Capítulo 43
A Kaori saiu e foi sentar na sala de espera. Os pais da Joyce chegaram primeiro. A Kaori aproveitou para ir embora antes mesmo do Juliano chegar. Foi para casa de Uber e mandou mensagem para a Bibi, dizendo que precisava de ajuda.
A Bibi ligou preocupada. A Kaori disse que precisava de um lugar para ficar no fim de semana. Na mesma hora, a Bibi convidou, disse que estava de mudança, passou o endereço certinho.
A Kaori passou em casa, arrumou a mochila bem rápido, tomou banho, se trocou e, em dez minutos, enquanto esperava o Uber, escreveu algumas coisas na agenda. Mandou um áudio para a Lisa, dizendo que ia passar o fim de semana na casa da Bibi, porque a Joyce tinha ido ganhar bebê e ela não queria perder a folga de jeito nenhum.
Quando o Uber chegou, ela ligou para a Daia e perguntou do Rui. A Daia disse que ele tinha saído e perguntou se estava tudo bem. A Kaori disse que sim, que queria entregar uma coisa. A Daia disse que estava em casa se fosse resolver.
A Kaori passou lá e deixou a agenda embrulhada em papel de presente. Pediu para a Daia não falar nada, só entregar quando ele chegasse.
Era sábado à noite. A Kaori foi para a cidade da Bibi de ônibus. Quando chegou ao terminal, começou a chorar. Desceu do ônibus às pressas. Elas se abraçaram. A Bibi perguntou o que tinha acontecido. A Kaori respondeu:
— Todo mundo vai saber da verdade e eu estraguei tudo. Venho me lembrando de várias coisas há bastante tempo, mas eu decidi mentir. Eu não queria ser aquela pessoa que eu era. Não me julga, por favor. Foi por mim, não por ninguém. Eu sinto muito por mentir pra você e te testar mexendo com o Diego. Eu precisava saber se você ainda era minha amiga de verdade.
A Bibi ficou desacreditada, falou que a Kaori era doente, talvez uma sociopata, mas falou brincando. Disse que iam resolver tudo como sempre fizeram, uma passando pano para a outra. A Bibi abraçou a Kaori, fez várias perguntas e levou ela para casa, uma kitnet minúscula.
O Juliano tentava falar com a Kaori, e ela só respondia por mensagem, com medo de todos eles. A Lisa também ficou atrás dela, achando que tinha algo errado acontecendo.
A Kaori contou tudo nos mínimos detalhes para a Bibi. Disse que estava apaixonada pelo Rui e que não sabia se ele ia perdoar, porque ele tinha dado oportunidades para ela contar a verdade e ela escolheu mentir. Disse que foi covarde, lamentou muito por ter estragado tudo, se culpou bastante.
A Bibi chorou muito junto, ficou super triste de saber que podia ter feito mais pela Kaori. Confessou que o Juliano e a Lisa a convenceram de mentir sobre tudo que podia acarretar um surto na recuperação dela. Eles tinham medo de ela tentar se matar de novo, porque a perícia constatou que a Kaori bateu o carro de propósito.
A Bibi também disse que não contou quase nada do Flávio para eles e que não só ela, mas outras pessoas próximas, foram instruídas a mentir também, para um bem maior da Kaori.
Aquilo acabou com ela de vez. A Kaori se sentiu muito traída, pois apesar de não lembrar de tudo certinho, sabia que tinha pego os pais na cama traindo a Joyce antes do acidente. A Kaori ficou muito m*l, querendo morrer.
A Bibi deitou abraçada com ela, tentou ajudar de todas as maneiras possíveis. O resto do fim de semana, a Kaori ficou deitada, chorando, passando m*l. A Bibi foi realmente uma amiga e disse que ia apoiar qualquer decisão dela, fosse continuar mentindo ou contar logo a verdade.
No domingo, a Kaori conversou com a Joyce para ter notícias. Soube que o Felipe virou Victor. O Juliano ficou louco com a quantidade de coisas bordadas que não iam poder usar, mas gostou do nome. A Joyce pediu para ver a Kaori pessoalmente, e ela disse que iria lá visitar o irmão assim que possível.
O Rui não procurou ela de forma alguma. Ela ficou muito ansiosa, esperando receber uma mensagem ou ligação. Ela faltou ao trabalho na segunda-feira, deixando a Lisa louca atrás dela desde domingo à noite, quando ela não foi para casa. Na segunda, a Kaori foi embora decidida a sair do trabalho, se mudar e ir morar com a Bibi, recomeçar sem tantas mentiras. Saber que os pais mentiram tanto mexeu muito com a cabeça dela.
Ela foi ao mercado falar com a encarregada, disse que estava com muitos problemas e que queria fazer um acordo. Naquela mesma semana, ela foi despedida. Para ajudar, nem fizeram acordo, só mandaram ela embora mesmo. A semana toda ela se calou, quase não falou com ninguém, e a Lisa ficou sem entender aquele comportamento, sempre buscando uma forma de conversar.
Na quarta-feira, a Kaori falou que não ia mais ao restaurante, avisou a Lisa no final do expediente. Só na quinta contou que havia sido demitida do mercado. Chorando, a Lisa perguntou o que estava acontecendo, pediu para a Kaori falar por que ela estava diferente daquela forma. Ela respondeu sentada à mesa da cozinha, séria:
— Sabe o que mais me deixa admirada, mãe?! É uma pessoa que m*l me conhecia notar que eu estava lembrando das coisas e você, minha mãe, não. Em tão pouco tempo, o Rui viu o que nem você nem meu pai viram. Por isso ele não fala mais comigo, porque queria a verdade e eu não quis dar. Insisti na mentira sem pensar nas consequências. Pareceu mais fácil perder um namoradinho do que encarar a merda da minha vida. Só que ele foi a razão de eu ter ficado bem e nada mais tá fazendo sentido. Eu não sabia que vocês pediram pra todo mundo mentir pra mim. Você pode falar que queria me proteger, mas na verdade só queria proteger a si mesma e o seu ex-marido infiel. Eu tive que dirigir pra ajudar a Joyce, e ela disse que meu segredo estava seguro, colocou um nome semelhante ao meu no bebê dela. Engraçado, eu sinto vergonha de estar perto dela mentindo, escondendo que ela é corna, como se a amante fosse eu. Eu tô cansada de tantas mentiras. Eu não aguento mais essa vida, essa casa, você e meu pai.