O grande salão do Castelo de Velaris nunca lhe parecera tão vasto. Tapeçarias retratando gerações de reis e batalhas estendiam-se do chão ao teto abobadado, captando o brilho bruxuleante das velas que dançavam como pequenas estrelas nas paredes de pedra. Naquela noite, o salão estava repleto de nobres, suas vozes oscilando entre risos, conversas e o ocasional tilintar de taças. Evelyne sentia-se presa em meio à agitação — vestidos reluzentes roçando em sua direção, o aroma de vinho temperado e carnes assadas impregnando o ar, o peso da expectativa pressionando seu peito.
Ela se movia com cuidado pela beira da pista de dança, a postura impecável, o sorriso ensaiado. Cada centímetro dela havia sido treinado à perfeição: como fazer uma reverência, como acenar educadamente, como esconder qualquer lampejo de frustração nos olhos. Mas, por baixo da aparência polida, seus pensamentos fervilhavam como as nuvens de tempestade que haviam passado sobre o reino mais cedo naquele dia. Ela estivera presa naqueles salões por anos, e o baile — que deveria celebrar sua maioridade — parecia mais uma gaiola decorada em ouro e veludo.
Foi durante a terceira dança que ela o notou.
Azriel estava parado na entrada do salão, envolto em sombras, com a postura rígida, os olhos percorrendo a multidão como se os próprios nobres representassem ameaças para ela. O pulso de Evelyne acelerou. Ela não esperava sentir a onda de alívio — ou irritação — que a presença dele lhe trazia. Seu olhar atento era ao mesmo tempo reconfortante e irritante, um lembrete da coleira invisível que ela ainda não havia reconhecido.
Um nobre aproximou-se, curvando-se profundamente com um sorriso ensaiado. "Princesa Evelyne, concede-me esta dança?" Seu tom era polido, mas havia uma autoconfiança subjacente, daquelas que vêm de quem conhece o poder de um nome. Evelyne o observou atentamente. Seu terno de tecido fino brilhava à luz de velas, seus modos impecáveis, suas intenções claras.
Ela assentiu, aceitando, mas apenas para deixar claro seu ponto. Enquanto dançava, manteve a imagem da princesa obediente, da filha perfeita, até perceber o olhar de Azriel sobre ela. O momento foi eletrizante. Com uma leve inclinação de cabeça e um arqueamento brincalhão da sobrancelha, ela se aproximou um pouco mais do parceiro, rindo baixinho de um comentário, deixando seus dedos roçarem nos dele de forma sedutora e cúmplice.
Azriel cerrou os dentes, os ombros tensos e rígidos. Ele não se moveu, não interferiu, mas a tempestade em seus olhos era inconfundível. Evelyne sentiu um arrepio ao vê-lo, mesmo com o peito apertado pela culpa. Ela estava testando limites — os seus e os dele.
Ao término da dança, ela se desculpou e dirigiu-se aos jardins para escapar do calor sufocante e do olhar implacável da corte. Encontrou um recanto tranquilo entre as colunas de pedra, onde o ar gélido a fez lembrar que estava viva, e não era apenas uma peça em um jogo político.
Azriel apareceu na entrada da alcova, silencioso como sempre. Evelyne parou por um instante, depois se virou, com os braços cruzados. "Você me seguiu."
“Cumpro meu dever”, disse ele simplesmente. “Sempre”.
Ela soltou uma risada curta e incrédula. "Você nunca para, Sir Azriel? Tudo o que eu faço precisa ser vigiado? Até as menores escolhas?"
“Não posso me dar ao luxo de parar”, respondeu ele, com um tom neutro, embora seus olhos denunciassem a tensão que o consumia. “Um passo em falso… uma decisão insensata, e isso pode custar sua vida. Ou a minha.”
Evelyne aproximou-se, ignorando o frio no ar, e elevou a voz. "E, no entanto, aqui estou eu, dançando com nobres, sendo observada e avaliada por todos os cortesãos do salão, e você não diz nada?"
