Capítulo 26

1447 Words
Logo elas foram embora . Kaori se sentiu péssima, irritada, confusa, triste e com raiva de Daniel, de Thomás e dela mesma. No dia seguinte acordou quase na hora do almoço. Ela e Bibi trabalhavam às treze horas e foram trabalhar cheias de sono e de ressaca. Bibi comentou que não sabia se odiava mais Thomás por ser safado ou Rafaela por ser tão legal. Quando saíram do trabalho, Bibi já estava marcando de ver o cara de novo, enquanto Kaori só queria dormir. Foi para casa, tomou banho e deitou. Por volta das dezoito horas, o interfone tocou. Era Rafaela. Kaori deixou ela entrar já meio tensa, Rafaela entrou sorrindo, carregando um pote. — Oi gatinha, te mandei mensagem e você não respondeu. Desculpa aparecer assim. Fiz panquecas e trouxe pra você. Obrigada por ontem. Quando a gente namora, as amigas se afastam e isso é muito chato. Sinto falta de amizade feminina. Kaori pegou o pote e respondeu: — Imagina, não precisava... mas eu já quero comer. Eu que devia te agradecer por colocar a gente na lista. Conversaram bastante, e antes de ir embora Rafaela comentou que Thomás parecia chato, mas que não era, e que logo elas iam acabar se enturmando mais. Kaori acompanhou ela até a porta, voltou e foi comer sentada no balcão. O pai dela sentou com ela e começaram a conversar sobre a auto escola. Joyce comentou que tinha ganhado um carro dos avós quando fez vinte anos e o Juliano brincou: — Quem sabe você não tem a mesma sorte aos vinte, filha. Kaori riu e respondeu que os pais dela não tinham condições. Ele falou que no momento não tinha, mas que talvez dali alguns meses desse para negociar alguma coisa, desde que ela tirasse uma boa nota no Enem e conseguisse bolsa. Kaori disse que achava difícil. Joyce começou a falar sobre cursinhos preparatórios, e o pai insistiu que ela precisava decidir logo o que queria fazer da vida, para poder focar nisso de verdade, assim como Miyuki fez. Kaori reclamou da comparação, porque Miyuki nunca precisou trabalhar fora. O pai respondeu que, diferente dela, Miyuki não dava gastos, porque o salário de Kaori praticamente era todo para ela gastar consigo mesma. Kaori disse que ainda nem sabia se queria entrar na faculdade. Mas ele, como sempre, era rígido com estudos. Rígido até demais. Ele disse que o próximo ano seria grandioso para todos eles, que Miyuki e Kaori estariam na faculdade, a família iria aumentar e muita coisa boa estava por vir. Kaori olhou surpresa para os dois e perguntou: — Por quê? Ela está grávida? Os dois começaram a rir e disseram que ainda não, mas que pensavam em casar e fazer algo pequeno, só para os familiares mais próximos. Kaori ficou apenas observando aquilo, achando estranho como podiam pensar em casamento namorando há um ou dois meses apenas. Joyce começou a falar que já tinha namorado muito, que também passou muito tempo sozinha e que não tinha mais tempo para ficar esperando as coisas acontecerem, até porque o relacionamento deles era completamente diferente de tudo o que ela já tinha vivido. Eles pareciam muito apaixonados, em sintonia, e às vezes aquilo incomodava Kaori de um jeito que ela nem sabia explicar. Depois de terminar de comer, Kaori foi dormir cedo, antes mesmo das vinte horas. No dia seguinte acordou com o despertador tocando “Doin Time”, da Lana Del Rey. Desligou o alarme, colocou música baixinho no quarto e foi tomar banho. Começou a se arrumar com calma, colocou os fones de ouvido quando ficou pronta e foi tomar café da manhã sem mexer no celular. Quando desceu com o pai para ir trabalhar, deu uma olhada rápida no aparelho, mas não visualizou quase nada. Tinha mensagens da mãe, de Bibi e alguns grupos, nada demais. Entrou no trabalho sem responder ninguém. Na hora do almoço ficou até ansiosa, porque queria muito receber mensagem de Daniel. E recebeu. Ele mandou bom dia, desejou uma ótima semana, todo carinhoso como sempre. Kaori respondeu fria: — Obrigada, boa tarde. Daniel perguntou se estava tudo bem, mas ela não respondeu mais nada durante o almoço inteiro e voltou para o trabalho. Quando saiu, viu que ele tinha mandado mensagem perguntando o que