Capítulo 82
Ela perguntou se ele queria ficar treinando mais um pouco ou se queria dar a bebê pra ela. Ele respondeu, debochando, entregando a Maria, que não queria mais filhos, que só o Bernardo já estava bom demais. Comentou que ela parecia estar querendo muito. Ela respondeu, saindo da sala:
— Não, agora não. Quem sabe daqui uns anos... Já tenho a Maria e o Pedro pra dengar muito!
A convivência entre os dois estava normal, os meses e a distância fizeram muito bem para ambos, pelo menos até então. Ela voltou para junto das outras lá no fundo e ele voltou para o quarto, cheio de vontade de conversar mais com ela e admirado com o cuidado dela com a Maria.
Elas ficaram a tarde toda lá, conversando, bebendo. A Kaori não bebeu nada porque estava de babá. A sintonia dela com a Maria era incrível, se outras pessoas a pegavam no colo, ela chorava, mas se a Kaori pegasse, ela ficava quieta na mesma hora. Era até bonito de se ver a ligação das duas, o amor da Kaori pela Maria.
Como o Rui não quis se juntar a elas, a Daia comentou que ele estava bravo porque a Renata tinha ido lá buscar as coisas dela bem cedo e discutiram. Ela não parecia ser do tipo que deixava pra lá, gostava de ofender, pirraçar, e ele não era muito diferente. O término deles foi muito conturbado.
No domingo à noite, a Bibi foi buscar a Maria. Ela estava exausta, fisicamente e mentalmente. A Kaori ofereceu comida, ela aceitou, disse que estava com saudades da comida dela. Começaram a conversar. A Bibi estava com medo por causa da situação do Breno, mas ela estava mais segura porque, legalmente, seria muito difícil dos pais dela tomarem a Maria. Ela só queria tomar banho e descansar.
Comentou o quanto era horrível aquele lugar, as condições, a situação toda humilhante. Chorou muito falando do Breno, disse que não ia abandonar ele e que aquilo só estava mostrando o quanto se gostavam. A Kaori não criticou, só deu um ombro amigo e atenção.
A Lisa já tinha ido embora. Enquanto a Bibi esperava o jantar, dormiu no sofá, encolhida. A Kaori se aproximou e falou, mexendo no cabelo dela, sendo carinhosa:
— Bibi, acorda. Vai tomar banho e dorme aqui. Só tá a gente, amanhã eu tô de folga mesmo. Fica aqui hoje!
Ela aceitou na mesma hora, tomou banho, colocou um pijama da Kaori. Sentaram juntas pra jantar. A Bibi perguntou o que a Kaori achava do Breno, do novo relacionamento deles. Evitando se desentender, a Kaori disse que seria uma nova oportunidade.
Quando a Bibi insistiu, pedindo sinceridade, ela respondeu:
— Bibi, você é demais pra ele, sempre foi, e não tô falando de grana não, nada disso. Eu nunca pude entender qual era a de vocês, porque, pra mim, ele nem é tudo isso. Faz anos que você insiste e permite que ele volte. Ele não é recíproco com você, não pensa no futuro, sempre fez merda, não confio nele, sabe?! E agora tem a Maria, eu só fico preocupada!
Chateada, a Bibi disse que nem ela entendia, mas que sentia muitas coisas, que a ligação dos dois era forte demais. Relatou que o Breno já havia pedido um filho a ela várias vezes, alegando que nunca quis ter com nenhuma outra.
Relembrou os momentos bons que sempre tiveram em meio à tempestade, ressaltou que ele foi o primeiro amor dela e que ela nunca sentiu algo assim com os outros. O negócio dele não era usar porcaria, mas sim vender, um empreendedor bom de lábia, carismático e sem medo do perigo, com forte atração pela vida fácil, de família humilde e muitas ambições. Foi fácil se envolver com o que não devia.
As duas logo foram dormir. A Kaori ficou com a Maria.
No dia seguinte, a Bibi convidou a Kaori pra ir conhecer o lugar que ela estava morando. Falou muito bem da sogra, que sempre deixou ela ficar por lá, mesmo sabendo dos rolos dela e do Breno. Foram ainda de manhã, de ônibus.
Chegando lá, a Kaori já se surpreendeu com a criança que saiu no portão. Era uma menina de uns 5 anos, toda descabelada, com uma roupinha surrada. Ela estava com um gatinho no colo, gritando que não ia fazer algo porque estava cedo. Pareceu super malcriada. Foi falando para a Bibi:
— Oi, tia, onde você tava, hein? Nossa, nem dormiu em casa. Quem é essa aí carregando a Maria?
