Capítulo 5

1569 Words
Sarah Mills Os dias que seguiram ao funeral de Caleb foram os mais sombrios da minha vida. A morte do meu irmão havia deixado um vazio irreparável em mim, porém, era o estado da minha mãe que me consumia por dentro. Ela simplesmente deixou de reagir ao mundo, mergulhando em uma depressão tão profunda que parecia não haver saída. Ela m*l falava, m*l comia, e passava os dias deitada na cama, encarando o vazio com os olhos que antes transbordavam de amor e preocupação. Eu nunca imaginei que as coisas poderiam piorar, porém, naquela noite eu a encontrei no banheiro segurando uma faca com as mãos trêmulas, o olhar fixo nos seus pulsos. O grito de horror que escapou dos meus lábios foi o suficiente para trazê-la de volta à realidade, e ela soltou a faca, desabando em lágrimas no chão. Foi naquele momento que percebi que não podia mais cuidar dela sozinha. Eu a amava, mas estava destruída por dentro, e precisava de ajuda. A decisão de interná-la em uma clínica psiquiátrica foi uma das mais difíceis que já tomei. Eu sabia que era melhor para ela, contudo, o custo era exorbitante. Eu estava à beira do desespero, sem saber como pagar, e eu não faria aquilo novamente, acharia outro jeito de pagar. Foi então que, poucos dias após o funeral, o meu pai apareceu na minha porta. Eu não o via há anos. Desde que ele saiu de casa para ficar com a sua nova esposa, ele havia se distanciado completamente de mim e de Caleb, como se nunca tivéssemos existido. E agora, lá estava ele, com a mulher que destruiu a nossa família ao seu lado, como se viessem me fazer uma visita de cortesia. Quando abri a porta, fui recebida por um olhar frio e calculista. Meu pai, Alexander Mills, estava impecavelmente vestido, com um terno e o seu habitual ar de superioridade. Ao lado dele estava a sua esposa, Clarissa, uma mulher que aparentava ser mais jovem, pelos procedimentos estéticos que fazia, ela tinha um sorriso cínico nos lábios que nunca alcançava os olhos. Eles pareciam completamente fora do lugar na modesta entrada do apartamento onde eu morava com a minha mãe. - Sarah. – ele disse, como se fosse a primeira vez que pronuncia o meu nome em anos. – Podemos entrar? Eu os olhei por um momento, hesitando. A última coisa que queria era qualquer tipo de conversa com eles, especialmente depois de tudo que havia acontecido. Contudo, algo nos olhos do meu pai me fez dar um passo para o lado e deixá-los entrar. Talvez fosse esperança, ou apenas desespero, porém, algo dentro de mim esperava que ele estivesse ali por um motivo diferente. Talvez, apenas talvez, ele tivesse vindo para oferecer algum tipo de apoio, alguma forma de consolo. Mas eu deveria ter sabido melhor. Eles entraram na sala, onde a tristeza parecia se acumular em cada canto, refletindo o meu estado de espírito. Clarissa olhou ao redor com desdém, como se o lugar fosse indigno da sua presença. Meu pai, por outro lado, se dirigiu diretamente à cadeira mais próxima e se sentou, cruzando as pernas com um ar de negócios. - Sarah. – ele começou, a sua voz grave e sem emoção. – Eu ouvi sobre a sua mãe. É uma situação lamentável. Muito lamentável mesmo. Eu fiquei em pé incapaz de me sentar ou de me sentir confortável. - Lamentável? – eu repeti, com uma risada amarga. – Ela perdeu o filho dela. O seu filho. Você acha que isso é apenas lamentável? Clarissa deu um passo à frente, colocando a mão no ombro do meu pai, como se estivesse lhe dando força para continuar. - Sarah, querida. – ela disse com um tom doce, mas carregado de veneno. – Nós entendemos que você está passando por um momento difícil, e estamos aqui para ajudar. Eu queria gritar para que eles saíssem, porém, permaneci em silêncio, esperando para ver até onde eles iriam com isso. - Estamos dispostos a cobrir todas as despesas da clínica onde a sua mãe está internada. – continuou Clarissa, com um sorriso que não alcançava os olhos. – Mas, é claro, nada vem de graça. Eu senti o meu estômago revirar, claro que não era um ato de bondade. Eu já devia saber. - O que vocês querem? – perguntei, a voz quase falhando. O meu pai finalmente levantou o olhar para mim, e o que vi em seus olhos foi como um soco no estômago. Não havia amor, não havia dor pela perda de Caleb. Só havia frieza, interesse. - Você vai se casar com Aaron Black, herdeiro da Black