Capítulo 5 — O Sétimo dos Sete

1710 Words
Adaga (Miguel) Eu ainda me lembro da primeira vez que vi Lâmina. Não pelo rosto. Não pelo nome. Nem pela arma presa no cós como extensão natural do corpo. Lembro do silêncio. Um silêncio diferente do meu. O meu sempre foi feito de ferida, vigilância e ameaça. O dele não. O dele era comando. Um tipo de quietude que não pede espaço, mas toma. Quando entrou no galpão abandonado onde eu dormia havia três noites, eu soube, antes de levantar a faca, que aquele homem não tinha vindo por acaso. A chuva caía do lado de fora, grossa, transformando a cidade em um bicho molhado, escuro e faminto. Eu tinha dezessete anos e já carregava mais cicatrizes do que lembranças boas. Havia roubado comida dois dias antes. Havia quebrado o nariz de um homem mais velho na noite anterior. Havia dormido pouco, com a mão fechada no cabo da faca e os olhos acostumados a abrir ao menor som. Ninguém se aproximava de mim duas vezes. Quem tentava, aprendia. Quem insistia, sangrava. Mas aquele homem entrou como se já soubesse disso tudo. Passou pela porta de metal enferrujada sem pressa, os passos firmes, medidos, secos. Alto. Ombros largos. Cabelo curto. Rosto fechado do tipo que não desperdiça nada. Não havia arrogância nele, e talvez tenha sido isso que me confundiu. Homens perigosos costumam gostar do próprio reflexo. Aquele não parecia gostar de nada. Levantei da pilha de cobertores velhos onde fingia dormir e apontei a faca para ele. — Sai. Minha voz era mais nova do que eu queria. Mais áspera do que devia. Ainda assim, não tremeu. Ele me observou por dois segundos longos demais para serem normais. O olhar desceu para a faca, subiu para meu rosto, parou nos meus olhos como se estivesse me lendo de um jeito que eu não permitia a ninguém. — Você sempre aponta primeiro? — perguntou. — Sempre que preciso. — E precisa agora? A pergunta me irritou. Homens como eu não ganhavam o luxo da dúvida. Precisar era estado permanente. — Depende de quem você é. Ele entrou mais dois passos. Não rápido. Não desafiando. Apenas suficiente para me mostrar que sabia exatamente até onde podia ir sem disparar meu instinto por completo. — Me chamam de Lâmina. O nome não me disse nada naquela hora. Só depois. Muito depois. — Não perguntei seu nome. — Não. Perguntou quem eu sou. Minha mão apertou o cabo da faca com mais força. O galpão cheirava a ferrugem, chuva, mofo e sobrevivência. As goteiras pingavam nos cantos. Um rato atravessou a parede rachada perto do fundo. Eu ouvi tudo isso ao mesmo tempo em que ouvia o coração dele. Lento. Controlado. Quase calmo demais. Homens com coração assim eram os piores de enfrentar. Não por coragem. Por disciplina. — Você veio me matar? — perguntei. Ele inclinou a cabeça de leve. — Se eu tivesse vindo, você já estaria no chão. Odiei porque era verdade. A maioria entrava fazendo barulho. Mostrando arma. Inflando o peito. Ameaçando. Ele não. Ele entrou no meu abrigo improvisado como quem já conhecia o mapa do lugar e também o mapa de mim. Não demonstrava pressa, mas também não desperdiçava movimentos. Era o primeiro homem que me fazia sentir atacado sem levantar a voz. — Então por que está aqui? Lâmina cruzou os braços. — Porque você chamou atenção demais. Quase ri. Naqueles meses, eu tinha feito de tudo para permanecer invisível. Dormido em esgoto seco, trocado nomes, evitado grupos, matado quando precisei e fugido antes do amanhecer. Mas invisibilidade é luxo de quem não carrega instinto. Eu carregava o meu como maldição. Sempre soube quando vinha traição. Sempre ouvi medo antes da aproximação. Sempre me movi mais rápido quando a morte rondava. Gente demais tinha notado. — Não sei do que você está falando. — Sabe, sim. A chuva engrossou. O som nas telhas partidas pareceu mais alto porque meu corpo inteiro ficou em alerta. Ele tirou do bolso interno do casaco uma fotografia amassada e a lançou no chão entre nós. Não peguei. Não precisava. Reconheci a rua, o beco, o corpo do homem caído. O c*****o. O primeiro monstro que matei depois do padrasto. Meu estômago endureceu. — Ele vendia meninas — eu disse. — Eu sei. — Então devia me agradecer. — Não estou aqui para te julgar. Essas palavras me atingiram pior do que ameaça. Porque eu estava acostumado a duas possibilidades: caça ou uso. Julgamento era luxo moral de gente limpa. Homens do meu mundo escolhiam entre me perseguir ou me contratar. A neutralidade dele me deixou mais inquieto do que qualquer uma das opções. — Está aqui para quê, então? Lâmina respirou fundo, como se decidisse o peso exato do que ia dizer. — Para te oferecer um lugar onde o que você faz pode ter alvo certo. Não respondi. Do lado de fora, um trovão cortou o céu. Minha mão continuava erguida, a faca apontando para o peito dele, mas eu já sabia que não pisaria adiante. Não ainda. Algo naquela proposta me atravessou com violência demais para ser simples. Um lugar. Eu não sabia mais o que essa