Capítulo 1 — O Baile Ivanov

479 Words
O Baile Ivanov acontecia apenas uma vez por ano, e ainda assim parecia existir fora do tempo. Sob lustres de cristal que derramavam luz dourada sobre o salão, as famílias mais poderosas se reuniam mascaradas, envoltas em seda, veludo e mentiras bem ensaiadas. A música clássica preenchia o ar, elegante e fria, enquanto taças de champanhe tilintavam como se nada ali tivesse peso. Como se aquelas mãos não carregassem sangue. Como se aquela noite fosse apenas um jogo social. Ela entrou ao lado do pai. Vestia seda cor de meia-noite, o tecido abraçando seu corpo com discrição calculada. A máscara delicada escondia seu rosto, mas não a postura — havia nela algo atento demais, cuidadoso demais para alguém tão jovem. O perfume que usava misturava-se ao cheiro de poder e álcool caro do salão. Ela observava tudo. Os olhares demorados. As conversas interrompidas quando alguém se aproximava demais. Os sorrisos falsos. Cada detalhe era uma peça de um tabuleiro perigoso. Ela avançou pela multidão com passos controlados — até esbarrar em alguém. O impacto foi pequeno, mas suficiente. — Cuidado, senhora. A voz era rouca, baixa, perigosamente calma. Antes que pudesse se afastar, uma mão enluvada segurou seu braço com firmeza. Não machucava — mas também não pedia permissão. Ela ergueu o olhar. Máscara preta. Maxilar marcado. Olhos escuros, profundos, fixos nela com uma intensidade que fez o ar ao redor parecer mais denso. Por um instante, o mundo pareceu silenciar. — Me desculpe — ela disse, mantendo a voz firme, embora sentisse o pulso acelerar sob o toque dele. Ele não soltou imediatamente. Os olhos dele desceram por um segundo, avaliando-a como quem mede riscos, não beleza. Depois voltaram ao rosto mascarado. — Este não é um lugar para distrações — respondeu. — Nem para erros. O tom não era agressivo. Era aviso. Ele finalmente soltou seu braço, mas o espaço entre os dois permaneceu curto demais. Próximo demais. Ela sentiu o calor dele, o perfume discreto de algo amadeirado e frio. — Vou me lembrar disso — ela disse. Algo quase imperceptível passou pelo olhar dele. Interesse, talvez. Ou perigo reconhecendo perigo. — Faça isso — ele respondeu. — Costuma salvar vidas. Ele se afastou sem olhar para trás. Ela ficou ali por alguns segundos, sentindo o próprio coração bater forte demais para um simples esbarrão. Ela não sabia quem ele era. Não sabia que aquele homem era Levien Ivanov — o nome sussurrado apenas em salas fechadas, o homem que governava o submundo russo com um silêncio mais afiado que qualquer lâmina. Trinta anos. Frio. Intocável. O tipo de presença que fazia uma sala inteira se aquietar sem uma palavra. E ele não sabia que ela era Lays — a filha do aliado mais próximo que ele ainda mantinha. Naquela noite, dois segredos haviam se tocado sem saber. E nada naquele salão permaneceria seguro depois disso
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