Capítulo 56
A Bibi começou a passar muito m*l e dizia ser normal. As meninas, com medo, fizeram ela marcar o pré-natal, mas ainda ia demorar semanas pra chegar a primeira consulta. Juntas, pagaram um médico particular para saber as semanas certinho e ver como o bebê estava. A Maria foi com a Bibi, ela estava sem trabalhar ainda. O médico pediu vários exames e a Bibi não queria fazer porque não queria gastar, na verdade ela não tinha dinheiro pra aquilo, estava estudando, pagando tudo sozinha, sem ajuda dos pais. Ela disse que estava tudo bem com o bebê e que havia engravidado no final do ano. Ela garantiu que não sabia de quem era, que só com o DNA depois que nascesse. Ela estava depressiva, muito m*l com a situação dela, não conversava com as meninas, vivia chorando pelos cantos, não falava do bebê.
Quando fez um mês que a Kaori estava trabalhando, ela recebeu o pagamento e tinha combinado de ir pra casa do Juliano. Ela não tinha conhecido o Pedro ainda, ia passar dois dias lá. Ela teve que desmarcar porque tiveram que comprar gás e ela pagou a parte da Bibi nas contas. A Kaori avisou a Daia e ao Juliano que houve um imprevisto. O Juliano queria ir pra lá, ela inventou desculpas, disse que iam estar com visitas familiares da Maria.
No final do mês, quinze dias depois, ela tentou ir novamente. Já nem marcou nada com ninguém pra não precisar desmarcar se desse errado, ela só se planejou. O afilhado, que ela nem tinha conhecido pessoalmente, já tinha mais de um mês. Ela foi no sábado de manhã, sozinha, de ônibus. Quando chegou na cidade, ligou pra Daia, perguntou que horas podia ir lá. Era de manhã ainda, a Daia chamou ela pra ir almoçar lá.
Ela foi pra casa da Lisa sem avisar, queria fazer uma surpresa, fazer as pazes. Ela ligou quando estava chegando, a Lisa não atendeu. Ela foi entrando com as chaves dela, não tinha carro nenhum lá e a casa parecia estar vazia. Quando a Kaori abriu a porta e colocou as chaves em cima da mesa, ela viu uma caixinha com envelopes bonitos, decorados. A caixa estava aberta, ela pegou um pra ver: eram convites de casamento da Lisa e do Hugo. Ela ficou surpresa, chateada, não estava sabendo de nada. Ela ficou na sala e tentou falar com a Lisa. Como não conseguiu, ela foi pra casa da Daia.
Elas tinham combinado na hora do almoço, mas a Daia disse que ela podia ir a qualquer hora. Ela chegou de surpresa, a Daia ficou no fundo do corredor e falou pra ela abrir e entrar. As duas se abraçaram, começaram a chorar juntas. A Kaori pediu pra conhecer logo o príncipe Pedro. Ele estava na cama, a Daia colocou ele no colo da Kaori. Ela ficou encantada com ele, se espreguiçando todo, fazendo bico. A Daia falou enquanto mexia no guarda-roupa:
— Você chegou muito cedo, vou tomar banho, demorar uma meia hora, lavar o cabelo… vida de mãe é difícil, tá? Vou lavar a louça, colocar comida no fogo e você fica com ele, é todo seu, madrinha. Tô tão feliz por você estar aqui, amiga. A gente tem tanta coisa pra conversar! Senti muito sua falta.
A Kaori disse que não ia desgrudar do Pedro nem um minuto. A Daia foi tomar banho e ela ficou sentada na sala com ele no colo, admirando. A Daia saiu do banheiro, foi no quarto secar o cabelo. O Rui chegou já entrando com uma moça. Ela estava na frente, até chamou a Daia. Ela entrou na sala, sorriu e falou pra Kaori:
— Oi, bom dia. A Daia tá aí?
O Rui ficou sério, falou oi pra Kaori sem jeito. Ela disse que a Daia estava no quarto. Ele foi até o quarto. A moça sentou ao lado dela, começou a mexer com o Pedro. A Kaori deu ele no colo dela e disse que ia fazer uma ligação na cozinha. Ela ligou para a Joyce, falou que ia passar lá ver eles à tarde. Elas conversaram um pouco. Ela desligou e voltou pra sala.
O Rui estava de pé na porta, falou pra ela:
— E aí, tudo bem?
Ela respondeu:
— Tô bem, e você? E o Be?
Ele falou:
— Tô bem, tudo em ordem. Ele começou a ir na escolinha de futebol, tá super animado, falando que vai ser jogador profissional.
Ela disse que, se ele não jogasse igual ao pai, que tinha chances. A Daia veio de lá com uma sacola nas mãos, deu para o Rui. Ela falou pra moça:
— Oi, Rê, tudo bem? Essa é a Kaori, a minha melhor amiga e madrinha do Pedro. Kaori, essa é a Renata, namorada do Rui.
A moça respondeu surpresa, colocando o Pedro no colo da Kaori:
— Ahhh, enfim conheci a famosa Kaori que todos falam tanto. Você vai ficar até quando aqui? A gente podia fazer alguma coisa todo mundo junto, né?
Ela sorriu e respondeu sem jeito:
— Famosa? Imagina… m*l falada talvez. Esse fim de semana não dá, mas quem sabe da próxima?
Ele ficou sério todo o tempo. Falou pra Renata que precisavam ir logo. Ela se despediu da Kaori, super simpática. A Kaori fez o mesmo. A Renata e a Daia foram saindo na frente, conversando. Ele se aproximou da Kaori e falou, mexendo com o Pedro:
— Foi bom ver você. Desculpa não poder ficar pra conversar, faz tempo que a gente não se vê.
