Kaori viu o pai dizendo que não a queria enfiada na casa da mãe, porque ela iria ficar colocando coisas na cabeça da filha contra ele e contra Joyce. Lisa respondeu que não tinha culpa de ele ter assumido aquela vaga.bunda. Ele respondeu dizendo que iria refazer a vida com Joyce e teria mais filhos. Lisa respondeu imediatamente:
— Você m*l cuida dos que já tem. Se acontecer alguma coisa com a minha filha enquanto ela estiver sob a sua responsabilidade, eu acabo com você, Juliano. Deixei ela ficar aí pra você cuidar dela da melhor forma possível.
Kaori lia tudo muito por cima, com pressa, deslizando a conversa rapidamente. Chegou nas mensagens trocadas na despedida de Miyuki. O pai dizia que não queria a mãe lá dando show e estragando a noite da família, fez questão de enfatizar que Joyce estaria presente em todos eventos familiares. Naquele dia, a mãe sequer respondeu. Conforme continuava lendo, encontrou muitas mensagens cruéis. Ficou extremamente chateada por Lisa, principalmente pela forma como era tratada. Em uma das conversas, ele chegou a dizer que ela deveria arrumar outro homem e ter um relacionamento para deixá-lo em paz. Lisa respondeu que não era capaz disso enquanto ainda tivesse sentimentos por ele.
Em seguida, ela relembrou o começo do relacionamento dos dois, contou que ele insistiu para levá-la para a cama e falou da decepção que sentiu ao engravidar logo no início do namoro, tendo que abandonar tudo para cuidar dele e da casa. Quanto mais Kaori lia, mais seus olhos se enchiam de lágrimas. Ficou completamente abalada.
Nesse momento, Lisa se aproximou dizendo que estavam chamando as duas na cozinha. Kaori levou um susto. Lisa perguntou o que ela estava fazendo e tomou o celular de sua mão. Kaori levantou e respondeu enxugando os olhos marejados:
— Que bom que vamos conversar. Tenho várias dúvidas pra tirar hoje.
As duas seguiram para a cozinha. Já estavam limpando tudo. Ivone começou a conversar com Kaori, fez algumas perguntas e serviu um pedaço de bolo para ela. Kaori ficou encostada na pia ao lado dela enquanto comia. Ivone perguntou se ela iria sair com elas depois dali. Kaori respondeu que estava feia, sem banho. Ivone disse que ela podia passar em casa para se arrumar.
Quando saíram do restaurante, o celular da Lisa começou a tocar. Ela disse que provavelmente era o pai de Kaori e pediu para a filha atender. Curiosa, Kaori atendeu, mas do outro lado ouviu a voz de um homem desconhecido:
— Oi, querida. Já saiu do trabalho? Vamos nos encontrar hoje?
Kaori respondeu curiosa:
— Minha mãe está dirigindo.
Lisa percebeu imediatamente que não era o ex, pegou o celular da mão dela e respondeu rapidamente que não poderia sair porque tinha acontecido um imprevisto.
Lisa ficou claramente constrangida.
Ivone perguntou:
— Ué, vocês não vão mais?
Lisa respondeu:
— Não. Vou ficar em casa com a Kaori. Tô tão cansada, não dormi nada essa noite.
Depois de deixarem Ivone em casa, seguiram para casa delas. Assim que chegaram, Lisa foi direto tomar banho. Kaori permaneceu na sala assistindo televisão. Quando percebeu que a mãe demorava demais e havia se fechado no quarto sem falar nada, bateu na porta.
Disse que queria conversar e que, se ela não falasse com ela, iria embora para a rua.
Lisa levantou, abriu a porta e voltou a deitar. Kaori sentou-se aos pés da cama e começou a falar das mensagens que havia lido.
Lisa respondeu:
— Você conhece seu pai. Ele quer me tirar do sério usando você e a nossa separação.
Kaori insistiu nos detalhes que havia visto e chegou a ameaçar ir embora. Chorando, a mãe finalmente resolveu contar a verdade:
— Ele não é obrigado a ajudar você ou eu financeiramente. Você já é maior de idade, não faz faculdade. Fizemos um acordo. Ele iria cuidar de você, te dar de tudo, principalmente os estudos. Eu não podia te pedir pra ficar comigo, filha.
— m*l consigo pagar as contas do mês e jamais iria te arrastar pra isso comigo. Eu só quero o seu bem. Olha quantas coisas legais você já está fazendo com a ajuda do seu pai.
Kaori perguntou se tudo aquilo era apenas por dinheiro, porque havia meses vinha sendo tratada com frieza e se sentia completamente rejeitada.
Lisa a abraçou e respondeu:
— Não é só dinheiro, filha. É pelo seu bem. Desculpa se fui rígida demais com você. Seu pai está acabando comigo. Seu irmão já escolheu um lado e olha tudo o que fiz por ele a vida toda.
— Quantas vezes ralei pra aprender algo que nem eu sabia só pra ensinar ele nos estudos? Quantas vezes fui passear sozinha com vocês porque seu pai precisava trabalhar de domingo a domingo?
