Escudo de Sangue

2331 Words
O inverno se agarrava a Velaris como uma tristeza que não se dissipava. A neve havia derretido, transformando-se em lama e gelo, mas o frio cortava com mais força do que nunca, penetrando nas estruturas antigas do castelo. Rumores sobre a decadência do Rei começavam a sussurrar pelos corredores — nunca ditos em voz alta, mas presentes em cada cortina fechada, em cada suave instrução da Rainha para manter os aposentos aquecidos. Lareiras ardiam dia e noite, mas cada canto do grande salão ainda carregava um sopro de gelo. Até mesmo o riso — quando vinha — soava frágil, como vidro prestes a se estilhaçar. Evelyne começara a pensar que talvez nunca mais sentisse calor. Todas as manhãs, ela acordava com mais uma carta lacrada em cera carmesim — propostas, consultas, alianças disfarçadas de elogios. A Rainha lia todas. Evelyne nunca via as respostas. Naquela manhã, a penumbra da sala da Rainha estava baixa, as cortinas fechadas para bloquear o sol pálido. O aroma de óleo de lavanda e pergaminho impregnava o ar. Evelyne sentava-se obedientemente ao lado da mãe enquanto um enviado visitante tagarelava sobre alianças e dotes, suas palavras comedidas e polidas, mas carregadas de expectativa. Esta manhã foi pior. Ela sentou-se ao lado da mãe na sala de estar, com o fogo a arder suavemente, enquanto Isolda conversava com um enviado visitante — um homem refinado dos Ducados do Norte, cujo sorriso era tão discreto quanto a sua paciência. “Meu Rei envia apenas respeito à filha de Sua Majestade”, disse ele, curvando-se rigidamente. “E espera que sua ajuda fortaleça a paz que compartilhamos”. Sua mãe inclinou a cabeça graciosamente. "O Rei irá considerar isso". O olhar do enviado se voltou para Evelyne. "Princesa, os invernos do seu país devem lhe fazer ansiar pelo calor do sul." Os lábios de Evelyne se curvaram o suficiente para demonstrar polidez. "Estou acostumada ao frio, meu senhor. Ele ensina a ser resiliente." Seu sorriso irônico vacilou. A mão de Isolda roçou o braço de Evelyne num silencioso sinal de aviso. Quando o enviado saiu, a mãe dela se virou para ela. “Você precisa insistir sempre? Você sabe como essa paz é frágil”. “A paz frágil não é paz, Mãe”, disse Evelyne suavemente. “É apenas medo, disfarçado de seda”. A expressão da Rainha se tornou tensa. "Você falará como uma princesa, não como uma filósofa. O Rei decidirá com quem você se casará, e você honrará essa decisão." "Vou honrar o que é certo", murmurou Evelyne. O tapa nunca veio, mas a ameaça dele pairava no silêncio. Quando finalmente conseguiu escapar para o pátio, encontrou Rhysand à sua espera — seu irmão encostado no parapeito coberto de gelo, com a capa bem apertada. Ele sorriu ao vê-la, mas o sorriso não chegou aos seus olhos. “Você parece que acabou de ser condenado”, disse ele. “Talvez eu tenha”. Ele endireitou-se, e seu tom de voz tornou-se mais incisivo. "Outro pretendente?" “Desta vez, veio do norte”, disse Evelyne com amargura. “Mamãe gosta da influência do pai dele. Acho que é só isso que importa”. Rhysand exalou, a névoa de sua respiração se dissipando no ar frio. "Você não é uma peça no jogo, Evelyne." "Não sou?", disse ela. "Cada carta que chega é mais um lembrete de quão pouco a minha opinião importa." Sua expressão escureceu. "Não enquanto eu estiver aqui". Ela queria acreditar nele. De verdade, queria. Mas nem mesmo seu irmão — charmoso, leal, adorado pela corte — conseguia protegê-la de muita coisa. Ela juntou-se a ele na grade, apertando o manto contra o corpo. O vale abaixo estendia-se infinito e branco — campos envoltos em névoa, a linha n***a distante da floresta, o rio congelado cortando a terra como uma cicatriz. "É lindo", ela sussurrou. "E solitário Ele olhou de soslaio. "Você tem estado quieta ultimamente." “É a mãe”, disse ela amargamente. “Ela os escuta, Rhysand. Ela escuta como se eu fosse… um móvel. Um dote com pulso.” Rhysand suspirou, apoiando-se no parapeito ao lado dela. "Eu também detesto isso, sabia? A farsa. Os sorrisos. As reverências." “Você nasceu para isso”, ela provocou suavemente. “Eles te adoram”. “Acho que eles gostam da ideia que eu represento”, respondeu ele. “É mais fácil amar um símbolo do que um homem”. Ela deu um leve sorriso. "Você sempre diz coisas assim quando está cansada." “Ou honestamente.” Ele deu um empurrãozinho no ombro dela. “E você sempre fica remoendo quando está com medo.” “Não