Fios de Intriga

1418 Words
Os corredores do Castelo de Velaris pareciam mais frios do que o normal naquela manhã, as paredes de pedra escorregadias pela geada persistente que se infiltrava em cada fresta. Evelyne se movia rapidamente, o eco de suas botas soando alto demais, deliberado demais, nos corredores vazios. Seus pensamentos eram um turbilhão de frustração e raiva, as palavras da Rainha ditas mais cedo a oprimindo como um manto pesado. Ela sabia, é claro, que seu futuro já estava sendo traçado, mas ouvir isso articulado tão claramente fazia a realidade doer mais forte do que qualquer frio. As intenções de sua mãe eram protetoras, sim, mas a gaiola dourada ainda era uma gaiola, e Evelyne sentia-a pressionando-a por todos os lados. A neve caía em delicados redemoinhos pelos jardins do castelo, agarrando-se aos galhos nus das árvores como renda beijada pela geada. A respiração de Evelyne formava nuvens suaves enquanto ela caminhava pelos caminhos sinuosos de pedra, as luvas úmidas pelo toque do gelo na cerca de ferro forjado. Ela havia roubado essa hora, esse fragmento de liberdade, para sentir o frio nas bochechas e o vento nos cabelos — para se lembrar de que havia um mundo além dos salões dourados, além do peso do dever e da expectativa. Um farfalhar repentino entre as sebes chamou sua atenção. A princípio, pensou que pudesse ser um dos criados do castelo, mas então uma figura familiar surgiu na luz filtrada — Feyre. O primeiro pensamento de Evelyne foi de surpresa; a garota não deveria estar vagando por aquelas terras. As bochechas de Feyre estavam coradas pelo frio, seus olhos escuros brilhando de preocupação. “Princesa Evelyne”, disse Feyre suavemente, inclinando a cabeça com uma graça cuidadosa. “Eu… eu espero não estar me intrometendo”. A irritação inicial de Evelyne se dissipou, dando lugar à curiosidade. "Você não é", respondeu ela com cautela, inclinando a cabeça. "Embora eu deva admitir que o segredo que a envolve nos faz questionar sua importância." Os lábios de Feyre se curvaram num sorriso leve e perspicaz. "Não busco importância, Princesa. Apenas... compreensão, discrição..." Evelyne ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços. "Discrição? Você e meu irmão, presumo?" “Eu me importo com seu irmão.” As palavras eram simples, quase banais, mas carregavam um peso que Evelyne sentia pressionando seu peito. Uma pontada de algo desconhecido — ciúme, talvez, embora ela ainda não conseguisse nomeá-lo — surgiu dentro dela. Seu tom era provocador, mas por baixo dele havia uma consciência silenciosa. Ela já suspeitava disso, mas ouvir a confirmação fez seu estômago se contrair numa estranha mistura de curiosidade e instinto protetor. Feyre assentiu com a cabeça, franzindo levemente a testa. "Sim. Rhysand... ele... ele gosta de mim, mas isso não pode ser revelado. Se alguém descobrisse—" Ela hesitou, procurando no rosto de Evelyne qualquer sinal de julgamento, mas não encontrou nenhum. "Por favor. Confio que você não contará a ninguém. Eu... eu gosto dele e não posso arriscar que descubram. Ainda não." Evelyne expirou lentamente, sua respiração formando nuvens que se misturavam ao ar frio da manhã. "Você tem a minha palavra", disse ela finalmente, um sorriso irônico curvando seus lábios. "Embora eu suspeite que você precise dela menos do que pensa. Segredos têm um jeito de sobreviver, mesmo neste castelo." O alívio de Feyre era quase palpável. "Obrigada, Princesa. Eu... eu só quero que ele seja feliz, mesmo que por um breve momento. E eu temo que você possa—" Ela fez uma pausa, incerta se Evelyne zombaria de sua preocupação. "Eu?" Evelyne interrompeu, um riso fraco escapando de seus lábios. "Eu jamais poderia lhe negar isso. Se Rhysand tem alguém, alguém que o vê além da coroa, eu fico... feliz. De verdade." Ela gesticulou vagamente em direção ao pátio, às muralhas, às torres que os cercavam. "É o mundo que nos separa, não as pessoas que amamos." Os lábios de Feyre se curvaram num pequeno sorriso, hesitante e grato. "Você é... mais gentil do que eu imaginava, Princesa." Evelyne balançou a cabeça, afastando uma mecha de cabelo solta do rosto. "Não mais gentil. Realista. Aprendi cedo que a vida raramente nos dá o luxo da escolha. Rhysand merece um momento de felicidade, mesmo que seja