Ruas da Tentação

1678 Words
O ar no castelo de Velaris estava tão viciado como sempre, denso com o cheiro de pedra úmida e fumaça da lareira. A princesa Evelyne pressionou a bochecha contra o vidro frio da janela de seus aposentos, o olhar vagando pelos campos além dos muros, onde uma névoa de geada ainda se agarrava à grama. Em algum lugar além daqueles portões, a vida fervilhava com ruído, liberdade e cor, enquanto ali ela permanecia sentada em mais um dia de bordados e reverências calculadas. Mais um dia de espera, mais um dia sendo observada, de palavras medidas e postura cuidadosa. Nem mesmo a voz suave de sua mãe nos corredores conseguia acalmar a energia inquieta que fervilhava em seu peito. Ela estava cansada dos mesmos corredores, das mesmas tapeçarias, dos mesmos salões dourados. O castelo, apesar de toda a sua beleza, parecia uma gaiola. Seus dedos deslizavam pela barra da camisola enquanto ela refletia sobre o dia que se iniciava. Normalmente, aulas ou bordados ocupariam suas horas, mas hoje ela ansiava por algo mais do que instrução. Precisava de ar, movimento e algo além da sombra ameaçadora do pai. Sua criada tagarelava sobre sedas e pontos de costura, mas os ouvidos de Evelyne se aguçaram quando duas das moças mais jovens da corte, encolhidas num canto, riram baixinho sobre uma escapadinha para o mercado. O pulso de Evelyne acelerou. Ela se virou bruscamente. “Aonde você vai?”, ela perguntou. As garotas pararam abruptamente e trocaram olhares culpados. Uma delas sussurrou: "Para a cidade. Só por uma hora". “O mercado!” acrescentou a outra menina. “Tem uma barraca nova do norte, e o padeiro promete pãezinhos frescos. Você não vai contar pra ninguém, vai?” Evelyne hesitou. Os mercados eram barulhentos, lotados e pouco elegantes – mas o fascínio da liberdade, a oportunidade de escapar dos olhares vigilantes do castelo, falou mais alto. Evelyne levantou-se da cadeira, o bordado caindo no esquecimento. “Muito bem, você me levará com você”, disse ela baixinho, olhando ao redor do quarto para se certificar de que não estava sendo observada. “Mas precisamos ter cuidado. Ninguém pode nos ver”. Eles ficaram boquiabertos. "Vossa Alteza, isso não é apropriado –" "Certo?" Evelyne ergueu o queixo, seu tom cortante com a autoridade que demonstrava quando lhe convinha. "Sou prisioneira no castelo do meu pai? Se eu quiser andar entre o meu povo, assim será." As garotas cederam rapidamente, como Evelyne sabia que aconteceria. Em meia hora, capas foram drapeadas sobre os vestidos, capuzes abaixados, e três jovens mulheres passaram por um portão de serviço, rindo nervosamente enquanto corriam pelo caminho em direção à cidade. Enquanto corriam, o castelo se erguia atrás dela, suas torres contrastando fortemente com o céu cinzento, mas cada passo pelas ruas era como respirar pela primeira vez em meses. O mercado atingiu Evelyne como uma tempestade. O ar fervilhava de ruídos — vendedores gritando, martelos batendo, porcos guinchando nos currais. O ar cheirava a castanhas assadas, lã molhada, lama, fumaça e suor. O coração de Evelyne palpitava com tudo aquilo. Pela primeira vez, nenhum olhar a seguiu por causa de sua coroa. Ela era apenas mais uma figura encapuzada em meio à multidão. Ela corria de barraca em barraca, os dedos roçando fitas brilhantes, peras douradas, novelos de lã tingidos de vermelho como sangue. Ela mordeu um pedaço de pão que um vendedor lhe ofereceu, a casca quente estalando sob seus dentes. Por um instante, sentiu-se como uma menina, não como uma princesa. Livre. Mas seu sorriso vacilou quando seus ouvidos captaram as palavras de dois agricultores parados ao lado de uma carroça de nabos. “Mais um imposto este mês. Edric está nos explorando até a última gota.” Sim”, disse o outro, sombriamente. “E quando ele morrer, o filho não estará em melhor situação. Uma coroa é uma coroa”. O estômago de Evelyne se contraiu. Ela se virou, puxando o capuz para baixo. O nome do pai, cuspido como uma maldição, a seguiu de volta para o barulho da multidão. As damas da corte a arrastaram para a banca de um joalheiro, zombando dela sobre qual pretendente lhe compraria o colar mais brilhante. Evelyne tentou rir com elas, embora as palavras a magoassem. Ela não tinha permissão nem para escolher uma joia para si mesma, quanto mais um marido. E foi nesse momento que uma mão agarrou seu pulso. “Que capa bonita”, murmurou um homem. Ele tinha ombros largos, barba desgrenhada e olhos vermelhos de tanto beber. “Mais bonita que a maioria por aqui. O que você está escondendo debaixo dela, hein?” Evelyne puxou o braço dele com força, mas o aperto se intensificou. As damas da corte gritaram, atraindo os olhares da multidão. "Me solte", disse Evelyne, forçando sua voz a se manter firme e majestosa. "Você sabe quem eu sou?" O sorriso do homem