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1503 Words
O elevador se fechou com um leve sussurro metálico, e por um instante Naila sentiu como se tivesse sido isolada do resto do mundo. Ela estava sozinha. O reflexo no espelho da cabine mostrava uma jovem de pele n***a, olhos atentos e cabelos cacheados cuidadosamente arrumados. A camisa branca que usava estava perfeitamente passada, e a saia social preta caía com simplicidade elegante até os joelhos. Nada extravagante, nada chamativo. Apenas profissional. Era exatamente assim que ela queria parecer. Profissional. Mas por dentro, a calma que tentava demonstrar não existia. Seu coração ainda batia acelerado desde o momento em que Clara a deixara na recepção do décimo quinto andar com a promessa de voltar em alguns minutos para mostrar-lhe o restante da empresa. Enquanto esperava, Naila segurava o crachá que acabara de receber. Seu nome estava impresso ali em letras claras: Naila Andrade – Estagiária Ela passou o dedo lentamente sobre o plástico do cartão. Estagiária. Era apenas um título temporário, mas naquele momento parecia representar algo muito maior. Representava esperança. Representava uma chance. E, acima de tudo, representava a possibilidade de dar à mãe o tratamento que ela precisava. O elevador parou com um leve solavanco. As portas se abriram novamente, revelando o mesmo corredor amplo e moderno que Naila havia visto minutos antes. Paredes de vidro separavam escritórios organizados, mesas de trabalho e pequenas salas de reunião. Pessoas caminhavam de um lado para o outro com tablets nas mãos ou conversando em voz baixa, criando um ambiente de movimento constante. Clara apareceu ao lado dela quase imediatamente. — Está pronta? Naila assentiu. — Sim. Clara começou a caminhar pelo corredor, e Naila a seguiu. — A Castellari Global é uma empresa grande — explicou Clara. — Temos vários departamentos. Finanças, estratégia, marketing, desenvolvimento, análise de mercado… Ela apontava discretamente para diferentes áreas enquanto passavam. — Como estagiária, você terá contato com vários setores, mas trabalhará principalmente na divisão administrativa ligada à diretoria. Naila tentou absorver cada palavra. — Diretoria? Clara lançou um olhar breve para ela. — Sim. Você terá algumas tarefas diretamente ligadas ao gabinete executivo. Aquilo fez o estômago de Naila apertar levemente. Trabalhar perto da diretoria significava responsabilidade. Mas também significava visibilidade. E visibilidade podia ser uma coisa boa… ou perigosa. Elas pararam diante de uma área aberta com várias mesas organizadas em fileiras elegantes. — Aqui é onde você ficará. Naila observou o espaço. Cada mesa tinha um computador moderno, pastas organizadas e pequenas plantas decorativas. Era tudo muito diferente da bagunça improvisada que ela estava acostumada a ver em escritórios menores. Clara indicou uma mesa próxima à janela. — Essa será a sua. Naila aproximou-se devagar. A vista dali era impressionante. Do alto do prédio, era possível ver grande parte da cidade se estendendo até o horizonte. Carros minúsculos cruzavam avenidas movimentadas, e outros prédios altos refletiam a luz suave da manhã. — Bonita vista, não é? — disse uma voz ao lado dela. Naila virou-se. Uma mulher de cabelos lisos e escuros estava sentada na mesa ao lado, olhando para ela com curiosidade. — Sim — respondeu Naila. — Muito bonita. A mulher sorriu. — Sou Júlia. — Naila. — Nova estagiária? Naila assentiu. — Primeiro dia. Júlia inclinou levemente a cabeça. — Então prepare-se. Os primeiros dias aqui podem ser… intensos. — Intensos? — Muito trabalho. Muitos olhos observando. Naila franziu levemente a testa. — Observando? Antes que Júlia pudesse responder, Clara voltou a falar. — Vou buscar alguns documentos para você começar. Fique à vontade. Ela saiu rapidamente. O silêncio ficou por alguns segundos. Júlia apoiou o cotovelo na mesa. — Não leve a m*l o que eu disse — comentou. — É só que aqui as pessoas gostam de saber quem é quem. — Eu só quero trabalhar — respondeu Naila. — Todos dizem isso no primeiro dia. Naila não soube se aquilo era uma piada ou um aviso. Ela ligou o computador da mesa, observando a tela acender lentamente. Enquanto esperava o sistema carregar, observou o restante da sala. Havia pelo menos quinze pessoas ali. Algumas digitavam concentradas. Outras conversavam em voz baixa. Mas Naila percebeu algo curioso. De vez em quando, alguém olhava discretamente em sua direção. Ela tentou ignorar. Talvez fosse apenas curiosidade normal. Ou talvez ela estivesse imaginando coisas. Clara voltou alguns minutos depois com uma pasta. — Aqui estão alguns relatórios simples — disse, colocando-os sobre a mesa. — Nada complicado. Apenas organização de dados. Naila abriu a pasta. Planilhas. Gráficos. Relatórios de