escondido. E... estou feliz em guardar seu segredo. Não o trairei. Mas... aviso-lhe", acrescentou, com um tom provocador na voz, "se algum dia o tratar m*l, não ficarei tão calada". Feyre deu uma risadinha suave, a tensão se dissipando de seus ombros. "Espero nunca te dar motivos para isso." Caminharam juntas por um breve momento pelos caminhos do jardim, o silêncio entre elas confortável, carregado de compreensão. Evelyne observou como Feyre se movia, como ela calculava cuidadosamente cada passo, como se estivesse pisando em terreno delicado. Isso a fez lembrar de si mesma, presa em uma vida ditada pelo dever e pela expectativa, mas movendo-se com toda a graça e desafio que conseguia reunir. "Você me inveja?", perguntou Feyre de repente, voltando o olhar para Evelyne. Seus olhos brilhavam com perguntas não ditas. Evelyne balançou a cabeça, os flocos de neve se prendendo em seus cabelos. "Não", disse ela firmemente. "Não invejo. Eu invejo o mundo lá fora, a liberdade de fazer escolhas. Mas você... você fez uma escolha, por menor que seja, e eu... fico feliz por ele. Só isso. Eu tenho minhas próprias batalhas para travar." Seu olhar se voltou para o chão. Ela queria perguntar como, como navegar numa vida onde cada escolha era ditada, mas sentiu a futilidade da pergunta antes mesmo que ela se formasse. Em vez disso, permitiu-se um pequeno aceno de cabeça, um reconhecimento silencioso do caminho que Feyre havia escolhido, e do caminho que já havia sido escolhido para ela. “Você é corajosa”, disse Evelyne finalmente, com uma mistura de admiração e inveja. “Por amar sabendo das consequências”. Sua voz tremeu um pouco, embora ela se esforçasse para manter a compostura. Feyre inclinou a cabeça mais uma vez. "E você, Princesa, tem um coração cheio de fogo. Um dia, talvez, você encontre uma maneira de deixá-lo respirar." Evelyne deu de ombros levemente, mantendo a guarda alta o suficiente para esconder o lampejo de desejo que não ousava admitir. "Talvez. Ou talvez eu seja apenas boa em guardar segredos. Um dia, você poderá ver." Enquanto Feyre se afastava de volta para os corredores internos, Evelyne permaneceu ali, contemplando as torres cobertas de neve e as montanhas distantes além do reino. Ela sentia com mais intensidade a lâmina afiada de sua própria prisão, as paredes se fechando cada vez mais depois de testemunhar a pequena liberdade que seu irmão conquistara para si. Mesmo assim, o calor em seu peito, a faísca de empatia e compreensão, permanecia com ela. Rhysand tinha alguém que amava, e ela não interferiria. Guardaria o segredo com a própria vida, mas a lembrança apenas alimentava sua determinação — um dia, ela encontraria seu próprio fragmento de liberdade, seu próprio amor que ousaria desafiar as expectativas. E enquanto se virava de volta para o castelo, com o vento açoitando sua capa e gelando suas faces, Evelyne sentiu isso com mais intensidade do que nunca: a linha entre dever e desejo era cruelmente traçada, e ela teria que lutar contra cada centímetro dela para reivindicar ao menos uma lasca de liberdade de escolha para si mesma. A princesa sentiu uma estranha mistura de emoções. Alívio, por ter visto que o amor podia existir em pequenos e escondidos recantos do mundo; inveja, pela liberdade que seu irmão se permitira por um breve período; e determinação, uma resolução silenciosa e latente de que um dia lutaria por sua própria chance de alcançar tal liberdade. Ela fitava as chamas, observando-as tremeluzir e dançar como se guardassem segredos que ela quase podia alcançar. O vento frio lá fora sacudia os vidros das janelas, lembrando-a do mundo além de seu alcance, mas, sob o brilho quente do fogo, Evelyne fez uma promessa silenciosa a si mesma: um dia, ela não seria peão da Rainha. Um dia, ela escolheria seu próprio coração, não importando o preço. A sombra das muralhas do castelo pairava imponente, carregada de deveres e expectativas, mas Evelyne sentiu um leve calor crescer em seu peito. Uma faísca de rebeldia, talvez. Uma faísca que ainda não podia ser extinta. E embora ainda não soubesse como, resolveu encontrar um jeito de reivindicar ao menos um fragmento da vida que tanto almejava e de proteger o coração que ousava sonhar além daquelas muralhas.
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