tenho medo”. Ele lançou-lhe aquele olhar irritante de irmão mais velho — paciente, perspicaz. "Então, o que você é, Evie?" Ela hesitou. "Presa". A palavra saiu pequena, mas verdadeira. Rhysand virou-se para encará-la de frente, falando baixo. "Então encontrarei um jeito de libertá-la. Eu juro." Ela olhou nos olhos dele. "Você não pode me proteger de tudo." "Observe-me", disse ele com um sorriso que não escondia completamente a firmeza por trás dele. Ela deu uma risadinha, bem baixinho. "Você sempre foi impossível". “E você sempre foi teimoso”. Antes que ela pudesse responder, o som de armaduras batendo soou atrás deles. Azriel aproximou-se, o elmo debaixo do braço, o passo decidido. Ele curvou-se brevemente para Rhysand e depois para ela. “Vossa Graça, Princesa”, cumprimentou ele, com seu tom comedido de sempre. Rhysand assentiu com a cabeça. "Azriel. Você esteve com os guardas a manhã toda?" “Sim, senhor. O Rei solicitou que o portão oeste fosse reforçado.” Evelyne desviou o olhar, desinteressada — ou fingindo estar. Mas sentia a presença de Azriel como um peso. Desde aquele dia no mercado, ele se mantinha em silêncio absoluto — uma sombra que pairava à espreita em todos os cômodos em que ela entrava. Rhysand olhou de um para o outro. "Evelyne estava me contando sobre nossos amigos do norte", disse ele com cautela. O queixo de Azriel se moveu ligeiramente, mas ele não disse nada. "Não vou fazer isso", murmurou Rhysand após uma pausa. "Não vou deixar que te mandem para aqueles homens." Evelyne olhou para ele com firmeza. "Rhysand—" “Estou falando sério”, interrompeu ele. “Meu pai me ouve mais agora, com a formação do conselho do Regente. Se ele acha que isso vai garantir a paz, vou fazê-lo enxergar as coisas de outra forma”. Azriel falou então, em voz baixa. "Perdoe-me, Vossa Alteza, mas isso não é sensato." Rhysand se virou, franzindo a testa. "O que isso quer dizer?" “Desafiar o Rei publicamente enfraquecerá sua posição”, disse Azriel. “Se você pretende proteger a Princesa, faça-o mantendo a confiança dele, não a quebrando”. "Então, você está sugerindo que eu deixe que ele decida o destino dela?", retrucou Rhysand, irritado. “Sugiro que você viva o suficiente para mudar isso”, respondeu Azriel calmamente. O estômago de Evelyne revirou. “Você sempre pensa em táticas”, disse ela amargamente. “Nunca em sentimentos”. O olhar de Azriel se voltou para ela, indecifrável. "Corações matam homens". “E não fazer nada leva as mulheres ao aprisionamento”. A atmosfera entre eles ficou tensa. Até Rhysand parecia desconfortável. Azriel inclinou levemente a cabeça. "Com todo o respeito, Princesa, sua segurança depende da sua moderação." “Segurança”, ela repetiu friamente. “Outra palavra para obediência”. Suas palavras pairaram no ar — cortantes, deliberadas. Os olhos de Azriel encontraram os dela, duros e inflexíveis, e pela primeira vez ela pensou ter visto raiva ali. Não dela, talvez, mas da verdade daquilo. Foi Rhysand quem finalmente quebrou o silêncio. "Chega", disse ele, em voz baixa. "Vocês dois. Este não é o inimigo que vocês estão enfrentando." Evelyne desviou o olhar, piscando rapidamente. "Não", disse ela baixinho, "mas estou começando a me perguntar quem é". Ela saiu antes que qualquer um dos dois pudesse falar novamente. Naquela noite, o castelo estava inquieto. A tosse do rei ecoava fracamente pelos salões superiores, um som que trazia consigo pavor. Cortesãos se reuniam nos cantos, cochichando sobre cartas e alianças. Azriel estava parado do lado de fora da porta de Evelyne, com cada músculo contraído em um controle rígido. Ele ainda conseguia ouvir as palavras dela de mais cedo — a fúria nelas, a dor aguda subjacente. Você sempre pensa em táticas. Nunca em sentimentos. Não era mentira. Ele aprendera há muito tempo que corações eram armas à espera de serem usadas contra você. Mas o dela... o dela fora forjado numa gaiola, e ele vira o que isso fazia a alguém. Quando a porta rangeu ao abrir, ele se pôs em posição de sentido. Evelyne estava ali, com os cabelos soltos e um leve traço de cansaço sob os olhos. "O senhor alguma vez dorme, senhor Azriel?", perguntou ela em voz baixa. Ele hesitou. "Quando o dever permitir". “Então, seu dever é implacável”. Ele não respondeu. Ela permaneceu ali por mais um instante, a luz da lareira de seu quarto projetando tons dourados em seu rosto. “Ouvi meu irmão discutindo com meu pai esta