A Bibi começou a conversar com ela, pediu pra ela soltar o gato. Ela disse que estava procurando o gato há muito tempo e que não podia perdê-lo de novo. Ficou encarando a Kaori.
Foram entrando. Na sala, tinha um menino dormindo no sofá. A Bibi falou pra Kaori se sentar lá. Ela ficou reparando em tudo, achando a casa simples, bagunçada. A mãe do Breno veio cumprimentá-la, começou a falar para o menino acordar e sair da sala porque tinha visitas. Ele levantou sonolento, resmungando, quase chorando.
Assustada, a Kaori achou um absurdo aquilo, ficou com dó do menino. A Bibi começou a contar como foi com o Breno. A mãe dele era brava, mas xingava ele do que reconhecia as coisas boas que ele estava tentando fazer. Ela levantou e falou:
— Vocês querem café? Acabei de passar, tá fresquinho.
Ela saiu na porta da sala e gritou:
— Giovanaaaa, vai arrumar as camas agoraaaa! Eu vou dar um sumiço nesse gato, você vai ver, não tô de brincadeira. Acho bom o Tales já ter ido lavar a cara e cuidar do cachorro dele, senão eu vou dar um sumiço no cachorro também. Eu não vou falar de novo!
Aquilo foi desesperador pra Kaori, ver a mãe do Breno falando daquele jeito com crianças tão pequenas. Ela disse que precisava ir no centro resolver algumas coisas, só pra ir embora logo.
Tudo o que ela pensou foi que a mãe da Bibi tinha razão e que a Maria ia viver jogada como eles, sendo maltratada. Ela logo se despediu e foi embora, agoniada. Ficou super triste o resto do dia.
Na hora do almoço, quando foi trocar mensagem com o William, relatou o que viu. À noite, quando foram conversar por ligação, após ele chegar da academia, ela tocou no mesmo assunto. Ele disse que aquilo não era da conta dela, que ela estava exagerando.
Ela disse que ele estava estranho, chato. Ele questionou a falta de interesse na família dele, porque ela não perguntou nada sobre o sogro que estava doente. Ela tentou conversar, reverter a situação, mas ele disse que estava tarde, que já ia dormir, cortou o assunto e ficou chateado.
Alguns dias depois, a Bibi fez perguntas sobre o restaurante, querendo ir trabalhar logo por estar precisando de mais dinheiro. A Kaori perguntou se não era muito cedo, insinuou que a avó da Maria não fosse dar a devida atenção.
A Bibi estava decidida e a Kaori, achando que ia fazer ela mudar de ideia, marcaram de se encontrar no final do dia pra conversar.
A Kaori foi até lá novamente. Quando ela chegou no portão, uma menina de uns 12 anos saiu atender com a Maria no colo. Ela disse que a Bibi estava tomando banho. A Kaori foi entrando, pegou a Maria e se sentou.
A casa parecia estar mais arrumada, sem crianças. A Bibi apareceu, calçando os sapatos às pressas, penteando o cabelo, e falou:
— Tata, sua mãe respondeu? Kaori, coloca a Maria no carrinho, a gente tem que ir rápido. Aiiii, por que eu fui tomar banho?! Caramba, olha a hora.
A menina disse que a mãe falou que ia ver. A Bibi foi jogando chupeta, fralda, celular no carrinho às pressas. Sem entender, a Kaori foi saindo atrás dela.
Quando ela perguntou pra onde iam, a Bibi disse que buscar as crianças na escola. A Kaori respondeu:
— Nossa, é você que faz isso? E quando tiver trabalhando? Olha, se você voltar pra casa não vai precisar ajudar com nada. Tá precisando de dinheiro por causa do Breno, né? Ele tá te pedindo as coisas?
A Bibi respondeu, surpresa, com espanto e decepção:
— Uau, você só veio pra me fazer mudar de ideia, e eu achando que você ia me colocar lá rápido pra me ajudar.
Tentando ser sutil, a Kaori disse que só queria ajudar, que a conhecia melhor do que ninguém e que sabia que ela não ia aguentar aquilo tudo por muito tempo, porque sempre teve tudo do bom e do melhor.
A Bibi riu, irônica, e falou que nem tinha muita opção, que escolheu aquilo pra si. Então a Kaori entrou em detalhes, criticando o modo que viu as crianças sendo tratadas.
As duas estavam paradas na frente da escola. A Bibi olhou pra ela bem séria, chateada.