ela ia fazer à noite. Então respondeu: — Tudo mais ou menos. Não estou me sentindo bem, está rolando uns problemas aqui em casa. E você? Foi bom seu fim de semana? Vi as fotos, foram passear, né? Daniel perguntou o que estava acontecendo na casa dela e disse que o fim de semana dele tinha sido bom. Contou onde foram, o que fizeram, comentou também sobre as fotos dela, mas Kaori parou de responder enquanto ia para casa. A mãe tinha mandado mensagem perguntando se ela estava bem. Desde que tinha caído do muro da casa dela, não tinham se visto mais. Quando Kaori estava daquele jeito, de cabeça virada, respondia só coisas objetivas para não deixar no vácuo, mas também não dava a******a para continuar o assunto. Chegou em casa, limpou tudo e foi deitar. Acabou dormindo e acordou com febre e dor no corpo. Quando o pai chegou, deu atenção a ela, perguntou se estava bem, e Kaori disse que no dia seguinte iria à farmácia ou ao pronto-socorro se não melhorasse. As mensagens de Daniel ainda estavam lá. Respondeu dizendo que não estava bem. Ele disse que queria vê-la por volta das dezoito ou dezenove horas, porque tinha algo importante para conversar. Mesmo com febre, Kaori levantou, tomou banho e falou para o pai que ia até a casa de Bibi ajudar ela com algumas coisas. O pai pediu para mandar mensagem se piorasse. Kaori e Daniel marcaram de se encontrar na casa dele. Ela foi de Uber, como quase sempre, e ele pagou. Assim que entrou pelo portão percebeu que ele estava diferente. Não a beijou e se manteve distante. Kaori estranhou na hora e perguntou: — O que você tem de importante pra falar? Ele respondeu: — Vem, vamos entrar. Aqui fora dá eco e os vizinhos podem ouvir que tem gente aqui. Essa é a última vez que vamos nos ver aqui, vou começar a arrumar tudo com a Cíntia. Kaori ficou parada, encarando ele séria. Aquilo soou estranho. Respondeu: — Ok, sem problemas. Ele então perguntou: — Você falou de nós pra alguém? Kaori respondeu: — Só a Bibi sabe. Porque ela é minha melhor amiga e não vai contar pra ninguém. Daniel explicou que a noiva estava diferente, desconfiada, fazendo perguntas demais, grudada no celular dele, olhando redes sociais, reparando em tudo. Kaori falou: — Da minha parte está tudo certo. O que ela disse? Ele respondeu: — Sei lá... falou que estou distante, tratando ela diferente. Mas eu estou do mesmo jeito com ela, pra mim nada mudou. Kaori olhou surpresa, falou irritada. — Nada mudou? Ficou quieta. Daniel percebeu e tentou se explicar: — Tipo... com ela estou igual, nada mudou. Mas agora tenho você, está entendendo? Estou falando que ela não tem por que achar que estou diferente. Acho que alguém falou algo pra ela. Fiz ela pensar que estou pilhado por causa do casamento e acho que ela acreditou. Kaori respirou fundo e respondeu: — Aham... entendi. Então também não é vantagem pra mim que alguém saiba. Se depender de mim, tudo fica só entre nós dois. Os dois estavam de pé nos fundos da casa, um na frente do outro. Daniel passou a mão no rosto, cansado, e falou: — Não fica brava comigo, Kaori. Eu estou com a cabeça cheia. Tem muita coisa acontecendo. Você não tem nada a perder, mas eu tenho. Tenta entender meu lado. Fui longe demais, não sei como resolver isso, porque por mais que eu tente me afastar eu não consigo, e me sinto m*l. Ela não merece isso. Kaori olhou séria para ele e respondeu: — Aham... eu sei das suas condições. A Cíntia não merece isso, entendi. Tem mais alguma coisa pra falar? Era só isso? Daniel se aproximou, encostou ela na parede e segurou o rosto dela, fazendo Kaori olhar direto para ele. Disse que não queria que ela ficasse brava, que tudo estava difícil demais para ele, e começou a dar pequenos beijos nela, tentando quebrar a tensão. Kaori respondeu, ainda dura: — Não está fácil pra ninguém, pelo jeito. Ele então falou que queria se despedir da casa com ela, disse que estava subindo pelas paredes, que queria ficar com ela porque Kaori tinha acostumado ele m*l. Mas Kaori recuou e respondeu: — Não dá. Eu só vim porque achei que você tinha algo importante pra dizer.
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