O lugar escolhido para a saída tinha uma energia completamente diferente da Castellari Global. Não havia aquela rigidez silenciosa dos corredores da empresa, nem a pressão invisível dos prazos e reuniões. Era um bar moderno, com luzes quentes penduradas no teto, música envolvente, vozes sobrepostas e risos soltos que se misturavam com o som dos copos a tocar suavemente entre si.
Naila entrou com o grupo de colegas — Júlia, Sara, Inês, Miguel e Tiago — e, por um instante, ficou apenas a observar o ambiente antes de se permitir pertencer àquele momento. Não era algo que acontecia facilmente para ela. Ainda havia partes dentro dela que permaneciam em alerta, como se esperassem que algo desse errado a qualquer segundo. Mas naquela noite… ela decidiu não lutar contra isso.
Júlia foi a primeira a puxá-la pelo braço.
— Anda, hoje não é dia de cara séria.
Naila sorriu de leve.
— Eu não estou com cara séria.
Sara riu.
— Está sim. Só que hoje vamos resolver isso.
Miguel encostou-se ao balcão, olhando em volta.
— Isto aqui é melhor do que reuniões às seis da tarde.
Tiago riu.
— Qualquer coisa é melhor do que reuniões às seis da tarde.
Todos riram juntos, e Naila acompanhou o riso, mais leve do que esperava.
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As bebidas começaram a circular naturalmente. Nada exagerado no início, apenas cocktails simples, cervejas, conversas que iam e vinham sem pressão. Aos poucos, o ambiente foi quebrando qualquer barreira que ainda existia entre eles.
Júlia inclinou-se na mesa com um sorriso curioso.
— Ok… vou dizer uma coisa que vocês vão fingir que não ouviram depois.
Sara já riu antes mesmo da frase continuar.
— Lá vem.
Júlia apontou discretamente com o copo.
— O Rafael não passa despercebido, ok?
Inês soltou uma risada curta.
— Isso é novidade para alguém?
Sara assentiu, divertida.
— Ele tem presença, pronto. Não dá para ignorar.
Miguel, que estava mais ao lado, riu.
— Vocês mulheres têm uma forma muito detalhada de analisar chefes.
Tiago concordou, rindo.
— É impressionante. Nós olhamos e seguimos a vida.
Júlia ignorou completamente o comentário masculino e virou-se para Naila.
— E tu?
Naila levantou os olhos, surpreendida.
— Eu?
— Sim. Nunca reparaste?
Ela soltou uma pequena risada, balançando a cabeça.
— Eu trabalho com ele. Só isso.
Sara não aceitou.
— Isso não conta como resposta.
Inês inclinou-se.
— Nem um pouco.
Naila manteve o sorriso leve, mas firme.
— Eu não tenho opinião sobre pessoas com quem trabalho.
Júlia riu.
— Isso é demasiado neutro para ser verdade.
Mas não insistiram mais, percebendo que ela não ia entrar naquele tipo de conversa.
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Miguel mudou o foco da conversa, apoiando o cotovelo na mesa.
— Mas falando de chefes… o Adrian é outro nível.
Tiago riu.
— Esse homem parece sempre a cinco passos à frente de tudo.
Miguel assentiu.
— Ele não fala muito, mas quando fala… é direto.
Tiago sorriu.
— Eu acho que ele é mais fechado do que frio.
Miguel deu de ombros.
— Talvez.
Não havia julgamento pesado na forma como falavam. Era mais observação casual, como quem tenta entender alguém que parece sempre um pouco distante demais.
As meninas ouviram, mas não comentaram diretamente sobre Adrian. O assunto desviou-se naturalmente, como se a presença dele fosse algo mais sério, mais distante daquele tipo de conversa leve.
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Com o passar do tempo, a energia da mesa mudou completamente.
A música ficou mais presente.
As risadas mais soltas.
E alguém sugeriu dançar.
Sara foi a primeira a levantar.
— Naila, vem.
— Eu não danço…
— Hoje danças sim.
E antes que pudesse recusar mais uma vez, já estava a ser puxada para a pista.
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A música envolveu o grupo de forma quase imediata. Não havia coreografia, não havia regras, apenas movimento e liberdade. Sara rodava no meio da pista, Inês ria enquanto tentava acompanhar o ritmo, Júlia filmava tudo entre gargalhadas.
