Capítulo 44
A Lisa começou a tentar explicar, pedindo perdão. Disse que não tinha notado porque estava feliz demais com a vida delas, com o amadurecimento e o bem-estar da Kaori. Disse que há anos não a via tão feliz. Tudo o que ela falava parecia falso aos ouvidos da Kaori.
Ela comunicou à Lisa que ia embora naquele fim de semana para outra casa, outra cidade. Foi logo falando que era maior de idade e que eles não iam conseguir segurá-la lá de jeito nenhum. Disse que precisava ficar longe e sozinha, ir viver a vida dela.
A Lisa foi logo chamando o Juliano para ir lá. Ele foi à noite. A Kaori estava sozinha. Ele não sabia ainda que ela havia se lembrado de algumas coisas. Ela jogou na cara dele que ele estava tão entretido com a nova família que nem havia notado as mudanças dela. Ameaçou contar tudo para a Joyce se ele tentasse impedir ou chantagear ela. Ela ignorou bastante os dois, estava realmente decidida. Brigaram muito, os dois com ela e um com o outro. Até os vizinhos puderam ouvir.
Ela estava muito triste com a rejeição do Rui e postou uma indireta com uma foto triste:
“Será que me apaixonei por outra ilusão?”
Outra foto séria com a legenda:
“Me pego me sentindo tão louca agora.”
Ela organizou tudo para se mudar no sábado de manhã, depois que a Lisa fosse trabalhar. Os dois estavam péssimos, muito preocupados e arrependidos. Fizeram ofertas, pediram perdão, mas a Kaori só ignorou. Não contaram a ninguém a verdade de que ela estava mentindo há meses.
Assim que a Lisa foi trabalhar, o Rui chegou lá de moto. Ela ouviu e saiu no portão sem saber o que esperar. Ele estava encostado na moto, falou oi, estava sério. Ela se aproximou. Ele devolveu a agenda e falou que aquilo era com certeza muito maior do que ele imaginava, que ele tinha certeza de que ela estava mentindo, mas que não tanto.
Ela ficou chateada, disse que não fez por m*l ou para fazer ninguém de b***a, que fez por ela mesma porque não queria ser quem era antes do acidente. Ele disse que ela podia ter contado a ele, porque ele nunca iria expor algo tão íntimo, que não era justo ela ter mentido tanto tempo, tantas vezes, logo pra ele que estava sempre disponível pra ela.
Ela respondeu chorando:
— Não era sobre você, poxa. Era sobre eu e a minha vida. Você acabou de chegar, não podia me cobrar uma coisa tão grande, caramba. Eu ia te contar no momento certo!
Ele respondeu, desencostando da moto e pegando o capacete:
— Beleza, se é isso que você pensa, só mostra como você é egoísta e o quanto continua a mesma de antes. A gente tinha tudo pra fazer dar certo, uma vida diferente, se era essa sua meta. Eu ia te pedir em namoro, resolver nossa situação, mas você preferiu mentir e brincar comigo. Esperei uns dias pra vir te ver porque não queria perder a cabeça e brigar. A gente nem chegou a ter nada sério e já era. Mas você me decepcionou muito, de verdade. Sua mãe disse que você ia embora, vim te devolver sua agenda e eu nem sei se posso acreditar em tudo que li, porque foram tantas mentiras que eu nem sei mais reconhecer o que é verdadeiro vindo de você. Boa sorte aí e pode ficar tranquila que, por mim, ninguém vai saber de nada.
Ela respondeu chorando que ele estava sendo injusto e julgando ela, que por esse tipo de coisa ela não quis contar nada. Ele disse que já tinha avisado que odiava mentiras e que, de qualquer forma, não queria só estar perto dela, mas que não a odiava, que na verdade sentia pena, porque ela mesma se auto sabotava o tempo todo.
Ela respondeu:
— Eu já aprendi a te perder. A única certeza que eu tinha era sobre você. Depois do acidente, tudo mudou, mas tá tudo certo. Obrigada por tudo. Você me fez muito bem por muito tempo. Me sinto grata por tudo que vivemos, apesar de ter terminado assim. Você me ensinou muita coisa boa. Sem você, eu nem teria conseguido. A culpa é minha mesmo, você tá certo. Eu sentiria sua falta mesmo se eu não te conhecesse.
Ele já estava na moto. Desceu, tirou o capacete e foi até ela. Abraçou-a e falou chateado:
— Daqui a 50 anos eu ainda vou saber o seu nome e vou me lembrar de todas as vezes que você me fez sorrir e sentir raiva. Bons momentos se tornam boas lembranças. Maus momentos se tornam grandes lições. Você é muito nova ainda, princesa, tem muita coisa pra viver. Garanto que daqui a um ano nem vai lembrar que eu existo, vai passar por mim e fingir que nem me conhece. Sinto muito que as coisas estejam acontecendo assim.
Ela sorriu chorando e falou, acariciando o rosto dele:
— Não tem como esquecer um palhaço como você. Fins são inevitáveis, e muitas vezes nós nem temos culpa, a vida é que se encarrega de dar fim às coisas.
Ele concordou, deu um abraço, pediu pra ela se cuidar e tomar juízo. Disse que ela ia encontrar alguém legal um dia, alguém disposto a entrar de cabeça junto com ela, alguém compatível de verdade. Se despediram com um beijo que ela pediu. Ele ficou nitidamente mexido com aquela despedida complicada, quase chorou. Ficaram abraçados mais um pouco, muito próximos. Ela se afastou, sorriu e foi entrando. Ele foi embora arrasado, deixando o orgulho falar mais alto.
Ela entrou, terminou de arrumar o que faltava. Logo a Bibi chegou com o pai dela. A Kaori passou no restaurante para se despedir da Lisa, disse que quando pudesse ligava. Ela estava fria, distante da mãe, nem se aproximou para abraçar. Quis devolver as chaves de casa, a Lisa não aceitou. Chorou bastante, disse que as portas sempre estariam abertas pra ela. Quis abraçar, e a Kaori m*l correspondeu. Até a Ivone chorou na despedida, abraçou a Kaori, falou que não era pra ela sumir, que se fosse o melhor pra ela, estava tudo bem.
A Kaori não se despediu do Juliano nem da Joyce. Ela só conversava com a Joyce por mensagem, e bem pouco. Não foi nem visitar o Victor nenhuma vez.
Ela ia receber seguro-desemprego, tempo de serviço, sacar o FGTS. Pensou em tudo com a Bibi. Optaram por dividir a kitnet pra economizar. Até a cama iam dividir.