se alargou. "Pelo visto, uma dama longe de sua fortaleza. Imagino quanto você conseguiria nos cais." Ela prendeu a respiração. Empurrou-o no peito, o pânico a invadindo. O mercado ficou turvo — as vaias, as risadas, a multidão de pessoas a cercando. E então ele se foi. Não, ele não tinha ido embora. Estava no chão, gemendo, com uma bota pressionada contra o peito. Acima dele, erguia-se um homem alto e cheio de cicatrizes, vestindo um sobretudo escuro, com a mão firmemente no punho da espada. Senhor Azriel. A multidão silenciou ao vê-lo. Seu rosto marcado por cicatrizes, o maxilar rígido, o fogo frio em seus olhos — ele parecia menos um homem do que uma sombra vingativa. "Levante-se", rosnou Azriel para o bêbado, com a voz rouca. "E se eu vir você encostar nela de novo, vou quebrar todos os ossos do seu corpo." O homem se afastou às pressas, murmurando maldições. Ninguém mais ousou encarar Azriel. Antes que Evelyne pudesse recuperar o fôlego, a mão de Azriel estava em seu braço – não gentilmente, mas firme, inflexível. Ele a puxou para fora do mercado com passos largos, sua presença tão imponente que a multidão se abriu sem dizer uma palavra. “Você... você deveria estar no castelo!” ela disparou, puxando o braço com força. “O que você está fazendo aqui?” O maxilar de Azriel se contraiu. "O que estou fazendo aqui?", repetiu ele, incrédulo. "Estou salvando sua vida, Princesa. Acha que eu gosto de ser chamado para longe da corte para correr atrás de você porque se recusa a seguir uma única regra?" As bochechas de Evelyne coraram. "Regra? Regra! Você acha que isso tem a ver com regras? Acha que eu me importo com as suas ordens?" “Você se dá conta?” Sua voz era cortante, rompendo o clamor do mercado. “Você sequer começa a entender o que está arriscando? Um passo em falso, um momento de descuido, e não é apenas a sua vida que está em risco — é a minha, é a de todos que lhe servem. Você não tem ideia do caos que sua imprudência causa. Agora, quer ser carregado de volta como uma criança?” A voz de Azriel era baixa e cortante, seu aperto de mão como ferro. “Ou vai andar?” O calor subiu-lhe às bochechas. Tentou o braço, mas não conseguiu libertá-lo. "O senhor presume demais, senhor. Não sou sua prisioneira ." “Você está sob minha responsabilidade”, ele rosnou. “E não vou permitir que você seja arrastado pela imundície desta cidade”. Azriel cerrou os punhos ao lado do corpo, mas não disse nada. Em vez disso, virou-se e fez um gesto brusco para os servos que observavam nervosamente. "Voltem para o castelo, os dois. E que fique bem claro: se ela sair de novo, não passem dos portões." As garotas saíram correndo e o olhar fulminante de Evelyne seguiu Azriel enquanto ele a guiava de volta ao castelo, as bochechas ainda coradas de frio e fúria. Apesar de toda a sua autoridade, de todos os seus avisos, ela sentiu uma onda de algo indescritível — uma mistura de irritação, respeito e… confusão. Ela não o entendia, nem queria entender, mas uma pequena parte dela admitia que, sem a intervenção dele, talvez não tivesse retornado em segurança. De volta aos estábulos, Azriel finalmente a soltou. O cheiro de feno e cavalos pairava no ar tenso. Evelyne se virou para ele, os olhos faiscando: "Como ousa falar comigo assim? Como ousa me humilhar diante de todas aquelas pessoas, na frente dos meus servos!" Azriel cerrou os dentes. Sua voz era firme, mas fria como aço. "Você entende, Princesa, que se algum m*l lhe tivesse acontecido, minha cabeça estaria no cadafalso antes do anoitecer?" Evelyne piscou, assustada com a aspereza sob seu controle. “Acho que você não tem noção”, continuou ele, “dos perigos que aguardam além destes muros. Você caminha entre lobos e espera que eles se curvem porque você é da realeza. Eles não se curvarão. Eles vão te despedaçar”. As palavras dele a feriram mais do que ela gostaria de admitir. Ela ergueu o queixo, agarrando-se ao orgulho. "Você me acha fraca. Uma criança mimada." Algo brilhou em seus olhos naquele instante — raiva, sim, mas também algo mais. Dor. "Acho que você é mais corajoso do que imagina", disse ele em voz baixa. "Mas coragem sem cautela é tolice." Por um instante, o silêncio se estendeu entre eles. A cicatriz dele refletia a luz da lanterna, contrastando duramente com a linha forte do seu maxilar. O peito de Evelyne apertou com uma dor estranha e desconhecida. Ela se virou rapidamente, com a capa esvoaçando atrás dela. "Você não falará comigo assim novamente", disse ela, embora sua voz não tivesse mais a mesma aspereza de antes. Ao se afastar, seu coração palpitava — não de indignação, mas de algo muito mais perigoso. Pela primeira vez, ela se perguntou se o homem nas sombras a enxergaria com mais clareza do que qualquer outra pessoa jamais havia conseguido.
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