Naila, no início, estava rígida. Ainda consciente demais de si mesma.
Mas aos poucos… soltou.
Um movimento.
Depois outro.
Depois um riso genuíno que escapou sem esforço.
E então ela já não estava a pensar.
Estava apenas a sentir.
— EU NÃO SABIA QUE VOCÊ SABIA DANÇAR ASSIM! — gritou Sara.
Naila riu, girando levemente.
— EU NÃO SEI!
— ESTÁ A FAZER NA MESMA!
E isso bastou para ela rir ainda mais.
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Enquanto isso, do outro lado da cidade…
A inauguração do restaurante de Sofia Mendes Castellari brilhava sob luzes elegantes e cuidadosamente posicionadas. O espaço era sofisticado, cheio de convidados importantes, discursos suaves e sorrisos controlados.
Sofia circulava entre as pessoas com naturalidade, recebendo elogios e cumprimentando convidados. Era uma mulher que sabia ocupar o espaço sem esforço visível.
Adrian Castellari, no entanto, não estava completamente presente.
Ele estava ali fisicamente.
Mas a mente… parecia noutro lugar.
Sofia aproximou-se dele em determinado momento.
— Você está distante hoje.
Adrian olhou para ela.
— Só cansado.
Ela observou-o por alguns segundos.
— Você sempre diz isso.
Ele não respondeu.
E ela não insistiu.
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Mais tarde, no exterior do restaurante, Adrian saiu para respirar. O ambiente interno parecia demasiado fechado, demasiado cheio de vozes e interações que não exigiam nada dele emocionalmente, mas ainda assim o esgotavam.
Ajustou ligeiramente o casaco, massajando a têmpora.
— Dor de cabeça? — perguntou um dos organizadores.
— Um pouco — respondeu ele.
Sofia apareceu novamente.
— Vai embora?
Ele hesitou.
E assentiu.
— Sim.
Ela não insistiu desta vez.
— Tudo bem.
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Lá fora, o ar parecia mais frio.
Mais silencioso.
Mais real.
Adrian caminhou alguns passos.
E então viu.
Do outro lado da rua.
Naila.
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Ela estava a sair do bar com os colegas.
Rindo.
Falando com Tiago.
Com leveza.
Com uma liberdade que ele não tinha visto nela dentro da empresa.
Ela parecia diferente.
Não vulnerável.
Mas viva.
Tiago dizia algo e ela respondeu com um sorriso leve, inclinando a cabeça, completamente descontraída.
Adrian parou.
O corpo ficou rígido.
O olhar fixo.
E algo dentro dele mudou de forma imediata.
Não era racional.
Não era aceitável.
Mas era real.
Ele entrou no carro.
E começou a segui-los.
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Tiago caminhava ao lado de Naila enquanto a acompanhava até casa.
— Hoje foi bom — ele disse.
— Foi mesmo — respondeu ela, ainda leve.
O silêncio entre eles não era desconfortável.
Era natural.
Quando chegaram em frente ao prédio dela, ele parou.
— Naila…
Ela olhou para ele.
Curiosa.
Ele hesitou por um segundo.
Depois aproximou-se ligeiramente.
— Eu gosto de ti.
O ar mudou.
Naila piscou lentamente.
— Tiago…
Ele tentou beijá-la.
Mas ela recuou suavemente.
Firme.
— Não.
Ele parou.
Surpreso.
Ela respirou fundo, sem agressividade.
— Desculpa… mas não.
Silêncio.
Ela sorriu de leve.
— Boa noite, Tiago.
Ele assentiu, meio sem jeito.
— Boa noite…
E afastou-se.
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Dentro do carro, Adrian viu tudo.
As mãos dele apertaram o volante.
O maxilar ficou rígido.
Ele quase saiu.
Quase.
Mas ficou.
Porque sabia que não podia.
Não ali.
Não assim.
Mas algo dentro dele já tinha mudado.
E não havia como ignorar isso agora.
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Naila entrou no prédio.
Sem olhar para trás.
E desapareceu.
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Adrian ficou parado.
O olhar ainda preso na entrada.
E pela primeira vez…
ele não conseguiu dar nome ao que estava a sentir.
Mas sabia uma coisa com certeza:
não era apenas curiosidade.