Observador na Escuridão

1432 Words
A manhã invadiu Velaris como um convidado tímido, pálida e lenta, a luz roçando a geada que se agarrava às paredes de pedra do castelo. Evelyne despertou com o crepitar da lareira e o murmúrio abafado dos criados cuidando do fogo. Seu quarto estava impregnado com o aroma de cedro e lavanda queimando, o ar frio ainda lhe cortando os dedos apesar do calor das peles em volta dos ombros. Ela se levantou e foi até a janela, contemplando o pátio lá embaixo. O mundo lá fora estava silencioso, o chão coberto de branco. Além das ameias, a floresta se estendia escura e infinita, uma coroa n***a contra a manhã prateada. Era belo e sufocante. O castelo estava vivo novamente. Desde o retorno do irmão, uma nova energia permeava suas paredes – criados se apressando como se o próprio ar exigisse velocidade, vozes ecoando pelos corredores que há muito estavam silenciosos demais. Evelyne observava de sua janela alta os soldados se reunirem no pátio de treinamento, suas espadas captando reflexos de luz enquanto se moviam. A risada do irmão se elevava acima do clamor, rica e fácil, e ela sorriu levemente, apesar de si mesma. Então ela o viu. Ele estava afastado dos outros, meio na sombra de um arco. O sol da manhã tocava a linha nítida de seu queixo, e a cicatriz pálida que cortava a barba por fazer captava a luz. Ele não estava lutando, não estava rindo, não estava se movendo. Ele simplesmente observava. Os outros o olhavam de vez em quando, com uma espécie de respeito silencioso tingido de inquietação. Azriel. Esse era o nome que ela ouvira murmurado entre os guardas. Sir Azriel de Rosehall, o homem de seu irmão. Algo nele a incomodava. Talvez fosse sua imobilidade – tão diferente dos cavaleiros afetados que preenchiam seus dias com tagarelice e presunção. Ele tinha um silêncio que não provinha da timidez, mas do cálculo. Ela dizia a si mesma que só se demorava na janela porque a curiosidade era inofensiva. Contudo, quando o olhar dele se ergueu de repente e encontrou o dela do outro lado do pátio, Evelyne se assustou, recuando como se tivesse sido flagrada em algum ato proibido. Ouviu-se uma batida na porta do seu quarto, suave, mas insistente. “Vossa Alteza”, disse a voz de sua dama de companhia. “A Rainha solicita sua presença”. Claro que sim. Evelyne suspirou, pressionando as palmas das mãos contra as saias antes de responder: "Diga a Sua Majestade que já chego". Sua mãe nunca esperava bem. A sala de audiências era quente e aconchegante, o fogo ardia alto na lareira e o ar estava impregnado com o aroma de mirra e rosas. A rainha Isolda estava sentada junto à alta janela, sua postura impecável, cada centímetro de seu vestido perfeitamente alinhado. Não havia suavidade em sua beleza – apenas precisão, como vidro. Evelyne fez uma reverência. "A senhora me chamou, mãe." Os olhos da Rainha – frios, cinza-aço – m*l se voltaram para ela. “Sente-se, Evelyne. Há um assunto que precisa ser tratado.” Evelyne obedeceu, sentando-se graciosamente em frente à mãe, embora cada parte de seu corpo se retesasse com o tom de voz. Isolda falava como uma mulher prestes a proferir uma sentença. “Chegou ao meu conhecimento”, começou a Rainha, “que você tem se dedicado a vagar sem rumo”. “Eu passeio pelos jardins”, disse Evelyne rapidamente. “E pelo pátio, às vezes –” “A cidade”, interrompeu Isolda, com a voz suave como mármore polido. “Os mercados inferiores. A estrada à beira do rio. Você é muito visível, muito confiante”. A garganta de Evelyne se apertou. "Eu não sou descuidada, mãe. Eu –" “Ser descuidada não é o mesmo que ser tola”, disse a Rainha friamente. “Você se esquece de que não é mais uma criança que escapa do olhar da ama. Você é uma princesa de Velaris. E a posição da nossa família não é mais a mesma.” Evelyne franziu a testa. "Por causa do papai –" Ela se interrompeu, mas a expressão de sua mãe oscilou mesmo assim. A mão de Isolda parou no apoio de braço. "Porque seu pai não deve ser visto como fraco", disse ela. "O que significa que você não deve ser vista como