço. — Prometeu que cuidaria dela se algo acontecesse comigo.
Miguel fecha os olhos por um instante. Ele lembra. Lembra da conversa jogada fora, dita entre risadas, como se o mundo fosse eterno.
— Nada vai acontecer. — responde, mesmo sabendo que é mentira.
Carlos sorri de novo, um sorriso triste, mas sereno. Seus dedos apertam ainda mais a fotografia contra o peito.
— Vai sim, mas você vai estar lá.
Miguel inclina a testa até encostar na mão do amigo. A voz sai baixa, firme, carregada de tudo o que ele é.
— Eu cuido dela. Eu prometo.
Carlos solta um suspiro longo. Aliviado. Como se aquele fosse o único peso que precisava deixar para trás.
— Ela é doce. — diz, com dificuldade. — mas, é forte. Maravilhosa.
Miguel abre os olhos. A imagem da mulher da foto atravessa sua mente como um golpe silencioso. Ele nunca a viu pessoalmente, mas já a conhece. Pelo jeito como Carlos fala. Pelo cuidado com que guarda aquela foto como se fosse um amuleto.
— Eu sei.
Carlos relaxa aos poucos. A mão que segura a foto começa a perder força. Miguel ajusta os dedos do amigo, mantendo a fotografia segura contra o peito dele.
— Não deixa ela sofrer sozinha. — Carlos pede, quase inaudível.
— Não vou deixar.
O monitor apita de forma irregular. O médico se aproxima. Miguel sabe o que aquilo significa antes mesmo de alguém dizer.
Carlos olha para ele uma última vez.
— Obrigado irmão.
Miguel aperta a mão dele.
— Sempre.
O apito se alonga. O silêncio toma o lugar da respiração.
Miguel permanece ali por alguns segundos a mais. Depois, com cuidado quase reverente, retira a fotografia da mão de Carlos. Observa o rosto de Clara pela primeira vez com atenção verdadeira.
— Eu prometi. — murmura para a imagem. — E eu não quebro promessas.
Ele guarda a foto no bolso do uniforme.
E, naquele instante, sem jamais ter ouvido sua voz, Miguel entrega a própria vida a uma mulher que ainda não conhece.