Kaori nunca o proibia de falar sobre Cíntia. Durante todo o tempo, Daniel sustentava aquela ideia de os dois ficarem juntos. Ela disse que pagaria para ver, que dali a alguns dias o levaria para conhecer seus pais. Ele foi aceitando tudo sem pestanejar.
No final da tarde, Kaori foi para casa. Daniel a aconselhou bastante sobre como agir com a família. Quando entrou, encontrou o pai na sala com Joyce, completamente à vontade, deitada no colo dele. Assim que a viu, ele disse:
— Você poderia ter me ligado para dar notícias. Você acha certo agir dessa forma comigo, Kaori? Preciso saber onde você está e com quem. É o mínimo que te peço.
Ela respondeu que não daria mais trabalho algum a ele, porque iria morar com a mãe. O pai falou imediatamente:
— Não vou te ajudar com mais nada. Seu curso, sua habilitação... você vai estar por sua conta!
Kaori foi para o quarto sem responder. Tomou banho, deitou e ficou assistindo televisão até pegar no sono. Algum tempo depois, acordou com Joyce batendo na porta.
— O que é? — Falou ríspida.
Joyce respondeu que Rafaela estava lá e perguntou se podia deixá-la entrar. Kaori respondeu que sim.
Rafaela entrou um pouco receosa e falou:
— Oi, gatinha. Como está difícil te achar, hein? Tudo bem?
Ela a cumprimentou e sentou na beirada da cama.
Kaori respondeu:
— Bem. E você? Estava me procurando? Por quê?
Rafaela explicou que queria chamá-la para a despedida de Bibi, na esperança de que as duas fizessem as pazes.
Kaori respondeu:
— Ela teve a oportunidade de me chamar, mas não fez a menor questão. Enfim... deixa pra lá.
Rafaela respondeu, um pouco chateada:
— Desculpa se tô no meio de vocês duas. É que os meninos são amigos e agora a Bibi tá namorando com o Diego. Você tá com raiva de mim?
Kaori respondeu que não, porque conhecia muito bem a Bibi.
Rafaela então perguntou:
— Quer que eu vá embora? Acho que não foi boa ideia vir aqui assim do nada. Te acordei ainda, né?
Kaori respondeu que não havia problema algum e disse que precisava de um favor de Thomás.
Rafaela sorriu, simpática.
— Tá bom. Quer falar com ele ou pode dizer pra mim?
Kaori respondeu:
— Preciso fumar. Meu amigo que me dava não tá mais aqui, não sei quem vende. Se eu der o dinheiro, ele pode conseguir pra mim?
Rafaela respondeu surpresa:
— Sim, vou falar com ele. Não sabia que você curtia essas coisas também.
Kaori ficou completamente travada. Tudo o que vinha de Rafaela parecia uma indireta sobre os beijos que havia dado em Thomás.
Logo depois, Rafaela continuou:
— Malandrinha, hein? Tá sem celular ainda? Se você quiser, o Thomás acha um baratinho usado lá na loja pra você ir usando. Não vai ser nenhum iPhone, mas dá pra atender ligações, falar comigo e me mandar um salve.
As duas começaram a rir. Rafaela a abraçou e disse que havia ficado preocupada, porque Thomás contou que ouvira a discussão na casa dela e também a vira chorando.
Kaori fechou a porta do quarto e contou tudo o que estava acontecendo, falou das chantagens do pai contra a mãe. Rafaela foi extremamente solidária. Abraçou-a, fez carinho em seus cabelos e disse que iria cuidar dela até Bibi voltar.
Kaori respondeu que não queria mais saber de Bibi.
Rafaela riu e respondeu:
— Agora você quer meus olhos verdes só pra você, amiga? Cansou dos olhos da Bibi?
Ela era muito divertida que conseguia fazê-la rir até quando estava chorando.
Kaori comentou que iria se mudar de casa. Rafaela aconselhou que ela esperasse pelo menos a habilitação estar totalmente paga, porque a autoescola só entregava o documento depois da quitação de todas as parcelas, e em uma ou duas semanas, no máximo, ela já estaria com tudo resolvido.
As duas subiram para o apartamento de Thomás. Kaori avisou Joyce, que continuava com aquela expressão de quem tentava agradá-la a qualquer custo.
Thomás tinha acabado de tomar banho e já estava vestido para sair. Rafaela disse que ele deveria ir sozinho, porque ela ficaria com Kaori.
Ele sugeriu:
— Então vamos todos juntos.
Explicou que iria tocar em um barzinho novo naquela noite e que Rafaela estava de folga.
Kaori tentou recusar, mas os dois insistiram bastante.
Enquanto Rafaela escolhia uma roupa para ela, jogava várias peças em cima da cama. Kaori estava deitada, com as costas apoiadas na parede e as pernas esticadas para fora da cama, totalmente à vontade, como sempre fazia quando estava ali.
Rafaela encontrou um vestido vinho justo, com detalhes nas costas, e insistiu para que Kaori o vestisse. As duas ficaram sozinhas no quarto.
O vestido ficou perfeito. Mesmo assim, Kaori queria tirá-lo porque achava que não combinaria com tênis.
Rafaela insistiu até convencê-la a colocar um sapato de salto.
Depois, foram até o apartamento de Kaori fazer a maquiagem.
