Kaori disse que não sabia se aquilo daria certo, que nem deveria ter ido até lá. Daniel olhou para ela por alguns instantes antes de responder:
— E se formos ficar juntos, namorar de verdade, você aceita? Claro que vamos precisar ser discretos no começo, mas não vou te esconder de ninguém.
Ela o encarou surpresa e respondeu:
— Você nem sabe o que quer da vida. Era pra estar casando com outra. Não vou entrar nessa com você, não assim. Se você quiser ficar comigo, vai ter que me assumir sem discrição alguma. Há meses venho fazendo de tudo por você. Sei lá... cansei. Tô com vários problemas em casa. Quando você tem os seus eu te ajudo, e quando tenho os meus fico sozinha.
Daniel ficou pensativo. Disse que ia pensar na melhor forma de fazer aquilo acontecer e perguntou novamente, agora muito sério, se era realmente aquilo que Kaori queria para os dois. Ela respondeu que sim. Naqueles últimos dias longe dele conseguiu perceber o quanto estava envolvida e, se ele fosse realmente recíproco, nada do que tinha acontecido no passado iria importar, pelo menos para ela.
Kaori foi embora já era sábado de manhã. Chegou em casa, tomou banho e viu que o pai ainda estava dormindo. Pouco tempo depois ele levantou e foi direto até ela, gritando e xingando por ela ter dormido fora sem avisar. Começou a jogar na cara tudo o que fazia por ela financeiramente, falou da confiança que depositava nela e da liberdade que lhe dava.
Disse que estava confiando nela para ver se finalmente amadurecia. Kaori permaneceu quieta o tempo todo, apenas ouvindo e ignorando as acusações. Joyce entrou no quarto tentando intervir na discussão. Juliano então disse que Kaori devia desculpas a ela, porque havia passado horas arrumando tudo, enchido balões para agradá-la, preparado o jantar e ainda ajudado na compra do celular, que seria um presente adiantado de aniversário.
Kaori respondeu olhando diretamente para Joyce:
— Eu não pedi nada disso e não quero ser ingrata. Joyce, gaste suas energias com o meu pai, porque ele pode acordar um dia, olhar pra você e concluir que você já não é mais boa o suficiente pra ele, e ele vai tornar cada data comemorativa do filho de vocês uma merda.
O pai, defendendo Joyce, continuou atacando Kaori aos gritos. Jogou na cara dela que não tinha o menor respeito por Joyce nem pelo irmão que ela estava esperando. Como só trabalharia à tarde, Kaori decidiu sair de casa para não continuar ouvindo aquela discussão.
Quando foi abrir a porta percebeu que estava trancada. O pai havia guardado todas as chaves, inclusive a dela. Irritada, gritou para que ele abrisse a porta, dizendo que, se não abrisse, na primeira oportunidade que tivesse sairia e não voltaria mais.
Ele entrou no quarto, bateu a porta com força e continuou gritando com Joyce, falando sobre Kaori. Ela então se sentou no chão, encostada na porta de entrada, chorando baixinho. Pouco depois ouviu o chuveiro do quarto deles ligar.
Alguns minutos depois Joyce saiu do quarto chorando. Abaixou-se na frente de Kaori, entregou as próprias chaves e uma nota de cinquenta reais. Com a voz embargada, disse:
— Desculpa... eu nem falei nada sobre ontem. Fica com as minhas chaves, não sei onde ele colocou as suas. Vai pra casa da sua mãe ou de alguma amiga. Quando ele estiver mais calmo, vocês conversam melhor.
Kaori permaneceu em silêncio. Entrou rapidamente no quarto, pegou a mochila com o uniforme e algumas roupas. Quando passou novamente pela sala, Joyce entregou um papel com o número de telefone dela e disse que era para ligar caso precisasse de qualquer coisa.
Sem dizer uma única palavra, Kaori saiu do apartamento.
Assim que desceu do elevador e caminhou em direção à portaria, ouviu alguém chamando seu nome. Era Thomás passeando com Aslan. Assim que a viu, correu até ela e perguntou, claramente sem jeito:
— Tá tudo bem? Desculpa... não teve como não ouvir.
