Naila quase não dormiu naquela noite.
O número repetia-se na sua mente como um eco impossível de ignorar.
Duzentos e cinquenta mil dólares.
Ela já tinha ouvido números grandes antes — em notícias, em filmes, em histórias de pessoas ricas — mas nunca tinha imaginado que um dia aquele tipo de valor estaria ligado diretamente à vida da sua mãe.
Ela se virou na cama pela terceira vez.
O relógio marcava quatro e quarenta da manhã.
Ainda faltava algum tempo para o despertador tocar, mas ela já sabia que não voltaria a dormir.
Com um suspiro silencioso, levantou-se.
A pequena casa ainda estava mergulhada no silêncio da madrugada. Apenas o som distante de alguns carros passando pela rua quebrava a quietude.
Naila caminhou até o quarto da mãe e empurrou a porta devagar.
Dona Rosa dormia.
A respiração era calma, mas frágil.
Naila encostou-se no batente da porta e ficou observando-a por alguns segundos.
A mulher que sempre foi forte agora parecia pequena naquela cama simples.
Um aperto tomou conta do peito de Naila.
— Eu vou conseguir… — sussurrou para si mesma.
Mesmo sem saber como.
Ela fechou a porta novamente e foi para a cozinha preparar café.
Enquanto a água esquentava, seu olhar ficou perdido pela janela.
O céu começava a clarear lentamente.
Um novo dia.
Mais uma oportunidade.
Mas também mais pressão.
Porque o tempo estava passando.
E a cirurgia precisava acontecer logo.
Naila pegou sua caneca e respirou fundo.
Depois voltou ao quarto, vestiu-se com cuidado e arrumou os cabelos cacheados diante do espelho.
Quando terminou, parecia tranquila.
Mas por dentro o coração ainda carregava o peso daquele número.
250 mil dólares.
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Quando chegou à Castellari Global, o prédio já estava cheio de movimento.
Funcionários entravam e saíam com passos rápidos, alguns falando ao telefone, outros segurando pastas e tablets.
Naila passou pela recepção, apresentou o crachá e seguiu para o elevador.
O décimo quinto andar parecia um pouco mais agitado do que no dia anterior.
Algumas pessoas conversavam perto das mesas.
Outras digitavam rapidamente.
Naila caminhou até sua mesa e colocou a bolsa na cadeira.
— Bom dia.
A voz veio imediatamente ao lado.
Júlia estava sentada na mesa vizinha, tomando café.
— Bom dia — respondeu Naila.
Júlia observou o rosto dela por alguns segundos.
— Você não dormiu.
Naila tentou sorrir.
— Dormi sim.
— Não muito bem.
Naila desviou o olhar para o computador enquanto ligava a máquina.
— Estou bem.
Júlia não insistiu imediatamente.
Mas alguns segundos depois falou de novo.
— Foi por causa do hospital?
Naila parou por um momento.
Ela não tinha intenção de contar detalhes no trabalho.
Mas algo no tom de Júlia parecia genuinamente preocupado.
— A cirurgia da minha mãe… — disse Naila em voz baixa.
Júlia inclinou-se um pouco para ouvir melhor.
— O que tem?
Naila respirou fundo.
— É muito cara.
— Quanto?
Por alguns segundos Naila ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Duzentos e cinquenta mil dólares.
Júlia arregalou os olhos.
— Meu Deus…
Naila apenas assentiu.
— Eu não tenho ideia de como vou conseguir esse dinheiro.
Júlia ficou quieta.
Era um valor absurdo.
Muito além da realidade da maioria das pessoas.
— Sinto muito — disse finalmente.
Naila apenas deu de ombros.
— Eu vou dar um jeito.
— Como?
Naila não respondeu.
Porque, naquele momento, ela realmente não sabia.
Júlia ficou observando-a por alguns segundos.
Depois colocou uma mão leve sobre o braço dela.
— Se precisar conversar… estou aqui.
Naila olhou para ela e sorriu de forma sincera pela primeira vez naquela manhã.
— Obrigada.
Naquele momento Clara apareceu no corredor.
— Naila.
— Sim?
— O diretor precisa de alguns relatórios organizados antes da reunião de hoje.
Ela entregou uma pasta.
— Consegue fazer isso?
Naila pegou os documentos.
— Claro.
— Ótimo.
Clara voltou para sua sala.
Júlia levantou as sobrancelhas.
— Já estão te dando trabalho direto da diretoria.
— Parece que sim.
— Isso é… interessante.
Naila abriu a pasta.
— Interessante?
— Sim.
— Por quê?
Júlia deu um pequeno sorriso.
— Porque normalmente estagiários passam semanas fazendo apenas tarefas básicas.
Naila não soube o que responder.
Então simplesmente começou a trabalhar.
Os relatórios eram detalhados, cheios de números e gráficos.
Mas aquilo não a assustava.
Na verdade, organizar informações era algo que sempre fez com facilidade.
Quase uma hora depois, ela já tinha reorganizado boa parte dos dados.
Foi nesse momento que o ambiente do escritório mudou.
Era uma mudança sutil.
Mas perceptível.
Algumas pessoas se endireitaram nas cadeiras.
Outras diminuíram o volume das conversas.
Júlia murmurou sem olhar para o lado:
— Ele chegou.
Naila levantou os olhos automaticamente.
Adrian Castellari caminhava pelo corredor.
O terno escuro perfeitamente alinhado, os passos firmes e a postura segura faziam com que ele parecesse ocupar mais espaço do que qualquer outra pessoa ali.
Ele conversava com Rafael enquanto caminhavam.
Mas, ao passar pela área dos estagiários e assistentes, o olhar dele percorreu a sala rapidamente.
E então parou.
Por um segundo.
Em Naila.
Ela percebeu.
Mas voltou imediatamente para o computador, fingindo concentração.
Adrian continuou caminhando.
Entrou na sala de reuniões.
A porta se fechou.
Algumas pessoas no escritório voltaram a respirar normalmente.
Júlia inclinou-se para Naila.
— Viu?
— O quê?
— Ele olhou para você.
Naila franziu a testa.
— Ele olhou para a sala inteira.
— Não exatamente.
Naila ignorou o comentário.
Mas dentro da sala de reuniões, Adrian Castellari estava olhando para um dos relatórios que Rafael acabara de colocar sobre a mesa.
Ele passou algumas páginas.
Parou.
Franziu levemente a testa.
— Quem reorganizou esses dados?
Rafael olhou rapidamente.
— Acho que veio da área administrativa.
Adrian virou outra página.
A forma como as informações estavam organizadas era diferente.
Mais clara.
Mais lógica.
Mais eficiente.
Ele levantou os olhos.
— Descubra quem fez isso.
Rafael deu de ombros.
— Posso perguntar.
Adrian fechou o relatório lentamente.
Algo naquele trabalho chamou sua atenção.
E não era apenas a eficiência.
Era a forma de pensar por trás da organização.
Uma forma incomum.
Ele apoiou o relatório sobre a mesa.
E por algum motivo, lembrou-se do rosto da nova estagiária.
Naila Andrade.
Adrian recostou-se na cadeira.
Pensativo.
Porque algo naquela jovem parecia… diferente.
E Adrian Castellari era o tipo de homem que sempre prestava atenção quando algo incomum aparecia em seu caminho.