Festa de Veludo e Aço

2465 Words
O grande salão de Velaris brilhava como uma estrela cadente, velas e tochas lançando uma névoa dourada sobre cada superfície polida. Longas mesas de carvalho rangiam sob o peso de carnes assadas, tortas fumegantes e cálices de cristal com vinho temperado. Risadas ecoavam entre os nobres, ricos e despreocupados, enquanto damas em vestidos de seda cochichavam, olhares inquietos, leques tremulando em um desdém discreto. O calor do salão não conseguia alcançar a dor gélida que se instalara no fundo de seu peito. Evelyne sentou-se à mesa principal, com a postura impecável, o sorriso sereno e a mente a quilômetros de distância. O peso de sua coroa parecia ainda maior naquela noite — um delicado círculo de ouro que a marcava não como livre, mas como propriedade de alguém. Seu pai estava sentado à cabeceira da mesa, os olhos fundos, mas ardendo de orgulho enquanto os cortesãos brindavam ao retorno de seu filho. A doença do Rei Edric estava se tornando cada vez mais difícil de disfarçar — as rugas profundas marcadas em seu rosto, a palidez sob a barba —, mas sua voz ressoava como um trovão. “Ao meu filho, Príncipe Herdeiro Rhysand de Velaris — o orgulho do nosso reino e a espada da nossa linhagem!” O salão irrompeu em aplausos, com taças erguidas em alto e bom som. Rhysand se levantou para cumprimentá-los, alto e corpulento, o rosto iluminado pelo charme natural de um homem que inspirava lealdade com a mesma facilidade com que respirava. Ele tinha os mesmos cabelos escuros da irmã, embora seus olhos, como os do pai, ardessem com algo mais intenso — uma perigosa mistura de ambição e proteção. E ao lado dele, sempre uma sombra, estava Sir Azriel. O olhar de Evelyne o encontrou antes mesmo que ela percebesse. Ele vestia-se de preto e prata, uma roupa simples em comparação com a ostentação ao seu redor, mas as cicatrizes em seu queixo captavam a luz das velas, brilhando como tênues linhas de aço. Permanecia em posição de sentido a poucos passos atrás do Príncipe — nem convidado, nem servo, mas algo entre os dois. Ele observava a multidão, atento e distante. Sua expressão não demonstrava nada, embora Evelyne achasse ter percebido um leve desconforto quando uma das damas da nobreza sussurrou algo por trás do leque, lançando olhares furtivos em sua direção. “Uma criatura impressionante, não é?” murmurou a voz da mãe, interrompendo o devaneio de Evelyne. O tom da rainha Isolda era baixo, sereno, mas cortante. “O soldado que salvou a vida do seu irmão. Uma pena que as cicatrizes não desapareçam com a patente.” Evelyne engoliu a resposta, forçando uma expressão de indiferença educada. "Ele parece leal, pelo menos", murmurou ela. Os lábios da mãe se curvaram num gesto que não chegava a ser um sorriso. "Lealdade, minha querida, pode ser tanto uma bênção quanto uma corrente. Lembre-se disso." A música aumentou de volume quando os criados entraram com bandejas de carne de veado e vinho temperado. Cortesãos se levantaram para dançar, o farfalhar da seda como sussurros. Rhysand logo se viu cercado por nobres disputando sua atenção — lordes louvando suas vitórias, damas esvoaçando como mariposas atraídas por sua luz. De repente, o lugar onde Evelyne estava pareceu pequeno, claustrofóbico. A presença do pai era palpável, a voz da mãe, uma constante dose de expectativa. Ela ergueu a taça, mas achou o gosto do vinho amargo. Do outro lado da sala, Sir Azriel se moveu. Não em direção a ela — nem mesmo em sua direção — mas os olhos dela o seguiram mesmo assim. Ele estava verificando as saídas, o olhar avaliando, controlado. Parecia mais um lobo enjaulado entre cães de caça do que um cavaleiro entre nobres. Cassian — amigo de longa data e protetor jurado de Rhysand — apareceu ao lado de Azriel, rindo com facilidade enquanto lhe entregava um cálice. O contraste entre eles impressionou Evelyne. Cassian era calor e sagacidade, seu sorriso fácil desarmante. Azriel, em comparação, era esculpido em silêncio. “Seu irmão se sente à vontade entre seus homens”, disse Isolda, interrompendo mais uma vez os pensamentos de Evelyne com sua voz. “Você faria bem em aprender a mesma desenvoltura entre seus pretendentes”. Evelyne virou-se, assustada. "Meus pretendentes?" A Rainha não lhe lançou um olhar. "Há várias casas nobres presentes esta noite, cujas alianças podem beneficiar Velaris. Seria bom que você sorrisse, criança. Não lhe custa nada." Evelyne conteve um riso amargo. Custa tudo, queria dizer. Seu coração, sua liberdade, sua identidade. Mas apenas assentiu, encarando o copo de vinho como se ele pudesse revelar alguma fuga secreta. Mais tarde, quando o salão começou a se encher de risos embriagados e luzes bruxuleantes, Rhysand aproximou-se da mesa principal, com um sorriso preguiçoso e despreocupado. "Irmã", cumprimentou-a calorosamente, inclinando-se para beijar sua testa. "É bom estar em casa". Evelyne sorriu, um sorriso genuíno pela primeira vez. "É bom ter você de volta, irmão." Atrás dele, Cassian e Azriel permaneceram em silêncio. O sorriso de Cassian era fácil, seu olhar brilhava com familiaridade — mas os olhos de Azriel encontraram os dela por um instante a mais do que o necessário. Não era afeto. Não era admiração. Era… avaliação. E isso, de alguma forma, ardia mais intensamente do que qualquer olhar de desejo poderia. Quando finalmente desviou o olhar, sentiu o fantasma daquilo pairando em sua pele, como se o olhar dele a tivesse marcado de alguma forma. O Rei pediu música novamente, e a primeira dança começou. Rhysand tomou seu lugar ao lado da Rainha, como manda o costume, enquanto nobres e damas formavam pares ao redor deles. Evelyne recusou seu primeiro convite para dançar. E o segundo. Na terceira, começaram os sussurros — aqueles que se espalham pelo ar como fumaça. "Ela vai precisar aprender a desempenhar o seu papel em breve", murmurou uma senhora por trás de seu leque. Evelyne deu um sorriso discreto. "Talvez eu esteja simplesmente à espera de um parceiro melhor." Seu olhar desviou-se — contra a sua vontade — para a extremidade sombreada do corredor, onde Azriel estava de pé, de braços cruzados, observando. E embora ela dissesse a si mesma que era a raiva que fazia seu coração palpitar — raiva de que aquele cavaleiro silencioso e de origem humilde se achasse acima da conversa, acima da cortesia — ela não conseguia se convencer completamente disso. Quando o Rei se levantou para brindar à sua saúde, o salão pareceu encolher ao redor de Evelyne. Risadas soavam ocas em seus ouvidos, cálices de prata tilintavam com uma alegria vazia, e cada superfície polida refletia a prisão dourada na qual ela nascera. Ela tentou se concentrar na comida, na conversa, em qualquer coisa que não fosse a sombra sempre presente na periferia de sua visão. Azriel permaneceu ali, um sentinela constante. Ele não se movia a menos que a situação exigisse, e ainda assim ela podia sentir sua atenção como um peso pressionando levemente suas costas. Ela se sentia exposta, vulnerável e furiosa consigo mesma por se importar. Evelyne deixou seu olhar percorrer o salão, fingindo interesse pelos nobres ao seu redor. Seu olhar pousou brevemente em um jovem lorde, alto e bonito, cuja atenção evidentemente se voltara para ela. Ele fez uma reverência, um sorriso que parecia ensaiado e excessivamente polido, e ela sentiu um lampejo de divertimento. Por um instante, permitiu-se uma pequena indulgência: retribuiu o sorriso, educado, comedido, correto — a princesa