Kaori entrou na banheira e ficou de costas pra Enzo. O celular dela começou a tocar. Ele olhou e disse que era a mãe dela. Ela mandou deixar cair na caixa postal. Enzo perguntou se ela estava brigada com a mãe e por quê. Ela respondeu:
— Não vou falar. Você não quis entrar aqui comigo.
Ele disse que ia atender e falar onde eles estavam. Ela respondeu que não faria diferença alguma. Enzo se aproximou, sentou perto dela e perguntou o que estava acontecendo. Kaori falou que tinha ido ali só pra sentir alguma coisa, não pra conversar.
Enzo perguntou:
— E não sentiu?
Kaori balançou a cabeça dizendo que não. Ele respondeu que ela podia ter falado a verdade desde o começo, que não estava bem e só queria tentar curtir de alguma forma. Meio que começou a repreendê-la. Kaori falou interrompendo:
— Não tô disposta a ouvir mais sermões.
Ele respondeu sério:
— Então me fala o que tá acontecendo, Kaori, senão vamos embora agora.
Ela contou tudo o que tinha acontecido, enquanto a mãe ligava uma vez atrás da outra. Conversaram bastante. Kaori disse que já estava tudo resolvido sobre a vida dela e decidiu ir embora rápido por causa da mãe. Pediu pra ele deixá-la na esquina de casa.
Quando chegou, foi entrando e ouviu a mãe chamando da cozinha. Lisa estava jantando, perguntou onde ela estava.
— Andando com a Bibi. Não vi o celular tocar. — Disse Kaori.
A mãe, brava, perguntou:
— Com a Bibi? Tem certeza?
Kaori balançou a cabeça dizendo que sim. A mãe respondeu que tinha avisado que queria ela em casa pra conversar.
Kaori falou:
— Mas eu tô em casa. Pode falar.
Lisa perguntou se ela ia comer. Kaori disse que não queria. Ela respondeu:
— Fiz bife a cavalo só pra você. Tá no micro-ondas. Come pelo menos a carne, Kaori.
Ela sentou a mesa. Quando Lisa terminou de comer, disse que a esperava no quarto dela. Kaori levantou logo depois.
Foi pro quarto preparada pra ouvir um monte de xingamentos, mas a mãe começou falando que tinha marcado médico pra ela no dia seguinte e que sairia mais cedo do trabalho pra irem juntas. Kaori ficou quieta, olhando séria. Lisa perguntou se ela não queria ir morar com o pai.
Kaori respondeu:
— Se você se importasse com a minha opinião, tinha me perguntado antes de decidir junto com ele, como se fosse me castigar.
Lisa respondeu chateada:
— Você está enganada, filha. Eu não quero te punir de forma alguma. Só acho que você precisa de mais atenção e seu pai pode te dar isso no momento. Não quero te afastar, aqui é sua casa e sempre vai ser. Seu pai está com mais conforto e pediu pra eu deixar ele falar com você primeiro. Não vamos te obrigar a ir pra lá, mas é o que queremos agora. Você precisa aprender a ouvir a gente um pouco. Quantas vezes eu te pedi pra não ficar bebendo? Quantas vezes pedi pra não andar sozinha por aí?
Kaori ouviu tudo calada. Depois a Lisa disse que ia parar de falar e ouvir ela. Perguntou se ela estava tomando remédio pra se prevenir. Conversaram pouco. Kaori disse que queria pensar melhor sobre ir morar com o pai. Lisa respondeu que seria bom pra todos, de um jeito que pareceu querer empurrar aquilo a qualquer custo. Kaori começou a pensar que talvez não tivesse escolha.
No dia seguinte, depois do trabalho, Lisa passou pra buscá-la. Kaori foi pra casa, tomou banho, se arrumou e foram ao ginecologista. Como já era maior de idade, podia entrar sozinha, e a própria mãe disse isso. Mesmo assim Kaori perguntou se ela queria entrar junto. A mãe aceitou na mesma hora, curiosa pra saber o que ela andava aprontando.