Antes de sair, Kaori chamou Joyce e disse:
— Avisa meu pai, por favor, que vou sair com a Rafa. Nós vamos no trabalho do Thomás ver ele tocar. Não vou voltar tarde!
Joyce respondeu que ela deveria ligar caso precisasse de carona.
Como pessoa, Kaori não odiava Joyce. O problema era o fato de ela ter sido amante do pai, e era justamente isso que a fazia sentir tanta raiva dela.
Quando terminaram de se arrumar, desceram para encontrar Thomás na portaria.
Ele havia esquecido a bolsa de Rafaela, então ficaram esperando enquanto ela subia novamente para buscá-la.
Nesse intervalo, Thomás mexia no celular. Em determinado momento, olhou para Kaori e comentou:
— Você está diferente.
Ela apenas sorriu sem graça.
Ele continuou:
— De um modo bom. Bem bonita.
Kaori agradeceu, mas ficou desconfortável com a maneira como ele a olhava.
Logo depois, Rafaela voltou correndo avisando que o Uber já estava esperando.
Os três seguiram para o barzinho.
Ela e Rafaela sentaram de frente para o palco, bem na frente dele.
Kaori pediu um drink. Rafaela recusou porque não podia beber devido aos remédios controlados.
Durante toda a noite, Rafaela cantou, gravou vídeos, tirou fotos das duas e postou tudo nas redes sociais.
Por causa de Thomás estar se apresentando, ganharam bebidas e porções.
Kaori acabou bebendo muito além da conta.
Quando Thomás terminou o show, foi sentar com elas e entregou o cigarro que Kaori havia pedido.
Ela saiu sozinha para fumar na rua.
Já estava muito alterada antes mesmo de fumar e, depois disso, ficou pior ainda.
Ao voltar para a mesa, disse que precisava ir embora imediatamente. Não queria estragar a noite deles, principalmente porque percebeu que os dois pareciam estar brigando.
Entregou o cartão para Rafaela pagar sua comanda.
Enquanto Rafaela foi resolver isso, Thomás permaneceu sentado ao lado dela e perguntou se ela achava que passaria m*l.
Kaori respondeu que só precisava deitar um pouco.
Quando Rafaela voltou, os três saíram para esperar o Uber.
Ela estava extremamente eufórica, enquanto Thomás permanecia sério.
Durante o caminho até o carro, Rafaela o abraçou e beijou várias vezes, mas ele parecia esquivar-se constantemente.
Durante a viagem, Kaori acabou dormindo.
Só acordou já no quarto de Thomás.
Ele a carregava nos braços.
Assim que a colocou sentada na cama, Rafaela perguntou:
— Você não quer tomar um banho ou comer alguma coisa antes de ir embora?
Kaori olhou para ela e percebeu que estava com os olhos inchados, como se tivesse chorado.
Na mesma hora, imaginou que a discussão entre os dois pudesse ter sido por causa dela.
Levantou-se imediatamente e disse que iria para casa.
Rafaela perguntou se ela queria companhia até a porta.
Kaori respondeu que não precisava.
Saiu sozinha, entrou em casa tropeçando no escuro, tomou banho e foi dormir.
No dia seguinte, acabou chegando atrasada ao trabalho. O pai já havia avisado que não iria levá-la.
Sem celular, sequer conseguiu pedir um Uber.
Quando passou pela catraca do ônibus, Thomás entrou logo atrás.
Foi sentar ao lado dela.
Desejou bom dia e perguntou se ela estava melhor.
Kaori respondeu que sim e pediu desculpas por ter estragado a noite deles.
Os dois começaram a conversar.
Ela perguntou por que ele e Rafaela estavam brigando.
Thomás respondeu:
— Ela é difícil. Às vezes eu perco a cabeça. Ela sabe que não pode beber. Chega uma hora que cansa, ela é muito enérgica.
Kaori apenas ouviu.
Ele continuou:
— Ela não te falou nada? Sobre mim?
Kaori respondeu:
— Não. Nada de r**m, pelo menos.
Thomás suspirou e respondeu, claramente chateado:
— Às vezes ela entra em crise e fala que vai me deixar. Agora colocou na cabeça que estou com ela por pena. Ela me deixa tão cansado. Amo a Rafa, estamos juntos há anos... é que me sinto um pouco exausto de lidar com ela e com essas mudanças repentinas de humor.
Kaori respondeu:
— Imagino como deve ser difícil. Ela não fala dessas coisas comigo. Na verdade, nem estamos conversando direito nesses últimos dias.
Thomás perguntou se era por causa dos beijos que tinham trocado.
Ela respondeu que ele nem deveria estar lembrando daquilo.
Ele riu e disse:
— Você tem mais medo do que eu. E olha que foi você quem me beijou nas duas vezes.
Kaori ficou séria.
— Não fica comentando isso.
Ele respondeu:
— Mas tô falando só com você. E, assim como eu, você também não deve ter esquecido.
Kaori perguntou por que ele fez aquilo e por que não contou logo a verdade.
Ele respondeu, visivelmente arrependido:
— Não sei. Fiquei curioso e, na hora, foi bom. Você também me pegou de surpresa. Tô passando por um momento r**m no meu namoro e não quero mais fazer aquilo. A Rafa é minha amiga. Eu nunca posso magoar ela dessa forma, sabe?