perfeita. Quase imediatamente, ela percebeu: o olhar de Azriel. Duro, preciso, impossível de ignorar. Ela se enrijeceu, forçando-se a terminar a conversa educada com o jovem lorde, mas suas palavras saíram mais ásperas do que pretendia. O sorriso do nobre vacilou, por pouco, como se ele também tivesse notado a tensão que emanava do cavaleiro silencioso do outro lado da sala. Um rubor de satisfação subiu ao peito de Evelyne. Então ele percebeu. Ótimo. Deixe-o ver. Ela deixou sua risada ecoar pelo corredor, mais alta do que o necessário, suas saias farfalhando enquanto se movia com uma graça cuidadosa. Sentiu os olhos de Azriel a seguirem, uma consciência quente e insistente pressionando a nuca. Tentou não pensar nisso, tentou se concentrar nos sussurros e nas intrigas políticas ao seu redor, mas sua atenção sempre voltava. A voz do pai dela ecoou acima do murmúrio do salão. "Um brinde!", declarou ele, erguendo o cálice. "A Velaris, à lealdade, à força e à ordem desta família." O estômago de Evelyne se contraiu. Lealdade. Força. Ordem. Palavras que lhe disseram para incorporar desde que aprendeu a andar. E, no entanto, ela não sentia nenhuma delas. Sentia-se enjaulada e, de forma exasperante, consciente de que alguém a observava a cada movimento. Enquanto os convidados bebiam, ela notou Azriel se mover sutilmente, aproximando-se da periferia do salão, sem nunca desviar o olhar dela. Ele não deu um passo à frente, não se intrometeu, e ainda assim ela sentiu uma atração magnética entre eles, algo que nenhum dos dois ousaria nomear. Seu pulso acelerou com irritação, constrangimento e… algo perigosamente parecido com expectativa. O baile se arrastava, a música aumentando de volume, criados deslizando com bandejas de sobremesas e vinho. Evelyne se viu transitando de uma conversa para outra, permanecendo deliberadamente perto do campo de visão de Azriel, testando-o. Sua expressão permanecia indecifrável, embora ela tenha captado um leve franzir de testa. Aquele pequeno movimento, quase imperceptível, fez seu peito apertar de frustração e um calor que ela não conseguia nomear. Quando a última das sobremesas foi retirada e as risadas se transformaram em murmúrios educados, Evelyne finalmente se desculpou. Ela não suportava mais aquela gaiola dourada. Saiu do salão, suas saias farfalhando suavemente, e adentrou os corredores mais tranquilos do castelo. Os jardins do castelo estavam silenciosos, o frio do inverno transformando cada respiração em uma nuvem de névoa que pairava no ar como um segredo. Evelyne caminhava lentamente pelos caminhos cobertos de geada, suas saias sussurrando contra a pedra congelada. Ela precisava de espaço, ar e um alívio do peso sufocante do castelo. O calor do salão era sufocante, e as risadas e conversas, vazias. A visão de seu pai, o rosto abatido e pálido à luz de velas, apertara ainda mais o nó de inquietação em seu peito. Ela ansiava por liberdade, pela possibilidade de se mover sem ser vista, de respirar sem a obrigação que a oprimia como uma pedra. Ao contornar uma sebe, um movimento fugaz chamou sua atenção. Ela congelou instintivamente, pressionando-se contra a pedra fria e úmida do muro do jardim. Duas figuras estavam perto da fonte no centro do jardim, o luar brilhando na água e iluminando seus rostos. Rhysand. E uma jovem que ela não conhecia. O coração de Evelyne deu um salto quase doloroso. Ela vira Feyre rapidamente pelos corredores, sempre educada, sempre quieta, nunca falando sem ser convidada. Mas ali, no jardim iluminado pelo luar, Feyre parecia transformada. Ela riu baixinho de algo que Rhysand sussurrara, uma risada que tilintava como o vento entre folhas prateadas. O peito de Evelyne apertou, um nó de ciúme e saudade se formando