palavra significava. Lugar, para mim, era sempre abrigo provisório, chão sujo, rota de fuga, parede próxima da porta. Nunca pertencimento. Ele percebeu meu silêncio e continuou. — Existe uma unidade. Não oficial. Não pública. Somos acionados quando a justiça comum decide ser lenta, cega ou vendida. Lidamos com o tipo de homem que o sistema protege até a última gota. Traficantes. Predadores. Mercadores de gente. Monstros com dinheiro, sobrenome e proteção. Minha garganta secou. Era perigoso ouvir aquilo e desejar. Muito. — E por que eu? Essa foi a única pergunta honesta que fiz. Lâmina me olhou sem piedade. — Porque você já faz isso sozinho. E porque vai morrer cedo se continuar sem direção. A verdade, quando vem limpa, sempre entra mais fundo. Eu sabia que ia morrer cedo. Sabia desde os treze. Meninos como eu não envelheciam. Viravam notícia curta, corpo sem nome, estatística de bairro pobre, lenda suja contada em cochicho. Eu sabia. Ainda assim, ouvir de outro homem, naquele tom sem crueldade e sem consolo, mexeu num lugar que eu mantinha enterrado. — Talvez eu não me importe. — Isso é mentira. Ele disse com tanta certeza que a faca vacilou um centímetro na minha mão. — Você ainda escolhe quem mata. Fiquei imóvel. — Você poupa quando encontra medo inocente. Não toca em criança. Não vende informação sobre mulher escondida. Nunca aceita dinheiro de homem que cheira a abuso. Eu levantei seu rastro. Você não é caótico. Você é ferido. Raiva subiu quente pelo meu peito. Avancei dois passos e encostei a ponta da faca na garganta dele. Qualquer outro homem teria reagido. Lâmina não. Seu coração continuou firme. — Não fala de mim como se me conhecesse. A voz saiu baixa, perigosa. — Então me corrige — ele respondeu. Eu queria cortar. Queria. Não para matar. Para provar a mim mesmo que ainda mandava no espaço entre nós. Mas havia algo ali que eu não reconhecia há anos: a sensação de estar sendo visto sem nojo. Sem piedade. Sem mentira. Ele não romantizava o que eu era. Também não recuava. Apenas enxergava. E isso me desarmou pior do que arma. Afastei a faca devagar. Lâmina deu um passo para trás só então, respeitando a distância que eu precisava manter para continuar em pé. — Quantos são? — perguntei. Foi aí que ele soube que eu estava ouvindo de verdade. — Seis. Falta um. — O sétimo. — O pior lugar da equipe — disse ele, quase seco. — O que entra onde ninguém quer entrar. O que escuta primeiro. O que caça sombra dentro da sombra. Meu peito apertou com uma violência antiga. Eu não queria destino. Não queria uniforme. Não queria ordens. Não queria irmão nenhum. Mas queria alvo. Queria monstros certos. Queria parar de desperdiçar fúria em sobrevivência miúda. Queria que tudo o que eu tinha me tornado servisse para mais do que apenas continuar respirando de um dia ao outro. Queria, talvez pela primeira vez desde a fuga, que minha dor tivesse arquitetura. — E se eu disser não? Lâmina não sorriu. Acho que ele nunca sorri fácil. — Então eu vou embora. E, em alguns meses, alguém vai te matar ou te comprar. Porque homens como você sempre chamam atenção demais para permanecer selvagens por muito tempo. A brutalidade daquilo me acertou porque era exata. Eu olhei para o chão do galpão. Para a foto do c*****o. Para minhas botas gastas. Para a faca na minha mão. Para a chuva escorrendo pela porta aberta. Depois olhei para ele. — E se eu disser sim? Lâmina descruzou os braços. — Então aprende a transformar o que te partiu em arma de guerra. Aprende a obedecer sem se vender. Aprende a proteger sem anunciar. Aprende a permanecer vivo. Ele deu uma pausa curta. — E enterra o menino do jeito certo. Essas palavras fizeram alguma coisa dentro de mim ceder. Não por conforto. Por reconhecimento. Miguel já estava enterrado havia tempo. Enterrado torto. Enterrado às pressas. Enterrado no escuro, sem luto, sem nome dito em voz alta. Talvez eu estivesse cansado de cavar sozinho. Abaixei a faca. Foi só isso. Nenhum juramento. Nenhuma cena grandiosa. Nenhuma redenção cinematográfica. Apenas minha mão descendo ao lado do corpo e um tipo novo de silêncio entrando no lugar da ameaça. Lâmina assentiu uma vez, como se aquilo bastasse. Para ele, bastava. Talvez por isso tenha sido o primeiro homem em quem confiei sem chamar de confiança. Naquela noite, saí do galpão atrás dele e entrei para os Armas Letais como quem cruza uma fronteira sem saber se está sendo salvo ou condenado. A chuva caiu sobre nós dois até o carro preto estacionado na esquina. Eu não fiz perguntas no caminho. Ele também não. O vidro embaçado devolvia um reflexo estranho: um homem pronto e um menino em ruínas, lado a lado, seguindo para um lugar onde um morreria de vez para que o outro finalmente aprendesse a existir. Foi assim que me tornei o sétimo dos sete. Não porque fui escolhido. Porque, no fim, já não havia outro destino para o que restou de mim.
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