"Entendo", disse Azriel em voz baixa, com o olhar firme e inabalável. "E isso me enfurece."
Seu peito apertou. Ela esperava raiva, talvez uma repreensão, mas a emoção crua em suas palavras a assustou. "E o que eu devo fazer a respeito?", perguntou ela, com a voz trêmula de frustração e medo.
“Não desafie o destino”, disse ele, aproximando-se, sua sombra projetando-se sobre ela enquanto a luz de velas de dentro se espalhava pelo chão de pedra. “Não se coloque onde eu não possa protegê-la. Não é uma brincadeira”.
Os olhos de Evelyne suavizaram por um instante, mas a rebeldia explodiu imediatamente em seguida. "E se for um jogo? Se eu escolher arriscar? Você precisa ficar aí parado como um sentinela silencioso, me observando como se eu já estivesse perdida?"
A mão de Azriel se contraiu ao seu lado, e seu maxilar se cerrou. "Você não consegue entender o que é ter uma vida construída inteiramente em torno da sua proteção. Você não vê os perigos que espreitam em cada sombra, em cada olhar desses nobres. Eu... não posso permitir isso."
O ar entre eles era denso, carregado de palavras não ditas e uma tensão que nenhum dos dois conseguia definir completamente. Os olhos de Evelyne brilhavam com frustração e algo mais suave, algo vulnerável. "E ainda assim", ela sussurrou, "você não vai sair do meu lado. Você é... constante, irritante e... necessário".
A expressão de Azriel permaneceu estoica, mas havia um lampejo de algo fugaz — arrependimento, saudade, talvez algo que ele não ousasse admitir. Ele deu um passo para trás, inclinando a cabeça. "Eu não sou... necessário da maneira que você deseja. Sou necessário para mantê-la viva. Só isso."
Evelyne se afastou, seus dedos roçando a pedra enquanto caminhava em direção ao salão. "Talvez isso seja o suficiente", murmurou, embora sua voz carregasse uma tensão que denunciava a tempestade que ainda se formava dentro dela.
Azriel permaneceu na alcova, silencioso e vigilante, seus olhos seguindo a figura dela enquanto se afastava. O dever o prendia, mas, pela primeira vez, ele sentia algo mais — uma atração perigosa e inconfessável que ele não conseguia nomear nem resistir. E enquanto os sons de risos e música invadiam os jardins vindos do salão, ambos sabiam que a dança entre o dever e o desejo estava apenas começando.
Os jardins do Castelo de Velaris ainda estavam envoltos no suave silêncio do crepúsculo, o ar fresco com o frio persistente do inverno. A neve agarrava-se às sebes em delicadas treliças, e os caminhos estavam lisos de geada, brilhando sob o pálido brilho das lanternas. Evelyne escapara da grandiosidade sufocante do banquete, encontrando refúgio entre os bancos de pedra e as estátuas que observavam silenciosamente os jardins. Ali, longe dos olhares de nobres e servos, ela podia respirar — ainda que apenas por alguns instantes.
Ela não estava sozinha.
“Evelyne”, disse a voz suave de seu irmão. Rhysand caminhava levemente pela trilha do jardim, sua capa roçando a neve. Sua presença era um bálsamo, um lembrete de que nem todos naquele castelo buscavam confiná-la. “Pensei que poderia encontrá-la aqui”.
Ela esboçou um pequeno sorriso, embora tingido de melancolia. "E por que eu estaria em outro lugar? O salão está lotado, quente e abafado. Você deveria estar lá, entre seus convidados."
Rhysand balançou a cabeça, com um sorriso gentil. "Eu consigo suportá-los melhor do que você. Você, irmãzinha, não deveria ter que aturar essa farsa. Eu queria te ver... para falar livremente."