Ela respondeu ainda desconcertada, tentando disfarçar:
— Não tem nada não, eu tô super corrida esse fim de semana… mas parabéns pelo namoro. Fico feliz por você, de verdade!
Ele percebeu o tom de decepção dela. Ela não conseguiu disfarçar e ficou um clima chato. Até a Daia ficou desconcertada com a situação toda. Ele agradeceu, disse que era recente, deu tchau, passou a mão no braço dela. Não teve beijo no rosto nem abraço. Ele foi embora.
A Daia voltou pra dentro já pedindo desculpas, disse que não esperava eles lá. A Kaori disse que não tinha nada demais, que já estavam separados há mais de cinco meses e que ele merecia ter alguém legal. A Daia respondeu:
— Você também merece. E por que tá sozinha ainda? Ele ficou super sem jeito com a situação.
Ela perguntou se a Daia podia guardar um segredo muito sério sobre outra pessoa, fez ela prometer e falou:
— A Bibi tá grávida e a nossa vida tá bem conturbada lá. Ela tá doente, depressiva, não se cuida, ignora a gravidez como se não existisse. Ela falta do trabalho sem atestado, aí descontam do pagamento dela. Sem contar que os pais dela tiraram ela do convênio e ela não tá tendo a assistência que precisa. Eles nem falam com ela, proibiram ela de ver a irmã mais nova. Tá ficando pesado pagar tudo lá dividindo com ela desse jeito. Eu tô tão cansada de trabalhar na firma, sabe? Lá é pior que no mercado, por incrível que pareça. Desculpa tá te trazendo problemas, eu só tenho você e as duas lá pra conversar. A Maria tá m*l porque não consegue emprego e o seguro vai acabar.
A Daia abraçou ela, disse que não tinha nada demais, que elas eram amigas pra tudo. Ficaram conversando sobre a Bibi. A Daia perguntou quem era o pai. A Kaori disse que nem a Bibi sabia. Ela então contou que viram o Diego e ela juntos no carnaval antes de brigarem, que a briga foi porque ela deu pra dois amigos dele de uma vez só, porque ficou com raiva dele estar ficando com outras.
Muito surpresa, a Kaori disse que a Bibi estava mentindo há meses, que ela já havia suspeitado que ela ficava com o Diego. A Daia perguntou o que já tinham comprado para o bebê. A Kaori respondeu chateada:
— Nada. Ela não quer comprar, fica falando que vai entregar pra adoção ainda no hospital. Tenho medo dela fazer algo contra ela mesma. Eu conheço ela há uns dez anos, nunca a vi desse jeito. Ela nem sabe o que é o bebê, disse que não deu pra ver e quanto menos souber, melhor pra não se apegar. Eu não consigo entender como ela pode ter mudado tanto. Fiquei arrasada só de imaginar que eu podia ter um pedacinho de gente assim, tão frágil e dependente de mim. Isso não parece justo, né? Se eu não tivesse perdido, eu ia estar feliz demais, mesmo com as dificuldades. Acredito que ia estar do mesmo tempo que ela e tenho certeza que a minha vida seria outra… muito melhor!
A Kaori começou a chorar falando. Comentou que estava péssima porque encontrou os convites de casamento e disse que, apesar de sentir muita falta de todos lá, não cabia mais ela na vida deles todos. A Daia disse que com certeza tinha muito espaço pra ela lá e que ela ia poder ser o quanto quisesse mãe do Pedro, que um dos motivos dela ter escolhido ela foi pela perda prematura dela.
A Kaori estava muito chateada com a Lisa, e a Daia sempre tentando colocar panos quentes, vendo todos os lados. Elas almoçaram juntas. A Lisa retornou preocupada por ter recebido tantas ligações. A Kaori mentiu que já estava indo embora, mas disse que voltaria em breve, dali dez, quinze dias. A Lisa ficou chateada, disse que podia ir até a casa dela, que precisavam conversar sobre várias coisas. Ela disse que não dava, como sempre, acabou acatando a decisão da Kaori.
A Daia disse que ia guardar tudo do Pedro para o bebê da Bibi e prometeu guardar segredo. A Kaori só foi embora à noite. Ela foi pra casa do Juliano, a Joyce estava cozinhando especialmente pra ela. Ela foi tomar banho, depois foi sentar na cozinha e ficou olhando o Juliano com o Victor no colo, pensando que ela ali era completamente insignificante. Ela também sentiu ciúmes devido às circunstâncias, vendo que aquela família parecia estar completa e feliz.
Ela conversou com eles, falou do trabalho, contou sobre a Bibi e pediu segredo. O Juliano ficou revoltado, falando que um pai e uma mãe nunca deviam fazer aquilo com uma filha, que era inadmissível e que ele ia se segurar pra não falar umas verdades aos pais da Bibi. Comentou que trocaram o carro por um modelo mais novo, melhor. A Kaori disse que esperava que, com o nascimento do bebê, a Bibi viesse a ter mais consciência de tudo.
A Joyce também se prontificou a ajudar com doações do Victor, já foi separando sacolas e mais sacolas com roupas, sapatos, cobertores. Ela tinha fraldas novas, pacotes fechados. A Kaori disse que ia esperar um pouco pra levar porque a Bibi podia não gostar e ficar com raiva.
Depois que o Juliano foi dormir, as duas ficaram conversando. A Kaori perguntou se eles sabiam do casamento da Lisa. A Joyce disse que sim, que graças a Deus estavam tendo um relacionamento saudável todos eles. A Kaori sorriu irônica e respondeu:
— A sementinha podre sou só eu mesmo. Vou embora cedo amanhã, nem vou ver minha mãe.