Capítulo 2 - Henrique

1150 Words
— Você mora por aqui? — ele perguntou enquanto soltava os parafusos. — Não. Vim deixar uma amiga. — Tarde demais para isso. — Eu sou adulta. — Ela inclinou a cabeça. — Tecnicamente. Ele levantou o olhar para ela. Havia algo ali. Não julgamento. Não condescendência. Avaliação. — Quantos anos? — Dezenove. O silêncio durou um segundo a mais. — Imaginei. — O quê? Que eu era irresponsável? — Que você era nova demais para estar parada sozinha numa rodovia escura. A preocupação na voz dele era real. Não teatral. E aquilo a afetou mais do que deveria. Ela se aproximou um passo, curiosa apesar de si mesma. — E você? Qual é a sua idade misteriosa? Ele encaixou o estepe com precisão antes de responder. — Velho o suficiente para saber que certas coisas não valem o risco. — Isso é resposta de quem tem mais de trinta. Ele riu, breve. — Talvez. Ela percebeu que queria que ele dissesse. Queria que ele falasse mais. Ele terminou de apertar os parafusos e se levantou. Quando ficou totalmente ereto, a diferença de altura ficou evidente. A proximidade trouxe outro detalhe: cheiro discreto de perfume, algo amadeirado e limpo. Perigoso. — Já que eu salvei sua noite — ele disse — posso saber seu nome? Ela hesitou. Não costumava entregar informações pessoais a estranhos. Mas aquele já não parecia completamente estranho. — Lívia. Ele repetiu o nome como se testasse o som. — Lívia. O jeito como falou fez algo estranho vibrar dentro dela. — E o seu? — ela perguntou. Ele a encarou com um olhar que parecia medir a resposta. — Henrique. Só isso. — Só Henrique? Um pequeno sorriso. — Por enquanto. O vento soprou entre eles, trazendo o som distante de um carro passando. — Eu sei que pode parecer direto demais — ele começou — mas eu gostaria de te convidar para jantar. O coração dela tropeçou. — Você sempre convida mulheres que conhece há quinze minutos? — Não. A resposta veio firme. Sem brincadeira. — Só quando eu sinto que deveria ter conhecido antes. Ela respirou fundo. — Você é casado? Ele não desviou o olhar. Nem por um segundo. — É complicado. — Isso normalmente significa sim. Ele assentiu devagar. — Significa que eu estou me separando. Há algum tempo. Não é simples. Não havia vergonha na voz dele. Nem culpa exagerada. Apenas cansaço. Ela estudou o rosto dele. Não parecia homem em busca de aventura. Parecia homem cansado demais de alguma coisa. — Eu não me envolvo com homem casado. — Eu não te convidaria se ainda estivesse dentro de um casamento de verdade. A firmeza com que disse aquilo mexeu com ela. Silêncio. A decisão pairava no ar. — Bom… você já pode voltar a confiar no seu carro. Lívia observou o pneu novo como se aquilo fosse um pequeno milagre técnico. — Eu devia aprender a fazer isso. — Devia. — Ele apoiou as mãos na cintura por um instante. — Mas fico satisfeito de ter sido útil hoje. Ela assentiu. O momento natural seria agradecer e entrar no carro. Mas nenhum dos dois se moveu. O silêncio entre eles não era desconfortável. Era carregado. Ele enfiou a mão no bolso interno do paletó, tirou uma caneta e um cartão. Escreveu algo no verso. Estendeu para ela. — Meu número. Ela não pegou de imediato. Ainda era um estranho. — Você distribui isso assim pra qualquer uma que encontra na estrada? O canto da boca dele se ergueu. — Não. Ela pegou o cartão. Henrique. Sem sobrenome na frente. No verso, o número escrito à mão. A caligrafia firme. — Me manda uma mensagem quando chegar em casa. Ela arqueou a sobrancelha. — Confiante da sua parte achar que eu vou mandar. — Não é confiança. — Ele inclinou levemente a cabeça. — É só pra eu saber que você chegou viva. Aquilo não soou como charme. Soou genuíno. Ela desviou o olhar por um segundo, desconcertada. — Talvez eu mande. Ele aceitou a resposta com um pequeno sorriso. Ela abriu a porta do carro, mas parou antes de entrar. — Isso não vai arranjar problema com a sua esposa? A pergunta saiu direta. Sem rodeios. Ele não demonstrou irritação. — Não. — Não? — ela insistiu. — Eu vou chegar em casa e contar o que aconteceu aqui. — Contar o quê? — ela cruzou os braços. — Que deu em cima de mim numa rodovia? Ele riu de verdade dessa vez, o som baixo e inesperadamente leve. — Eu não dei em cima de você. Troquei seu pneu. Ela inclinou a cabeça, desafiadora. — E me chamou pra jantar. — Que você não aceitou — ele completou, ainda sorrindo. O vento passou entre eles outra vez. Ela entrou no carro. Ele deu um passo para trás, respeitando o espaço. — Dirige com cuidado, Lívia. O jeito como disse o nome dela fez algo estranho apertar no peito. Ela fechou a porta. Enquanto dava partida, viu pelo retrovisor ele ainda parado ali, mãos nos bolsos, observando. Impecável. Controlado. E perigosamente interessante. Quando virou na pista, percebeu que o pneu furado já não era a parte mais imprevisível da noite. ** Henrique dirigiu o restante do caminho em silêncio. A rodovia foi ficando para trás, substituída pelas ruas conhecidas do bairro onde morava havia anos. Casas alinhadas, postes de luz amarelados, árvores projetando sombras tortas sobre o asfalto. Tudo parecia exatamente como sempre. E ainda assim, algo não estava. Ele não costumava parar para desconhecidas. Não costumava oferecer ajuda que não fosse estritamente necessária. E definitivamente não costumava convidar alguém para jantar quinze minutos depois de conhecê-la. Mas havia algo na forma como ela sustentou o olhar. Na maneira como disse “eu não me envolvo com homem casado” sem baixar a cabeça. No jeito firme e quase debochado de existir. Lívia. O nome ecoava com facilidade incômoda. Ele estacionou em frente à própria casa e desligou o motor. A fachada iluminada pela luz da varanda parecia exatamente como em qualquer outra noite. A janela da sala estava acesa. As cortinas fechadas. Respirou fundo antes de sair do carro. A maçaneta da porta girou antes mesmo que ele colocasse a chave. Valentina apareceu primeiro. Cabelos soltos sobre os ombros, camiseta larga, expressão que misturava alívio e cobrança. Os olhos dela percorreram o rosto do pai como se avaliassem detalhes invisíveis. — Pai, você demorou. Henrique sustentou o olhar da filha por um segundo a mais do que o habitual. Naquela noite, a rodovia tinha sido simples. A parte difícil começava ali. Ele forçou um meio sorriso, aproximando-se da porta. — Tive um imprevisto no caminho. Valentina abriu espaço para que ele entrasse. E enquanto cruzava o limiar da própria casa, Henrique teve a sensação estranha de que, pela primeira vez em muito tempo, algo realmente tinha saído do controle.
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