Sarah Mills
A chuva caía pesada sobre a cidade, como se o próprio céu estivesse refletindo a tempestade dentro de mim. O som das gotas contra o guarda-chuva era o único barulho que conseguia escutar, abafando os gritos de pavor e angústia que ecoavam na minha cabeça. Caminhei em direção ao hotel, sentindo cada passo pesar como chumbo. Estava prestes a fazer algo que mudaria a minha vida para sempre. Eu não tinha escolha, o meu irmão estava morrendo, e a única chance de salvá-lo era aquela cirurgia absurdamente cara. Quando me dei conta de que não conseguiria o dinheiro a tempo, percebi que a minha vida, meus sonhos, meu corpo, não valiam nada comparados à vida dele.
Foi assim que entrei nesse mundo. Tudo começou com June. Eu estava no hospital, desolada após ouvir do médico que a cirurgia precisava ser feita logo, ou seria tarde demais. June se aproximou como uma sombra, oferecendo a solução. Ela falou sobre o dinheiro fácil, sobre como os homens pagam fortunas apenas por companhia. No começo, eu disse que não, que não faria aquilo. Mas quando olhei para o meu irmão fraco e pálido, soube ali naquele momento, que eu faria qualquer coisa para salvá-lo. Então, aceitei.
Agora aqui estou eu, parada diante da porta do quarto 703. A minha mão tremia tanto que tive que respirar fundo algumas vezes antes de conseguir girar a maçaneta. O luxo do quarto parecia zombar de mim, como dissesse que eu não pertencia ali. Porém, era exatamente onde precisava estar. Para ele.
Eu não sabia nada sobre o cliente, nem mesmo o seu nome. June tinha dito que ele preferia o anonimato, que pagava bem por isso. Apenas me instruíram a ir ao hotel, seguir as ordens e não fazer perguntas. O mistério em torno disso tudo só fazia o medo crescer dentro de mim.
Entrei no quarto e vi o homem de pé, perto da janela, de costas para mim. O clima no quarto era pesado, quase sufocante. Quando ele finalmente se virou, o seu olhar frio e avaliador encontrou o meu. Ele era alto, imponente, com um olhar que parecia enxergar através de mim. Porém, havia algo mais. Os seus olhos estavam vidrados, como se ele estivesse lutando para manter o controle, e o seu corpo oscilava levemente, como se estivesse embriagado, ele deixou o copo que segurava na mesa no canto e veio até mim.
Antes que eu pudesse reagir, ele se aproximou rapidamente, me agarrando pelos braços e puxando-me contra ele. Os seus lábios se chocaram contra os meus em um beijo bruto, desesperado. O gosto forte de álcool era evidente, e a força com que ele me segurava era assustadora. Ele parecia fora de si, como se algo tivesse tomado o controle das suas ações.
- Pare… por favor. – eu sussurrei, tentando me afastar, porém, ele me segurou com ainda mais força.
- É isso que você quer, não é? – ele murmurou, a voz embargada e carregada de sarcasmo.
Eu tentei resistir, mas ele estava determinado, sua expressão transtornada. Em um movimento abrupto, ele rasgou a minha roupa, sem a menor consideração. O medo me dominava, e tudo que eu conseguia pensar era em escapar daqui e ir embora. No entanto, ele não me dava essa opção. Era como se ele não escutasse, como se estivesse cego pelo desejo ou pela raiva.
Ele me empurrou para cama, ignorando os meus apelos, e os olhos marejados de lágrimas. Cada toque era bruto, doloroso, sem qualquer traço de humanidade. A dor que senti quando ele me penetrou foi alucinante, e percebi que ele não tinha ideia do que estava fazendo comigo. Não foi assim que imaginei perder a minha virgindade. Para ele eu não passava de um objeto, algo a ser usado e descartado.
Quando ele terminou, ele saiu de dentro de mim e se deitou ao lado e dormiu, ele entrou em um sono pesado em questão de segundos, como se nada tivesse acontecido. Os meus braços tremiam enquanto me levantava da cama, tentando me recompor. eu precisava sair dali o mais rápido possível. Enquanto vestia as minhas roupas rasgadas, um detalhe chamou a minha atenção: uma marca de nascença um pouco abaixo da cintura dele. Por algum motivo aquilo ficou gravado na minha mente, como uma marca do inferno que acabara de atravessar.
Antes que ele pudesse acordar, saí do quarto, sem olhar para trás.
{...}
Voltei para casa exausta, tanto física quanto emocionalmente. A pequena sala de estar estava vazia, e o silêncio era um alívio bem-vindo. A minha mãe estava no hospital com Caleb, e eu estava sozinha. Melhor assim. Precisava de um momento para lidar com a culpa esmagadora que sentia.
Fui direto para o banheiro e entrei no chuveiro, deixando a água quente escorrer sobre mim. Esfreguei a pele com força, tentando lavar o peso daquela noite, porém, o que aconteceu parecia impregnado em mim. O olhar de desprezo que ele me deu, ainda estava gravado na minha mente.
Ao sair do banho, vesti o meu pijama e me encolhi na cama, as lágrimas finalmente rolando livremente. Eu fiz o que precisava ser feito. Caleb teria a cirurgia, teria uma chance. Mas o preço? Era alto demais. Eu havia perdido uma parte de mim que nunca mais recuperaria.
Porém, uma coisa era certa: nunca mais faria isso. Se precisasse de mais dinheiro, eu me humilharia, imploraria ao meu pai, mas jamais voltaria a vender o meu corpo. Jamais!