em seu estômago. Ela nunca soubera que seu irmão se importava com alguém, mas ver isso agora, tão íntimo, tão real, era quase insuportável. Ela deu um passo cauteloso para mais perto, querendo – precisando – ver, embora sua mente gritasse para que se afastasse. A mão de Rhysand roçou na de Feyre, um gesto fugaz, mas íntimo, e o pulso de Evelyne acelerou. Ela sabia do risco de ser vista, das consequências de ouvir um momento tão privado, mas não conseguia desviar o olhar. “…Eu daria um jeito, Feyre, se fosse possível…” A voz de Rhysand era quase um sussurro, mas as palavras a atingiram como um golpe. Feyre balançou a cabeça, o olhar firme e suave. "Eu sei, meu príncipe. Mas devemos aceitar o que não pode ser mudado." O estômago de Evelyne revirou. Ela conhecia muito bem a c***l tirania do dever. Sua própria vida era ditada por expectativas que ela nunca havia pedido, escolhas feitas em seu nome, liberdades negadas. E ali estava seu irmão, ousando ter esperança, ousando amar, apesar das restrições que lhe eram impostas. Uma parte dela o admirava; outra parte fervilhava de inveja. Um farfalhar atrás dela a fez congelar. Sua respiração ficou presa na garganta, o coração disparado. Por um momento aterrador, ela imaginou Azriel saindo das sombras, seus olhos escuros se estreitando em reprovação. Mas era apenas o vento, espalhando geada pelos caminhos do jardim. Ela se permitiu um pequeno suspiro trêmulo, pressionando a mão contra o peito enquanto observava. Rhysand estendeu a mão para Feyre novamente, seu polegar roçando o dela, e o peito de Evelyne se apertou. Ela queria sentir aquela liberdade, aquela coragem, aquela i********e por si mesma. Queria ser a ousada, a que escolhia, a que via e era vista sem consequências. Em vez disso, permaneceu escondida, silenciosa e dolorosamente consciente de seu próprio confinamento. Um galho estalou sob seu calcanhar, e Evelyne congelou, rezando para que o barulho tivesse passado despercebido. A cabeça de Rhysand virou-se bruscamente, e ela prendeu a respiração, desejando não ser vista. Feyre apertou a mão dele, acalmando-o, e o momento passou, deixando o estômago de Evelyne embrulhado de tensão. Os dois começaram a voltar para o castelo, de mãos dadas. Os lábios de Evelyne se entreabriram, um arrepio de saudade e inveja percorrendo seu corpo. Ela permaneceu entre as sebes, seguindo-os à distância, saboreando os vislumbres furtivos de uma vida que ela jamais poderia reivindicar. Seus pensamentos se voltaram para dentro, girando em meio ao desejo e à frustração. Ela invejava a coragem do irmão, sua capacidade de buscar até mesmo um breve momento de escolha, enquanto seu próprio caminho era inteiramente ditado pelos caprichos do dever. Ela ansiava que o jardim fosse seu refúgio, um lugar onde pudesse respirar livremente, mas mesmo ali, o mundo invadia, lembrando-a de que sua vida era uma gaiola dourada. Enquanto caminhava pelos caminhos sinuosos de volta aos seus aposentos, com a geada rangendo suavemente sob suas botas, Evelyne permitiu-se um raro sorriso, agridoce. Talvez um dia ela encontrasse uma maneira de ir além das paredes douradas, além do peso da expectativa e dos limites de seu título. Talvez um dia ela construísse uma vida que fosse inteiramente sua. Mas, por ora, ela pressionou a mão contra o portão do jardim, demorando-se no ar frio da noite, e observou o luar se dissipar sobre a geada. O castelo se erguia atrás dela, silencioso e imponente, uma lembrança de tudo o que ela ainda não podia tocar. E, no entanto, na quietude do jardim, Evelyne sentiu algo se agitar dentro de si — uma pequena faísca desafiadora que sussurrava que ela não permaneceria presa para sempre.
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