vulnerável". Suas palavras eram um aviso disfarçado de razão, e Evelyne sabia que era melhor não discutir. “Você terá uma nova guarda”, disse a Rainha por fim, “escolhida por seu irmão”. Evelyne piscou. "Um novo guarda, por quê? Eu já tenho proteção." “Ele estará com vocês”, disse a Rainha, num tom que não admitia recusa. “O Rei insiste nisso”. Antes que Evelyne pudesse responder, a porta se abriu. E ele entrou. O homem do pátio. Azriel. Ele fez uma reverência profunda, seus movimentos controlados, deliberados. "Vossa Majestade". “Sir Azriel de Rosehall”, disse a Rainha, olhando para ele com uma aprovação fria. “Entendo que o Príncipe já tenha discutido isso com você, mas para que fique claro, você servirá como protetor da minha filha. Ela não irá a lugar nenhum sem você.” Azriel ergueu a cabeça. Seu olhar encontrou o de Evelyne, e ela sentiu novamente aquela estranha e perturbadora firmeza – como se ele visse tudo o que ela estava tentando esconder. “Você aceita essa missão?”, perguntou Isolda. "Sim", disse ele simplesmente. Sua voz era grave, firme, com um leve tom áspero, típico de um homem acostumado a comandar. “Então vá”, disse a Rainha. “E veja se ela não se atrasa para o jantar novamente”. Evelyne mordeu a parte interna da bochecha para conter a resposta. Levantou-se, acenou brevemente com a cabeça e virou-se bruscamente em direção à porta. Azriel a seguiu a uma distância respeitosa, suas botas silenciosas sobre a pedra. Caminharam pelo corredor em silêncio, o ar carregado de uma irritação não expressa. Os passos de Evelyne aceleraram, mas ela ainda o ouvia atrás dela – firme, calculado, implacável. Finalmente, ela parou, virando-se para encará-lo, queixo erguido. “Não precisa andar tão perto”, disse ela, com voz calma. “Sou perfeitamente capaz de andar sem tropeçar em nada.” Azriel olhou para ela, impassível. "Minhas ordens são para protegê-la, Princesa. Não para confiar na sua palavra quanto à sua segurança." Ela ficou boquiaberta: "Você fala com ousadia em nome de alguém que serve à Coroa". “Falo sem rodeios”, respondeu ele. “Ousadia seria questionar minhas ordens. Eu apenas as cumpro”. Evelyne m*l podia acreditar no tom dele. Ele não era insolente, mas também não demonstrava medo. "Vejo que a companhia do meu irmão incutiu arrogância em seus cavaleiros", disse ela bruscamente. Por um instante, algo brilhou em sua expressão – talvez divertimento –, mas desapareceu antes que ela pudesse identificar o que era. Ele fez uma leve reverência. "A arrogância é uma péssima defesa, Alteza. Prefiro a cautela." E com isso, ele deu um passo para trás, esperando que ela continuasse sua caminhada. Evelyne deu meia-volta, resmungando baixinho enquanto se afastava. O homem era insuportável. Impossível. Completamente convencido demais. E, no entanto, durante o resto do dia, ela não conseguiu se livrar da estranha sensação de estar perto dele. Ele estava sempre lá – a uma distância respeitosa, mas nunca inalcançável. Na biblioteca, ela o viu parado à porta. Nos jardins, ele permanecia a uma distância suficiente para não incomodar, mas ela sabia que seus olhos a seguiam a cada passo. Ele não dizia nada, não pedia nada, não esperava nada. Ao anoitecer, sua irritação havia se transformado em algo que ela se recusava a nomear. Ao cair da noite, ela sentou-se novamente junto à janela, o mundo lá fora prateado pelo luar. Lá embaixo, o pátio permanecia silencioso, exceto por algumas tochas acesas junto aos portões. Então, pelo canto do olho, ela o viu novamente – movendo-se ao longo do muro, a luz de sua tocha oscilando como uma estrela dourada na escuridão. Mesmo de longe, ela reconheceu seu passo. Calmo. Observador. Solitário. Ela dizia a si mesma que era reconfortante saber que alguém tão capaz a protegia. No entanto, à medida que as horas passavam e ela se via incapaz de desviar o olhar daquela luz constante, Evelyne percebeu algo que não admitiria nem para si mesma. Não foi conforto que ela sentiu. Era algo muito mais perigoso.
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