Sussurros na Pedra

1578 Words
Do lado de fora dos aposentos da Rainha, fazia mais frio do que nos cômodos iluminados pela lareira, mas mais calor do que nas torres congeladas. A neve pressionava as paredes externas, lançando uma luz cinzenta pelos corredores, e cada pedra parecia guardar uma lembrança de ordem, protocolo e dever inflexível. Os passos de Evelyne ecoavam suavemente enquanto ela se aproximava, as luvas apertadas em seus dedos, a mente já fervilhando de pensamentos que não conseguia verbalizar. Ela nutriu, por um breve momento, a esperança de que uma manhã na biblioteca ou uma caminhada solitária pelos corredores vazios lhe concedessem alguma liberdade, uma pausa nas pressões implacáveis ​​de sua posição. Mas, ao virar a esquina e entrar no apartamento de sua mãe, o calor do cômodo pareceu quase sufocante, e suas esperanças se dissiparam. Quando entrou, a Rainha Isolda estava sentada à sua escrivaninha, serena e composta, os cabelos negros presos em uma trança apertada, a postura impecável, o vestido forrado de pele que usava uma cascata de branco e prata. A luz da lareira dançava sobre seus traços marcantes, realçando a perfeição que cultivava em cada movimento, em cada olhar. Ela ergueu os olhos quando Evelyne entrou, os olhos se estreitando com uma mistura de avaliação e cálculo que ela aprendera a temer. “Evelyne”, disse sua mãe, com a voz suave, quase gélida, mas carregando um peso que exigia atenção. “Você está atrasada.” “Eu... eu estava caminhando”, respondeu Evelyne, com a voz hesitante. “Eu pensei—” “Você pensou”, interrompeu Isolda, colocando um dedo fino no braço da cadeira, “que o castelo esperaria pelos seus caprichos? Que os cortesãos e os nobres não notariam sua ausência?” Ela deixou as palavras pairarem no ar, cada sílaba deliberada, como se esculpisse a pedra fria da própria sala. O estômago de Evelyne revirou. Ela sabia que essa conversa aconteceria. Todos os dias ela se lembrava de que sua vida não lhe pertencia, e cada lembrete era mais doloroso que o anterior. "Mãe, eu só queria tomar um pouco de ar", disse ela baixinho. Isolda se levantou, deslizando pelo cômodo com a graça de uma predadora, parando diante da filha. "Ar", repetiu, a voz agora mais baixa, quase um sussurro. "Filha", disse então sem rodeios, a voz firme, mas carregando um peso inconfundível. "Se o ar já foi conquistado, precisamos falar do seu futuro." Evelyne curvou a cabeça brevemente, tentando evocar a obediência habitual que tão bem lhe servira no passado. "Estou ouvindo, mãe", respondeu, forçando a polidez na voz, embora seu estômago se revirasse com a irritação familiar. Os olhos de Isolda eram penetrantes e avaliadores, como se ela pudesse ler os pensamentos de Evelyne antes mesmo que fossem expressos em palavras. “É hora de você entender o peso da sua posição. Você é uma princesa de Velaris. Suas ações, suas escolhas, suas palavras… nunca são apenas suas. Em breve, você terá que se casar.” O coração de Evelyne palpitou, tomado por uma mistura de frustração e pavor. "Eu sei", disse ela baixinho, lutando contra a vontade de revirar os olhos. "Eu sempre soube". A Rainha se levantou, movendo-se com a graça de uma mulher que passou a vida atraindo olhares. "Compreender não basta", disse ela. "Vocês precisam aceitar. Precisam agir com sabedoria e cautela. Os olhos do reino, da corte, da sua família... estão sempre sobre vocês." Os dedos de Evelyne percorreram a borda da mesa. "E se eu não quiser o que se espera de mim?", perguntou ela, a voz quase num sussurro. O olhar da mãe vacilou, e por um instante, Evelyne pensou ter visto algo sob a fria aparência — talvez um traço de compaixão. Mas desapareceu quase tão rápido quanto apareceu. “Você não desejará nada”, disse Isolda com firmeza. “Você obedecerá. Não confunda bondade com fraqueza. O Rei está… doente. O reino nos observa, e cada decisão, cada passo em falso, recairá sobre seus ombros como se fossem seus próprios pecados.” O peito de Evelyne apertou ao ouvir o nome do pai. Ela sabia que ele não estava bem, mais do que qualquer um deixava transparecer, e a ideia de seu declínio a aterrorizava — não apenas por ele, mas pelo futuro que a aguardava após sua partida. "Eu... eu entendo", murmurou ela, embora sentisse como se seu coração estivesse se partindo contra as paredes do castelo. Ela se aproximou, deixando seus olhos captarem o canto da porta da cozinha. Duas criadas trocaram olhares, falando em tons apressados ​​e nervosos. Evelyne se esforçou para ouvir, embora cada palavra parecesse perigosa, como se as próprias paredes pudessem denunciá-la por estar bisbilhotando. “…ele está dormindo mais… fazendo menos refeições… a Rainha está preocupada… mas não pode falar abertamente…” “…espera-se que o Príncipe retorne