desempenho empresarial. Nada impossível. — Se tiver dúvidas, pode perguntar — disse Clara. — Obrigada. Clara saiu novamente. Naila começou a trabalhar. Os primeiros minutos passaram em silêncio enquanto ela lia os documentos e organizava as informações no computador. Trinta minutos depois, já estava completamente concentrada. Ela gostava de organização. Gostava de números. Gostava de transformar caos em ordem. Era algo que sempre fizera bem. O problema foi perceber que alguém estava observando. A sensação começou como um leve incômodo. Um peso invisível. Naila levantou os olhos discretamente. Do outro lado da sala, duas funcionárias cochichavam enquanto olhavam em sua direção. Quando perceberam que ela havia notado, voltaram rapidamente para seus computadores. Naila respirou fundo. — Ignore — murmurou para si mesma. Ela voltou ao trabalho. Mais alguns minutos se passaram. Então outra voz falou atrás dela. — Você é a nova estagiária? Naila virou-se. Um homem alto, vestindo camisa azul clara e gravata escura, estava parado ali. — Sim. Ele sorriu educadamente. — Sou Rafael Duarte. Diretor financeiro. Naila imediatamente se levantou. — Prazer. Ele acenou levemente. — Não precisa ficar nervosa. Não mordo. Naila sorriu timidamente. — Primeiro dia costuma ser assustador — continuou ele. — Um pouco. Rafael observou os relatórios sobre a mesa. — Já começaram a te colocar para trabalhar? — Parece que sim. Ele assentiu. — Bom sinal. — Bom? — Significa que esperam algo de você. Ele olhou ao redor por um momento. Depois voltou a encará-la. — Apenas uma dica. — Qual? — Não tente impressionar ninguém. Naila franziu levemente a testa. — Apenas faça bem o seu trabalho. Ele sorriu novamente. — É mais raro do que parece. E então se afastou. Naila ficou olhando por alguns segundos. Aquela empresa era um universo completamente novo para ela. E parecia cheia de regras invisíveis. Ela voltou ao trabalho. As horas passaram rapidamente. Quando percebeu, já era quase meio-dia. O estômago de Naila começou a reclamar. Júlia apareceu ao lado da mesa. — Hora do almoço. — Já? — Aqui o tempo passa rápido. Naila salvou os arquivos e levantou-se. Elas caminharam juntas até o elevador. — O restaurante da empresa fica no décimo segundo andar — explicou Júlia. Quando chegaram lá, Naila ficou impressionada. O espaço parecia um restaurante elegante. Mesas organizadas. Grandes janelas. Um buffet variado. — Não esperava isso — admitiu Naila. — Uma das vantagens de trabalhar aqui. Elas pegaram bandejas e escolheram a comida. Quando se sentaram, Júlia observou Naila com curiosidade. — Posso perguntar uma coisa? — Claro. — Como você conseguiu esse estágio? Naila pensou por um segundo. — Processo seletivo. Júlia ergueu uma sobrancelha. — Só isso? — Só isso. Júlia não parecia totalmente convencida, mas não insistiu. Enquanto comiam, Naila observava discretamente as outras mesas. Algumas pessoas conversavam animadamente. Outras discutiam trabalho. Era um ambiente estranho para ela. Mas também fascinante. Quando terminaram, voltaram ao décimo quinto andar. A tarde começou mais tranquila. Naila continuou organizando relatórios e aprendendo a usar os sistemas da empresa. De vez em quando Clara aparecia para verificar o progresso. — Está indo bem — disse ela em certo momento. Naila sentiu uma pequena onda de alívio. — Obrigada. O relógio marcou quatro da tarde. A maioria das pessoas ainda trabalhava intensamente. Mas Naila percebeu algo curioso. Um silêncio diferente começou a se espalhar pela sala. Como se todos estivessem atentos a alguma coisa. Ela não entendeu o motivo. Até ouvir o som da porta do corredor se abrindo. Passos firmes ecoaram pelo piso. Naila levantou os olhos. E viu. Adrian Castellari. Ele caminhava pelo corredor com passos tranquilos, mas sua presença parecia alterar completamente o ambiente. Algumas pessoas se endireitaram nas cadeiras. Outras voltaram imediatamente aos computadores. Era como se a atmosfera inteira tivesse mudado. Adrian conversava com Rafael enquanto caminhavam. Por um instante, ele virou levemente o rosto. E seus olhos passaram pela sala. Naila não tinha certeza se ele realmente a viu. Mas por algum motivo seu coração acelerou novamente. Ela rapidamente voltou a olhar para a tela do computador. Tentando parecer completamente concentrada. Tentando agir como se aquele fosse apenas mais um momento normal do dia. Porque era exatamente isso que aquele dia deveria ser. Apenas o primeiro de muitos. Apenas o início de um estágio. Apenas o começo de uma nova rotina. E nada mais. Naila respirou fundo e continuou digitando. O relógio avançava lentamente rumo ao final da tarde, e o movimento no escritório permanecia constante. Era apenas o primeiro dia. E ainda havia muito a aprender.
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