Kaori apenas balançou a cabeça afirmando que sim, tentando segurar o choro.
Ele perguntou:
— Vai trabalhar agora?
Ela respondeu que não, que só entraria no trabalho à tarde.
Thomás então falou:
— Se você quiser, pode ir pra casa comigo. A Rafa não tá lá.
Kaori o interrompeu imediatamente, olhando para ele com perplexidade:
— Não tenho nada pra fazer lá sem a Rafa.
Ele respondeu, visivelmente sem graça:
— Minha avó tá lá. Eu só queria ajudar. Não vamos ficar sozinhos, e eu ia ligar pra Rafa pra falar!
Kaori ficou ainda mais sem graça. Pediu desculpas a Thomás e, como não queria encontrar Rafaela por causa de Bibi, preferiu ficar na rua mesmo. Passou horas sentada sozinha em um parque, pensando na vida. Nem conseguiu comer durante toda a manhã, tamanha era a raiva que estava sentindo. Depois seguiu para o trabalho.
Quando entrou no mercado, Bibi já estava saindo. As duas se cruzaram no vestiário. Bibi parou por um instante e comentou que os pais de Kaori haviam perguntado por ela na noite anterior e que não soube o que responder.
Kaori respondeu:
— Desculpa pelo incômodo. Vou falar pra eles que você não fala mais comigo.
Nesse momento, a líder delas passou pelo vestiário e comentou:
— Kaori, sua mãe ligou aqui. Como você ainda está sem celular, menina? Falei que você ia trabalhar no turno da tarde hoje.
Kaori agradeceu enquanto fechava o armário. Bibi disse apenas que já estava indo embora.
Kaori respondeu:
— Boa sorte.
Bibi permaneceu olhando para ela por alguns segundos, mas deixou o orgulho falar mais alto e foi embora sem dizer mais nada.
Kaori entrou para trabalhar. Mais tarde, já à noite, a mãe ligou no mercado perguntando se podia buscá-la quando terminasse o expediente. Ela respondeu que sim.
Quando saiu, a mãe já estava esperando do lado de fora. Assim que Kaori entrou no carro, ela explicou que precisaria voltar ao restaurante porque ainda tinha algumas coisas para resolver e que a filha iria com ela.
Kaori permaneceu em silêncio durante alguns instantes. Lisa então comentou:
— E aí, onde passou a noite? Seu pai me ligou tantas vezes que eu sinto vontade de vomitar só de lembrar da voz dele.
Kaori respondeu que tinha dormido na casa de uma amiga.
Lisa disse:
— A gente conversa em casa.
As duas seguiram para o restaurante. O lugar estava completamente lotado. Kaori sentou-se no balcão e pediu o celular emprestado da mãe. Ela entregou o aparelho sem problemas e ainda pediu que a filha escolhesse alguma coisa para comer.
Kaori ficou algum tempo mexendo nas redes sociais da mãe. Depois de um tempo, já entediada, percebeu que o movimento no restaurante havia diminuído. Levantou-se e foi sentar em uma mesa mais afastada, em um canto do salão.
Ali, tomada pela curiosidade, acabou invadindo a privacidade da mãe e abriu o w******p. Começou a ler as conversas entre ela e o pai.
As mensagens falavam principalmente sobre Kaori e das discussões que os dois vinham tendo por causa dela. Continuou subindo a conversa até chegar ao assunto do celular novo que pretendiam comprar.
A mãe dizia que queria usar o cartão dele para ajudar na compra, mas o pai não aceitava. Ela explicava que não podia usar o próprio cartão porque já estava cheio de contas.
Ele respondeu:
— Lisa, como você quer ajudar se não tem condições? Os gastos da Kaori são responsabilidade minha agora, foi o nosso acordo. Para de insistir e pensa em você, porque ninguém vai te ajudar com nada. Vou comprar um celular pra ela de presente de aniversário. A Joyce vai participar, e você sabe que a sua filha não gosta de qualquer celular.