A consulta foi tranquila. Kaori respondeu perguntas mais íntimas, como com quantos anos tinha iniciado a vida s****l, se tinha algum parceiro fixo, algum namorado. Ela foi sincera e falou a verdade. Sentiu o olhar da mãe pesar nela quando admitiu que tinha uma vida s****l ativa, com parceiros diferentes.
Quando saíram do consultório, Lisa perguntou se ela queria fazer alguma coisa, especial. Kaori respondeu que só precisava ir no curso, conversar e pagar uma parcela. Foram juntas. Lisa aproveitou e inventou de ver quais outras opções de curso tinham lá.
Enquanto estavam na recepção esperando, Daniel passou por lá. Cumprimentou Kaori de forma formal. Ela disse que tinha parado, por falta de tempo. Daniel olhou pra ela como se quisesse conversar, mas ficou claramente inibido com a presença da mãe dela.
Kaori sentiu uma euforia imensa só de vê-lo. Na hora começou a passar um filme na cabeça dela com tudo o que tinham feito juntos. Quando ele colocou a mão nas costas dela, sentiu o corpo inteiro arrepiar. Ficou distraída o resto do dia pensando nele.
Quando chegou em casa, desbloqueou Daniel na esperança de receber uma mensagem ou ligação. Como nada aconteceu, ela mesma adicionou ele de novo no perfil fake. Assim que ele aceitou a solicitação, mandou uma mensagem dizendo que não sabia se ela ainda queria conversar com ele.
Kaori respondeu que estava com saudades da amizade dele.
Conversaram por horas.
Daniel disse que também sentia falta dela, mas que não podiam continuar daquele jeito.
Kaori e Daniel só conversaram por dias, aleatoriamente. Aos poucos ela até foi parando de dar muita atenção para outras pessoas, porque no fundo só queria falar com ele. Ela sabia que toda quinta-feira a noiva dele ia para um compromisso na igreja.
Então mandou uma mensagem perguntando quando eles iam se ver. Daniel respondeu que não podia mais continuar fazendo aquilo, que já estava se arriscando demais só em conversar com ela.
Kaori respondeu que tudo bem, sem problemas.
Mas naquela mesma noite se arrumou e foi até a saída da escola de cursos. Sabia mais ou menos os horários dele porque conversavam justamente quando ele estava lá. Ficou encostada perto do carro dele esperando. Quando viu Daniel saindo acompanhado de outra professora, apenas olhou e saiu andando para longe. Sabia que ele iria atrás.
Parou virando a esquina e logo Daniel apareceu, se aproximou e perguntou o que ela estava fazendo perdida.
Kaori sorriu e respondeu:
— Esses são modos de abordar uma menina essa hora na rua, professor Daniel?
Ele sorriu e respondeu como se estivesse ganhando algo muito valioso:
— Você é inacreditável, Kaori. Entra, vou te levar pra casa. Temos quarenta minutos.
Ela entrou no carro. Se cumprimentaram com um beijo no rosto e um abraço. Começaram a conversar. Daniel disse que sempre ficava chateado quando a via.
Ela perguntou surpresa o motivo.
Ele respondeu meio sem jeito que devia ter conhecido ela antes, porque com certeza não estaria com mais ninguém além dela.
Kaori respondeu:
— Eu sinto o mesmo... mas não para de me assombrar. Não se afasta de novo. Eu não tenho o direito de exigir nada, eu sei disso. Sei que é errado, tudo errado. Mas é mais forte do que eu. Só quero ter você na minha vida, nem que seja como amigo.
Daniel começou a dizer que Kaori já tinha tirado ele dos eixos mais de uma vez, que aquela convivência entre eles podia ser tóxica.
Kaori apenas concordou com a cabeça e se inclinou um pouco para fora, olhando a rua, se sentindo m*l, meio pra baixo.
Foi então que Daniel segurou a mão dela e perguntou:
— Você vai me deixar novamente?