— E de nada adiantou. Olha a minha situação. Ele estava me traindo com aquela vaga.bunda. Fui burra. Devia ter investido em mim, planejado uma vida sem ele. Mas você e seu irmão vão ter um futuro diferente. Vocês vão estudar, ser independentes.
Kaori respondeu que não queria mais morar com o pai, que elas duas dariam um jeito juntas. Lisa recusou imediatamente. Disse que Kaori deveria continuar morando lá e estudando.
Ela insistiu dizendo que queria morar com ela, mas Lisa explicou que não daria certo, porque o trabalho de Kaori ficava muito longe dali e porque ela representaria mais despesas.
Depois começou a falar das contas que precisava pagar todos os meses. O aluguel, o carro, além das contas de água, luz, telefone, internet e alimentação. E ainda tinha dívidas no cartão de crédito.
Naquele momento, Kaori enxergou a mãe de uma forma completamente diferente. Pela primeira vez a viu totalmente desarmada, vulnerável e devastada.
Ela disse que iria apoiá-la de qualquer maneira, inclusive ajudando financeiramente.
Lisa respondeu que daria um jeito de dobrar o turno no restaurante e pediu apenas que Kaori guardasse segredo sobre tudo aquilo e também que não brigasse com o pai por causa daquela situação.
Kaori ficou profundamente triste. O pai havia mudado muito e estava sendo extremamente injusto com a mãe. Percebeu claramente que ele estava tentando afastá-las uma da outra. Mesmo assim, decidiu que não iria mais colaborar com aquilo. Sempre fora muito mais próxima da mãe e só havia se afastado porque se sentia rejeitada.
As duas passaram o restante da noite assistindo televisão juntas. Kaori fez pipoca e tentou tornar aquele momento agradável. Aproveitou também para pesquisar sobre Carlos e descobriu que ele tinha interesse em namorar sua mãe, mas que ela ainda não estava preparada para um novo relacionamento.
No domingo de manhã, mexendo novamente no celular da mãe, Kaori viu que haviam feito uma festinha de despedida para Bibi no sábado. Vários amigos estavam presentes, inclusive Rafaela e Thomás. Aquilo a deixou ainda mais magoada.
Foi cedo trabalhar de ônibus. Passou boa parte do expediente atrás do balcão etiquetando algumas mercadorias novas. Estava distraída quando ouviu uma colega chamá-la. Como aos domingos o movimento era muito fraco, ela foi ver o que a colega queria.
A funcionária apontou para Daniel e disse que o amigo dela queria ser atendido justamente por ela.
Kaori permaneceu séria e caminhou até ele. Daniel a recebeu com um sorriso bonito.
Ela perguntou:
— Oi, bom dia. Posso ajudar, professor?
Enquanto olhava algumas camisetas, Daniel respondeu:
— Bom dia. Como faço pra te ver fora daqui? Andei muito te procurando. Não tenho nenhum número pra te ligar, não sei onde você mora exatamente também.
Kaori perguntou o que ele queria.
Daniel respondeu que estava falando sério quando disse que queria namorar com ela.
Ela respondeu que não estava com cabeça para aquilo.
Ele então insistiu:
— Tá bom, então vamos só ficar juntos. Podemos ir comer naquele lugar que você gosta. Você me conta o que está acontecendo pra te deixar assim. Deixa eu te mostrar que me importo de verdade com você.
Kaori respondeu que não queria ver nada daquilo naquele momento, que precisava apenas de espaço.
Mesmo assim, Daniel se ofereceu para levá-la para casa depois do expediente.
Ela acabou aceitando e combinaram que ele iria buscá-la.
Quando saiu do mercado, Daniel já estava esperando na frente, segurando uma caixa de chocolates em formato de coração. Felizmente, não havia ninguém conhecido saindo naquele horário.
Assim que ela se aproximou, ele abriu a porta do carro e disse:
— Será um prazer conduzir você até sua casa, gata. Ou podemos ir pra algum lugar melhor. Você que decide.
Depois que Kaori entrou no carro, Daniel lhe deu um selinho.
A ideia de ir ao parque foi dele. Ela sempre comentava que gostaria de ir até lá com ele, mas antes nunca podiam. Daniel até levou um pano para que os dois pudessem deitar na grama.
Kaori permaneceu deitada com a cabeça no colo dele, recebendo carinho enquanto conversavam durante horas, exatamente como sempre gostavam de fazer.
Daniel contou que, olhando tudo com mais calma, achava que tinha sido melhor Cíntia terminar o relacionamento antes do casamento, porque tinha medo de casar e continuar sendo infiel.
Kaori respondeu que seria melhor esperarem mais um pouco antes de assumirem um namoro oficialmente.
Daniel discordou. Disse que preferia que tudo acontecesse rapidamente para que as pessoas entendessem por que o casamento não havia acontecido.
Mesmo falando dela com carinho e respeito, comentou que já sentia falta da convivência que tinha com Cíntia e acreditava que, no futuro, talvez ainda conseguissem ser amigos.