Capítulo 78
Elas ficaram sem conversar, cada uma em um canto. Antes de dormir, a Bibi foi pegar a Maria Cecília. A Kaori falou, séria, afrontando:
— Não tem ninguém vendo, não precisa fingir ser uma ótima mãe. Você tá com ciúmes dela, isso é patético, Bianca, até pra você.
Ela respondeu que não queria fingir nada, que imaginou que a Kaori precisava dormir melhor para não ser prejudicada em outro emprego, pediu pra ela parar com os ataques. A Bibi foi deitar, levou a bebê junto. A Kaori ficou chateada, acordada até tarde pensando em tudo, muito triste. Ela realmente estava muito apegada e se perguntava por que estava passando por tudo aquilo.
No dia seguinte, ela foi falar com a Bibi antes de ir trabalhar. Era de manhã. Arrumou a mesa do café da manhã para agradar. A Bibi estava deitada. A Kaori foi mexer com a Maria, perguntou quando ela iria embora e se iria mesmo. A Bibi respondeu, sonolenta:
— Por quê? Vai hoje mesmo procurar minha mãe? Vai ajudar eles?
A Kaori respondeu, chateada:
— Não vou fazer isso, Bibi, e você não precisa ir. Aqui só tem a gente, eu vou te ajudar com a Maria. Logo você vai poder trabalhar, pensa bem antes de tomar qualquer decisão. Eu tô com você, e juntas vamos conseguir.
A Bibi ficou quieta, não respondeu à pergunta. A Kaori trocou a Maria e logo foi trabalhar, de cabeça cheia, querendo fazer algo pra impedir. Ela realmente estava apaixonada pela Maria Cecília e, com a oportunidade que teve de ser uma “mãe”, antes de viver isso ela nem imaginava que iria gostar tanto.
Na hora do almoço, ela ligou para a Bibi com a desculpa de pedir pra ela colocar a roupa na máquina. Na verdade, ela só queria ver se ela ainda estava lá. A Bibi fez o que ela pediu, não conversou nada pelo telefone, foi fria.
À noite, a Kaori chegou em casa angustiada, achando que não ia encontrar as duas lá, mas ainda estavam, porém com as malas prontas. Assim que ela viu, já ficou com os olhos cheios de lágrimas. Não falou nada. A Bibi estava com a Maria no colo, disse que não ia embora sem se acertar com ela. A Kaori foi lavar as mãos para pegar a Maria, ela disse só que queria se despedir. A Bibi respondeu, quase chorando:
— Não vou hoje, tá tarde já. Vai tomar banho, depois a gente conversa!
Elas estavam se segurando pra não chorar. A Kaori foi tomar banho e depois foram para o quarto juntas. A Bibi perguntou se ela estava com fome, ela disse que não, deitou com a Maria em cima da barriga, perguntou pra onde ela ia.
A Bibi começou a contar tudo desde o começo e pediu pra ela não julgar nem pra falar nada pra ninguém. A Kaori ficou quieta, apreensiva. A Bibi disse que ficou com o Breno algumas vezes enquanto namorava o Diego e teve dúvidas no começo sobre o pai da bebê, mas disse que o Breno era o Breno, o histórico deles era longo e antigo.
Também contou que o Breno e ela tiveram uma briga feia no final do ano, rompendo o caso deles. Ele estava perdido, mexendo com coisa errada, ganhando muito dinheiro da maneira errada. Começou a pressionar muito ela, querendo que ela ficasse só com ele e largasse o namorado. Até chegou a ameaçar o Diego pra Bibi, dizendo que ia pegar ele, contar tudo.
A família dela odiava ele desde sempre, porque era humilde e os dois só aprontavam juntos. Quando ela falou que estava grávida dele, a rejeitaram por isso. Ela confessou que levou a gravidez sozinha, esperando que os pais fossem mudar de ideia, também porque o Breno estava preso e eles tinham terminado de vez.
Mas, vendo que os pais não mudaram, decidiu ir atrás do Breno, porque gostava dele e talvez o bebê fosse ajudar ele a se manter forte na cadeia. A Kaori até sentou enquanto ouvia tudo, se esforçou pra ficar quieta.
A Bibi falou que ele estava feliz pela novidade, que a família dele acolheu muito bem as duas, de braços abertos, mas as condições não eram boas pra eles, ainda mais com o Breno preso. A Kaori permaneceu fria, ouvindo tudo. A Bibi chorou muito contando tudo, se abriu de verdade, mas havia um abismo ali entre elas.
Ao saber que a Bibi havia praticamente se casado pra poder ir visitá-lo, a Kaori já foi perguntando se ela pretendia expor a bebê a aquilo, levar no presídio. A Bibi respondeu:
— Ele quer muito conhecer ela, em momento algum duvidou de mim ou falou de fazer DNA. Ele nem viu uma foto ainda, mas já aceitou ela. Ele não é perfeito, mas está me apoiando, você sabe como ele é! Isso vem me ajudando muito e eu me sinto tão culpada por não ter sido mãe da minha filha. Eu só queria que tudo ficasse bem. Eu não tô tão bem, mas eu tô tentando, você precisa entender, eu não escolhi ficar assim e eu sei o quanto errei.
Foi quase impossível não criticar. A Kaori começou a falar que não era certo levar a Maria para um lugar tão sujo, um ambiente tão pesado. A Bibi disse que seria só uma vez, que o Breno também não queria aquilo. A Kaori respondeu:
— Aonde você tá com a cabeça, Bianca? Faz anos que o cara vacila com você, ela não precisa disso. Você faz ideia de quantas doenças tem lá? Você mesma sempre disse de boca cheia que nunca iria visitar homem nenhum na cadeia. Ele nunca faria tamanho esforço por você!
A Bibi disse que ia tomar todos os cuidados necessários, que aquela era a última vez, a última oportunidade deles. Elas ficaram se encarando em silêncio, com aquele olhar de quem sabe no que a outra pessoa está pensando.