Enterprises. As palavras dele bateram em mim como uma onda gelada. Eu sabia quem Aaron Black era – ou pelo menos, eu sabia o que falavam sobre ele. Um homem poderoso, herdeiro de um império empresarial, porém, que era conhecido por ser frio, egoísta e, de acordo com os rumores, ele tinha sofrido um acidente onde ficou paraplégico, e depois disso ele ficou recluso. Eu não queria me casar, muito menos com um estranho. - Você só pode estar brincando. – eu disse, incrédula. - Não estou. – ele respondeu, impassível. – Este casamento é benéfico para todos. A Black Enterprises é uma parceira estratégica para os meus negócios, e a sua união com Aaron garantirá que os nossos interesses permaneçam alinhados. - Eu não vou me casar com um estranho. – eu disse, a raiva crescendo dentro de mim. – Muito menos por algum acordo de negócio sujo! – eu olhei para Clarissa e perguntei. – Porque a sua filha não casa com ele? Clarissa se aproximou de mim, a sua voz baixa e cheia de ameaça. - Até parece que eu deixaria a minha filha se casar com aquele aleijado, Isabel tem um futuro brilhante pela frente. – ela diz, soltando as suas palavras cruéis. – Sarah, não seja i****a, estamos te dando uma oportunidade de mudar de vida, Aaron é um homem rico. E se não fizer o que estamos pedindo, nós não pagaremos um centavo para a clínica onde a sua mãe está, e também tomaremos esse… – ela parou olhou ao redor, e voltou a soltar o seu veneno. – Isso aqui que você chama de casa. E, francamente, se isso significa que você e a sua mãe vão parar na rua, ou que ela tente se matar novamente… bem, isso não é problema nosso. O meu corpo inteiro tremeu com as palavras dela. Eu olhei para o meu pai, procurando algum sinal de compaixão, alguma prova de que ele realmente se importava, mas tudo o que vi foi um homem frio, calculista, que só estava ali porque via uma oportunidade de lucro. - Você não pode estar falando sério. – eu sussurrei, sentindo as lágrimas subirem aos meus olhos. – Ela é a mulher com quem você viveu por anos, com quem teve filhos. Como você pode ser tão c***l? Ele manteve o olhar firme em mim sem nenhum traço de emoção. - Negócios são negócios, Sarah. Sentimentos não têm lugar nesse mundo. Ou você aceita, ou não há acordo. Eu queria gritar, queria chorar, queria expulsá-los dali, porém, as palavras de Clarissa continuavam ecoando na minha mente. A minha mãe precisava de cuidados, e eu não tinha outra maneira de pagar por eles. Eu estava de mãos atadas, encurraladas. - Você sempre foi uma garota inteligente. – Clarissa continuou, com aquele sorriso condescendente. – Sabe o que precisa ser feito. Fechei os olhos, tentando afastar as lágrimas que ameaçavam cair. Eu nunca me senti tão impotente na vida. Finalmente, depois de um longo silêncio, falei, minha voz quebrada pelo desespero. - Eu aceito! Mas com uma condição. – eles me olharam. - Qual a condição? – Clarissa me olhou com desdém, esperando eu falar. - Você… –olhei diretamente para meu pai. – Vai passar tudo que é meu por direito para meu nome. Clarissa me olhou com ódio, mas não liguei, eles queriam me usar como moeda de troca. - Você só pode estar louca! – ela falou exaltada. - Ótimo, então você que case a sua filha com Aaron Black. – disse dando de ombros, ela avançou para cima de mim, mas foi impedida pelo meu pai. - Tudo bem, eu faço isso. – disse Alexander Mills. - Alexander, você ficou louco. – ela me olhou. – Essa fedelha vai ditar as regras agora - Então eu não me caso, ele… – apontei para o meu pai. – Se não assinar os papéis transferindo tudo que é meu por direito para o meu nome, arrume outra i****a para vocês manipularem, ou melhor ainda, case a sua filha com ele Clarissa. – eu sei que eles têm muito mais a perder do que eu. Clarissa estava a ponto de explodir de ódio, mas eu não ligava. - Tudo bem. – ele disse. – Trataremos dos detalhes em breve. Antes que Clarissa pudesse falar algo mais, ele a arrastou para fora. E então me olhou e falou antes de sair completamente - Você é mesmo a minha filha, Sarah. Está usando as armas que tem a seu favor! – ele disse antes de sair, e aquelas palavras me embrulharam o estômago. E com isso, ele saiu, deixando-me sozinha na escuridão do meu apartamento, com a sensação de que acabara de vender a minha alma.
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