em breve… estará ele preparado caso algo aconteça?” As palavras a atingiram como água gelada. Seu peito apertou. Rhysand voltaria, sim, mas ela só o vira em cartas fugazes e visitas raras durante seu treinamento. E seu pai… seu pai, o Rei, sua imponente figura de autoridade… a fragilidade em seu corpo significava fragilidade no próprio reino. Ela estremeceu, não de frio, mas do medo que lhe corroía o peito. Ela recuou, retirando-se silenciosamente para seus aposentos. O calor da lareira era um pequeno consolo, mas seus pensamentos fervilhavam. Seriam os criados exagerados? Ou teriam presenciado verdades perigosas demais para serem ditas abertamente? Evelyne sempre pressentira que o castelo era um lugar onde a verdade era medida e filtrada, onde apenas as palavras mais seguras eram proferidas em voz alta. Contudo, a preocupação em suas vozes, o cuidado com que sussurravam, denunciava o que não ousavam dizer ao próprio Rei. Ela caminhou até a janela, contemplando os pátios cobertos de neve lá embaixo. A vila além estava pontilhada de fumaça subindo das chaminés, com aldeões se movendo pela paisagem branca em mantos forrados de pele. A vida continuava fora dos muros do castelo, indiferente às sutis mudanças de poder em seu interior. Contudo, para Evelyne, o mundo dentro daquelas torres de pedra era tudo o que ela conhecia, e agora parecia ainda menor, mais precário, mais frágil. Uma batida na porta a despertou de seus pensamentos. "Princesa Evelyne?" A voz era hesitante, pertencente a uma das criadas mais jovens que a serviam diariamente. "Sim", respondeu Evelyne baixinho, com a mente ainda a mil. “Seu café da manhã, milady… e… alguns criados estavam preocupados que a senhora pudesse estar sozinha esta manhã”, disse a criada, colocando uma bandeja na pequena mesa perto da lareira. Seus olhos se voltaram para Evelyne com preocupação, palavras não ditas pairando entre elas. "Obrigada", murmurou Evelyne, mas seu apetite havia desaparecido. Ela m*l tocou no pão e no caldo quente, seus pensamentos voltando-se novamente para o pai. As palavras dos criados haviam plantado uma semente de inquietação da qual ela não conseguia se livrar. Ela vagava por seus aposentos, seus dedos roçando as tapeçarias que retratavam a história de Velaris: reis e rainhas, batalhas vencidas e perdidas, alianças forjadas e desfeitas. O peso do legado a oprimia mais do que nunca. Um dia, ela se casaria, um dia seria esperado que ela agisse com a mesma autoridade serena, a mesma mente estratégica, a mesma resolução implacável. E, no entanto, mesmo se imaginando nesse papel, ela se sentia despreparada, com medo, limitada. A porta rangeu levemente e uma sombra se projetou sobre o cômodo. Evelyne se virou, esperando encontrar um criado, mas o quarto estava vazio. Talvez fosse o vento, ou seu próprio nervosismo. Mas o pensamento persistiu: o castelo parecia vivo de maneiras que eram ao mesmo tempo protetoras e ameaçadoras, cada sombra uma potencial mensageira de segredos. Ela caminhava de um lado para o outro, sua mente voltando às palavras de sua mãe naquele mesmo dia: o dever acima de tudo. Contudo, Evelyne agora percebia que o dever estava entrelaçado com o medo, com a cautela, com os cálculos constantes e silenciosos da sobrevivência. A doença de seu pai, sussurrada pelos criados, mas nunca confirmada, tornava cada lição, cada advertência, cada exigência de sua mãe mais pesada, mais urgente. O olhar de Evelyne vagou até o horizonte, onde a luz cinzenta do inverno encontrava a silhueta escura da floresta além. Ela queria correr. Queria se sentir livre na neve, escapar das paredes que a aprisionavam e das responsabilidades que ainda não conseguia cumprir. Queria liberdade, mas sabia que ela poderia ser tão perigosa quanto sedutora. Além dos portões do castelo, o mundo era imprevisível, selvagem e possivelmente letal — mas a ideia de permanecer confinada, presa entre a pedra e o dever, era igualmente sufocante. Seus dedos demoraram-se no parapeito da janela, frios e ásperos sob seu toque. Ela pensou novamente nos sussurros dos criados, na fragilidade de seu pai, na orientação cautelosa de sua mãe. Cada pensamento a aproximava da verdade que ela ainda não conseguia encarar abertamente: que o mundo que conhecera, a vida segura e ordenada dentro dos muros de Velaris, poderia estar mudando, se desfazendo mesmo enquanto a neve caía silenciosamente lá fora. E naquela manhã silenciosa e gélida, Evelyne tomou uma decisão, embora ainda não soubesse que forma ela tomaria. Ela observaria, escutaria e aprenderia. Ela se prepararia — não apenas para os deveres de uma princesa, mas também para os perigos, os medos e os segredos que inevitavelmente moldariam seu futuro.
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