noite”, disse ela finalmente. “Sobre mim”. A garganta de Azriel se fechou. "Então ele cumpre sua palavra." “E você ainda acha isso imprudente?” “Acho isso perigoso”, disse ele. “Mas às vezes são a mesma coisa”. Seus olhares se encontraram. Pela primeira vez, nenhum dos dois desviou o olhar. Então ela deu um passo para trás e fechou a porta suavemente, deixando-o sozinho no corredor — um guarda silencioso para uma garota que brilhava intensamente demais para o mundo em que estava presa. E embora permanecesse tão imóvel como sempre, Azriel sentiu algo mudar dentro de si, algo silencioso e indesejado. Pela primeira vez, o dever pareceu insuficiente. Azriel permaneceu do lado de fora dos aposentos da princesa muito tempo depois que ela desapareceu atrás da pesada porta de carvalho. As tochas ao longo do corredor crepitavam e estalavam, sua luz pintando um dourado inquieto sobre a pedra polida. Ele deveria ter ido embora. Seu dever era guardar, não ficar parado. Mas os ecos da voz dela — aguda, desafiadora, vibrante — ainda queimavam em sua cabeça. Passos romperam o silêncio. Rhysand virou a esquina, com a capa aberta e os cabelos despenteados após um longo dia de conselho. Parou ao ver Azriel e ergueu uma sobrancelha. "Você parece um homem pronto para duelar com uma porta." Azriel endireitou-se, curvando-se ligeiramente. "Vossa Alteza". “Relaxe”, disse Rhysand, aproximando-se. “Se eu quisesse formalidades, convocaria o tribunal”. Ele encostou um ombro na parede ao lado de Azriel, seguindo seu olhar em direção à porta silenciosa. "Você deve achá-la imprudente. Todo mundo acha." Azriel permaneceu imóvel. "Acho que ela é corajosa. Mas coragem sem cautela pode ser perigosa." “Falou como um homem que sobreviveu a ambas as situações”. A boca de Azriel se contraiu, mas ele não respondeu. Rhysand o observou por um instante, sua expressão mudando — o príncipe confiante desaparecendo, deixando apenas o irmão cansado. "Sabe, quando éramos crianças, Evelyne costumava subir na torre sul para ver o nascer do sol. Me deixava apavorado. Ela ficava lá descalça, com o vento nos cabelos, convencida de que podia ver o fim do mundo." Ele deu uma risada baixa e entrecortada. "Eu gritava para ela descer antes que caísse, e ela apenas sorria e dizia: 'Então você teria que me segurar'. Ela sempre foi assim. Sempre tentando alcançar algo que está um pouco fora de seu alcance." O olhar de Azriel suavizou-se. "E você a tem capturado desde então." O sorriso de Rhysand se desfez. "Eu tento. Mas a cada ano ela fica um pouco mais fora do meu alcance. E logo... Pai decidirá o seu valor em alianças e tratados, e ela sorrirá apesar de tudo porque sabe que precisa fazer isso." Sua voz baixou. "Ela se faz de forte, Azriel. Orgulhosa. Mas por baixo de tudo isso, ela é—" Ele parou de falar, procurando a palavra. — Ela é gentil — concluiu ele por fim. — Gentil demais para o mundo em que nasceu. Às vezes você percebe, se olhar com atenção — o jeito como ela observa as pessoas quando pensa que ninguém está vendo. O jeito como ela se encolhe quando a mãe fala de casamento. Ela carrega cada emoção como se fosse uma batalha já perdida. O peito de Azriel apertou. "Você tem medo que ela se quebre." "Receio que ela se esconda atrás do fogo até se consumir", disse Rhysand em voz baixa. "Ou que se destrua lutando por uma liberdade que este mundo não lhe dá." O silêncio se estendeu entre eles, repleto de coisas não ditas — a lealdade de um homem, jurada por juramento, e o amor de outro, unido por laços de sangue. Finalmente, Rhysand se endireitou. "Ela vai lutar com você, sabia? Ela vai te testar, te amaldiçoar, te fazer questionar por que você aceitou esse cargo. Mas não leve para o lado pessoal." "Não", disse Azriel em voz baixa. Rhysand o estudou, os olhos semicerrados. "Ótimo. Porque ela não precisa de mais um guarda que tenha medo dela. Ela precisa de alguém que a veja pelo que ela é, não apenas pelo que ela representa." Azriel encarou-o fixamente. "Eu a sirvo, não como um símbolo, mas como ela mesma." Rhysand deu um leve sorriso, meio orgulhoso, meio triste. "Então eu escolhi certo." E então ele se foi, deixando Azriel sozinho na luz bruxuleante — seu pulso irregular, seus pensamentos muito altos. Ele ficou ali parado por um longo tempo, ouvindo o silêncio atrás da porta da princesa. Então ele respirou fundo e foi embora.
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