Os corredores do Castelo de Velaris estavam estranhamente silenciosos naquela manhã, o burburinho habitual dos criados silenciado enquanto a neve continuava a cair preguiçosamente contra as altas janelas. Evelyne vagueava perto da biblioteca, atraída pelo leve cheiro de tinta e pergaminho, uma pequena rebeldia contra a monotonia da vida na corte. A luz de inverno filtrava-se pelo vidro fosco, banhando o chão de pedra com um brilho pálido, mas pouco fazia para aquecer o frio que se instalara em seus ossos.
Ela parou do lado de fora dos aposentos dos criados, onde vozes, sussurradas, porém urgentes, ecoavam pelas paredes. A curiosidade a impeliu. Ela se aproximou, fingindo amarrar as luvas, escutando atentamente.
— “Não aguenta mais uma semana”, murmurou uma voz. “As aldeias do norte estão passando fome. Algumas não comem pão há dias”.
"Será que o Rei sequer sabe?", perguntou outro, com preocupação na voz. "Ou será que ele se importa?"
O estômago de Evelyne se contraiu. Ela tinha visto pouco do reino além dos muros do castelo, mas sabia que algumas partes eram prósperas, ricas em madeira, prata e grãos. Contudo, o sofrimento nas terras baixas, sussurrado em voz baixa por aqueles que serviam em silêncio, pintava um quadro diferente. O luxo da corte não conseguia escondê-lo.
Seu coração doía, as histórias se repetindo em sua mente. Seria possível que seu pai, tão orgulhoso e imperioso, fosse realmente cego ao sofrimento de seu povo? Ela queria confrontar alguém, fazer perguntas, mas o medo que sempre a perseguia a impedia. Quem daria ouvidos a uma princesa que só conhecia conforto e confinamento?
Azriel apareceu silenciosamente no fundo do corredor, escuro e imponente, como se tivesse se materializado das próprias sombras. O pulso de Evelyne acelerou, em parte pelo medo de ser pega, em parte pelo alívio de não estar completamente sozinha. Ele não disse nada, apenas a observou com a autoridade silenciosa que se tornara sua presença constante.
“Eles sussurram sobre rebelião”, murmurou ela, quase para si mesma. “O povo… está passando fome”.
Ele não disse nada, mas o cerrar de seus dentes e o escurecer de seus olhos diziam tudo. Estava consciente, cauteloso como sempre, mas preso ao dever. Seu silêncio era ao mesmo tempo tranquilizador e advertidor.
“Não posso ficar aqui sentada, fingindo que não vejo”, continuou ela, aproximando-se do fogo que ardia na lareira da biblioteca. “E, no entanto, o que posso fazer? Sou uma princesa, sim, e devo honrar a coroa. Mas se o povo sofre, se passa fome, de que serve a coroa para eles — ou para mim?”
Os olhos escuros de Azriel se voltaram para ela, notando a intensidade em sua expressão. "Você pode observar, pode ouvir, pode aprender. Mas o mundo além destas muralhas não perdoa. Um passo em falso, uma palavra m*l dita... você pode colocar a si mesma — e a Coroa — em perigo."
Suas mãos tremiam e ela as cerrou ao lado do corpo. “Não estou pedindo sua proteção. Estou pedindo… pedindo para agir, para fazer algo pelo povo. Servirei à coroa como devo, mas não posso fazê-lo sem ver a verdade sobre o que é o nosso reino. Não posso fechar os olhos enquanto eles sofrem.”
Ele franziu a testa, sentindo o peso da responsabilidade oprimir-o. "Sua coragem é admirável, mas não pode se sobrepor à sua segurança. Eu não posso... Não permitirei que você arrisque sua posição."
Os olhos de Evelyne se estreitaram, a luz da fogueira iluminando a teimosia de seu maxilar. "Então me ajude no que puder. Providencie para que comida chegue às aldeias do norte. Eu mesma conseguirei o dinheiro, se isso significar ajudá-los. Certamente você pode fazer isso?"
O olhar de Azriel se intensificou. “Você não pode simplesmente mover recursos sem permissão. Não é da sua alçada. Se tentar enviar ajuda por conta própria…”
"Sim, eu irei!" ela respondeu bruscamente. "Não pretendo trair a coroa, Azriel, mas não posso ficar de braços cruzados enquanto o povo sofre. Se você não me ajudar, irei eu mesma."
Por um longo momento, ele a observou, a tensão em sua postura quase dolorosa. Finalmente, expirou lentamente. "Você é imprudente", murmurou, com um leve tom de respeito na voz. "Não posso permitir que se coloque em perigo, mas garantirei que isso seja feito, discretamente. Dentro dos limites que posso impor sem levantar suspeitas."
Seus lábios se curvaram num sorriso fugaz e vitorioso, temperado com alívio. "Obrigada", disse ela suavemente. "Não desperdiçarei esta oportunidade. Quero servir à coroa, Azriel, mas também quero servir ao povo. E, às vezes, essas duas coisas não são a mesma coisa."
Ele balançou a cabeça, os olhos escuros de vigilância. "Você é uma princesa tola. Mas... não duvido do seu coração. Não deixe que ele a leve à ruína."
O vento uivava contra as muralhas do castelo, fazendo tremer os vidros das janelas enquanto Evelyne permanecia junto à lareira, observando as sombras dançarem. Ao longe, um sino tocou, um lembrete da passagem do tempo, dos deveres dos quais ela ainda não podia escapar.
E naquele silêncio, Evelyne decidiu que não ficaria de braços cruzados. Ela veria, ela entenderia, ela agiria — mesmo que o preço fosse a sua segurança, mesmo que isso significasse desafiar o pai, mesmo que isso significasse trilhar a perigosa linha tênue entre o dever e o desejo.
Azriel permaneceu em silêncio, um sentinela nas sombras, observando-a com a vigilância constante de alguém que conhecia muito bem os riscos do mundo além dos muros do castelo. Ele não podia guiá-la, não podia intervir, mas observaria. E talvez, nessa vigilância silenciosa, ele pudesse ao menos garantir que ela sobrevivesse o tempo suficiente para fazer suas próprias escolhas.