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1062 Words
Naila quase não dormiu naquela noite. O número repetia-se na sua mente como um eco impossível de ignorar. Duzentos e cinquenta mil dólares. Ela já tinha ouvido números grandes antes — em notícias, em filmes, em histórias de pessoas ricas — mas nunca tinha imaginado que um dia aquele tipo de valor estaria ligado diretamente à vida da sua mãe. Ela se virou na cama pela terceira vez. O relógio marcava quatro e quarenta da manhã. Ainda faltava algum tempo para o despertador tocar, mas ela já sabia que não voltaria a dormir. Com um suspiro silencioso, levantou-se. A pequena casa ainda estava mergulhada no silêncio da madrugada. Apenas o som distante de alguns carros passando pela rua quebrava a quietude. Naila caminhou até o quarto da mãe e empurrou a porta devagar. Dona Rosa dormia. A respiração era calma, mas frágil. Naila encostou-se no batente da porta e ficou observando-a por alguns segundos. A mulher que sempre foi forte agora parecia pequena naquela cama simples. Um aperto tomou conta do peito de Naila. — Eu vou conseguir… — sussurrou para si mesma. Mesmo sem saber como. Ela fechou a porta novamente e foi para a cozinha preparar café. Enquanto a água esquentava, seu olhar ficou perdido pela janela. O céu começava a clarear lentamente. Um novo dia. Mais uma oportunidade. Mas também mais pressão. Porque o tempo estava passando. E a cirurgia precisava acontecer logo. Naila pegou sua caneca e respirou fundo. Depois voltou ao quarto, vestiu-se com cuidado e arrumou os cabelos cacheados diante do espelho. Quando terminou, parecia tranquila. Mas por dentro o coração ainda carregava o peso daquele número. 250 mil dólares. --- Quando chegou à Castellari Global, o prédio já estava cheio de movimento. Funcionários entravam e saíam com passos rápidos, alguns falando ao telefone, outros segurando pastas e tablets. Naila passou pela recepção, apresentou o crachá e seguiu para o elevador. O décimo quinto andar parecia um pouco mais agitado do que no dia anterior. Algumas pessoas conversavam perto das mesas. Outras digitavam rapidamente. Naila caminhou até sua mesa e colocou a bolsa na cadeira. — Bom dia. A voz veio imediatamente ao lado. Júlia estava sentada na mesa vizinha, tomando café. — Bom dia — respondeu Naila. Júlia observou o rosto dela por alguns segundos. — Você não dormiu. Naila tentou sorrir. — Dormi sim. — Não muito bem. Naila desviou o olhar para o computador enquanto ligava a máquina. — Estou bem. Júlia não insistiu imediatamente. Mas alguns segundos depois falou de novo. — Foi por causa do hospital? Naila parou por um momento. Ela não tinha intenção de contar detalhes no trabalho. Mas algo no tom de Júlia parecia genuinamente preocupado. — A cirurgia da minha mãe… — disse Naila em voz baixa. Júlia inclinou-se um pouco para ouvir melhor. — O que tem? Naila respirou fundo. — É muito cara. — Quanto? Por alguns segundos Naila ficou em silêncio. Depois respondeu: — Duzentos e cinquenta mil dólares. Júlia arregalou os olhos. — Meu Deus… Naila apenas assentiu. — Eu não tenho ideia de como vou conseguir esse dinheiro. Júlia ficou quieta. Era um valor absurdo. Muito além da realidade da maioria das pessoas. — Sinto muito — disse finalmente. Naila apenas deu de ombros. — Eu vou dar um jeito. — Como? Naila não respondeu. Porque, naquele momento, ela realmente não sabia. Júlia ficou observando-a por alguns segundos. Depois colocou uma mão leve sobre o braço dela. — Se precisar conversar… estou aqui. Naila olhou para ela e sorriu de forma sincera pela primeira vez naquela manhã. — Obrigada. Naquele momento Clara apareceu no corredor. — Naila. — Sim? — O diretor precisa de alguns relatórios organizados antes da reunião de hoje. Ela entregou uma pasta. — Consegue fazer isso? Naila pegou os documentos. — Claro. — Ótimo. Clara voltou para sua sala. Júlia levantou as sobrancelhas. — Já estão te dando trabalho direto da diretoria. — Parece que sim. — Isso é… interessante. Naila abriu a pasta. — Interessante? — Sim. — Por quê? Júlia deu um pequeno sorriso. — Porque normalmente estagiários passam semanas fazendo apenas tarefas básicas. Naila não soube o que responder. Então simplesmente começou a trabalhar. Os relatórios eram detalhados, cheios de números e gráficos. Mas aquilo não a assustava. Na verdade, organizar informações era algo que sempre fez com facilidade. Quase uma hora depois, ela já tinha reorganizado boa parte dos dados. Foi nesse momento que o ambiente do escritório mudou. Era uma mudança sutil. Mas perceptível. Algumas pessoas se endireitaram nas cadeiras. Outras diminuíram o volume das conversas. Júlia murmurou sem olhar para o lado: — Ele chegou. Naila levantou os olhos automaticamente. Adrian Castellari caminhava pelo corredor. O terno escuro perfeitamente alinhado, os passos firmes e a postura segura faziam com que ele parecesse ocupar mais espaço do que qualquer outra pessoa ali. Ele conversava com Rafael enquanto caminhavam. Mas, ao passar pela área dos estagiários e assistentes, o olhar dele percorreu a sala rapidamente. E então parou. Por um segundo. Em Naila. Ela percebeu. Mas voltou imediatamente para o computador, fingindo concentração. Adrian continuou caminhando. Entrou na sala de reuniões. A porta se fechou. Algumas pessoas no escritório voltaram a respirar normalmente. Júlia inclinou-se para Naila. — Viu? — O quê? — Ele olhou para você. Naila franziu a testa. — Ele olhou para a sala inteira. — Não exatamente. Naila ignorou o comentário. Mas dentro da sala de reuniões, Adrian Castellari estava olhando para um dos relatórios que Rafael acabara de colocar sobre a mesa. Ele passou algumas páginas. Parou. Franziu levemente a testa. — Quem reorganizou esses dados? Rafael olhou rapidamente. — Acho que veio da área administrativa. Adrian virou outra página. A forma como as informações estavam organizadas era diferente. Mais clara. Mais lógica. Mais eficiente. Ele levantou os olhos. — Descubra quem fez isso. Rafael deu de ombros. — Posso perguntar. Adrian fechou o relatório lentamente. Algo naquele trabalho chamou sua atenção. E não era apenas a eficiência. Era a forma de pensar por trás da organização. Uma forma incomum. Ele apoiou o relatório sobre a mesa. E por algum motivo, lembrou-se do rosto da nova estagiária. Naila Andrade. Adrian recostou-se na cadeira. Pensativo. Porque algo naquela jovem parecia… diferente. E Adrian Castellari era o tipo de homem que sempre prestava atenção quando algo incomum aparecia em seu caminho.
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