O olhar de Evelyne se fixou no chão gelado. "Falar livremente, ou falar como deveria? Você sabe que meus pensamentos dificilmente são permitidos."
“Talvez”, disse ele, agachando-se ligeiramente para remover um pedaço de neve solto do caminho. “Mas você não precisa escondê-los de mim. Você nunca precisou”.
Seu peito aqueceu com as palavras dele, um tremor que ela tentou reprimir. "Você é gentil, Rhysand", disse ela suavemente, "muito mais gentil do que nosso pai".
Ele olhou para ela então, com os olhos firmes e cheios de compreensão. "Eu sei. E gostaria de poder protegê-la de tudo isso. Das expectativas, dos sussurros, das conversas sobre casamento que atormentam todas as princesas da nossa linhagem."
Os dedos de Evelyne se curvaram ao lado do corpo, inquietos. "É inevitável. Eu sou... uma peça no jogo, como sempre. Mas e você? Você tem alguma escolha na sua própria vida? Ouço sussurros, Rhysand, sobre uma mulher, sobre Feyre. Os rumores são verdadeiros?"
O maxilar de Rhysand se contraiu, uma mistura de orgulho e cautela em sua postura. "São", admitiu ele em voz baixa. "Mas você precisa entender... é impossível. Ela é de origem humilde. Nosso pai... jamais permitiria. Contudo..." Sua voz suavizou, quase melancólica. "Contudo, ela é tudo o que eu gostaria de poder escolher livremente. Cada momento com ela é roubado, mas precioso."
Evelyne sentiu uma pontada de inveja misturada com alívio. Seu irmão podia buscar o amor, ainda que de forma limitada; ela não podia. "E você pode... mesmo que por pouco tempo. Eu não tenho essa esperança", murmurou ela, sua respiração formando vapor no ar frio.
Rhysand aproximou-se, com uma expressão séria. "Não se desespere, Evelyne. Você é inteligente, corajosa... o coração da nossa família, de maneiras que talvez ainda não perceba. Você encontrará sua própria liberdade, mesmo que nosso pai não possa concedê-la. Mesmo que isso signifique desafiá-lo."
Os olhos dela encontraram os dele, a vulnerabilidade neles exposta. "E se eu falhar? Se eu ficar presa, como você teme, em alianças e correntes de ouro?"
Ele colocou uma mão firme no ombro dela. "Então lutarei por você, como sempre lutei. Você não está sozinha, Evelyne. Nunca está sozinha."
Um delicado floco de neve caiu sobre seus cabelos, e ela o afastou, percebendo o quanto se sentia aquecida por ele — não pelo fogo ou pelo salão, mas pelo cuidado inabalável do irmão. "Eu te invejo, Rhysand", sussurrou ela. "Ter conseguido até mesmo roubar alguns momentos de amor... Não consigo imaginar isso para mim".
O olhar de Rhysand suavizou-se. "Você vai. E quando o fizer, espero que escolha com o coração, não por obrigação. Prometa-me isso."
"Eu prometo", disse ela, com a voz trêmula, misturando esperança e tristeza.
Por um instante, permaneceram em silêncio, o vento sussurrando entre os galhos nus, a neve cintilando como pequenas estrelas sob as lanternas. O mundo parecia distante, e ainda assim o peso do castelo e suas regras os oprimia silenciosamente, lembrando Evelyne da realidade da qual ela ainda não conseguia escapar.
Finalmente, Rhysand falou novamente, mais baixo desta vez. "Tenha cuidado, irmãzinha. E se algum dia precisar de mim..." Sua mão permaneceu por um breve instante em seu ombro antes que ele se virasse para o corredor. "Estarei sempre por perto."
Evelyne o observou partir, sentindo a mistura de calor, inveja e saudade que sempre o acompanhava. Sozinha, permitiu-se um suspiro, sabendo que, neste mundo frio e dourado, momentos como aqueles eram tesouros raros — fugazes, preciosos e totalmente proibidos.