Kaori disse que não dava porque o pai já devia estar esperando por ela. Levantou, pegou a mochila e se preparou para sair. Daniel então a chamou mais uma vez e perguntou:
— E se eu ficasse livre de uma vez, você ficaria comigo? Pra valer mesmo?
Kaori respondeu que não estava em condições de dar respostas concretas naquele momento. Daniel a puxou delicadamente pela cintura, aproximou o rosto do dela e perguntou bem baixinho:
— Você ainda quer ficar comigo?
Os dois se beijaram devagar, em instantes aumentaram muito a intensidade. Kaori sentiu algo completamente inesperado, um beijo diferente de todos os outros que já haviam trocado, foi afetuoso, desesperado. Mesmo assim, afastou-se com calma, olhou profundamente nos olhos dele, já chorando, e falou:
— Você não vai fazer isso comigo de novo, não mais! Você só está me procurando porque ela não te quer por enquanto, mas, se ela quiser, você vai voltar na mesma hora, sem nem olhar para trás. Esquece que eu existo!
Daniel respondeu que agora tudo era diferente, porque finalmente estaria livre para que eles tentassem viver um relacionamento de verdade. Kaori apenas disse que precisava ir embora. Virou as costas e começou a sair. Antes que ela fosse embora, ele perguntou como faria para encontrá-la ou falar com ela novamente. Kaori respondeu apenas que ele não iria encontrá-la. Aquilo doeu muito mais nela do que nele, disso ela tinha certeza.
O pai dela já estava esperando do lado de fora. Assim que entrou no carro, Kaori começou a chorar. Ele perguntou o motivo, mas ela respondeu que não queria compartilhar aquilo com ninguém. Os dois fizeram o caminho de volta para casa praticamente em silêncio. Assim que chegaram, ela foi direto para o quarto e dormiu.
No dia seguinte, voltaram a conversar sobre comprar outro celular, mas Kaori disse que preferia ficar alguns dias sem aparelho. Durante toda aquela semana, depois do trabalho, permaneceu somente em casa, sempre sozinha. Na quinta-feira fizeram um bolo surpresa de despedida para Bibi, mas Kaori não participou de nada, já que as duas nem estavam mais se falando. Soube pelos colegas que Bibi iria embora no domingo.
Na sexta-feira de manhã aconteceu seu exame prático da autoescola. Ela conseguiu trocar o horário no trabalho para dar tudo certo. O pai a levou até o exame e, depois de ser aprovada, Kaori voltou de ônibus para casa. Ficou arrasada por não ter ninguém com quem compartilhar aquela conquista. Antes de sair para trabalhar novamente, deixou um bilhete em casa:
"Fui aprovada!! Vou chegar tarde. Não esquece que vou trabalhar em outro horário hoje. Não precisa me buscar se estiver ocupado ou com a Joyce."
Como sairia apenas depois do mercado fechar, se o pai resolvesse buscá-la já saberia o horário.
Durante o expediente ficou sabendo que Bibi realmente se mudaria no domingo. Bibi nem olhava mais para ela. Kaori pensou várias vezes em procurá-la para fazer as pazes, mas desistiu. Imaginava que, morando longe e namorando, Bibi acabaria deixando a amizade em segundo plano. No fundo, elas sempre foram daquele jeito.
No meio do expediente, Lisa ligou no mercado para falar com ela. Perguntou como tinha sido o exame da autoescola. Kaori respondeu que havia sido aprovada. Lisa ficou extremamente animada, disse que daria um jeito de buscá-la ou mandaria um Uber para que as duas saíssem juntas.
Quando Kaori saiu do trabalho, encontrou os pais do outro lado da rua. Eles pareciam estar discutindo. Sem entender nada, atravessou a rua e foi até eles. A mãe enxugava as lágrimas.
Olhando para o pai, Kaori perguntou:
— Por que ela está chorando?
Ele respondeu enquanto colocava a mão no ombro da ex-esposa:
— Não é nada, filha, coisa nossa. Sua mãe e eu viemos te buscar, mas preparei um jantar pra você. Acho melhor você ir comigo e amanhã ou domingo fica com ela. Pode ser?
Assim que ele encostou nela, Lisa recuou imediatamente, olhando para ele com muita raiva. Kaori voltou a perguntar o que estava acontecendo e por que estavam brigando. A mãe respondeu que não era nada demais e começou a dizer que elas marcariam alguma coisa para domingo.
Kaori respondeu sem pensar duas vezes:
— Vou com a minha mãe!
O pai retrucou:
— Não, Kaori. A Joyce e eu fizemos um jantar pra você. Tenho uma surpresa também.
A mãe a abraçou e disse:
— Vai com seu pai comemorar, Kaori. Estou muito feliz por você. Depois a gente conversa e você me conta tudo.
Mesmo percebendo o quanto a mãe estava triste, Kaori respondeu de forma irônica:
— Com certeza a Joyce vai entender que eu prefiro a minha mãe do que ela. Eu não vou com você, pai.
Ele ficou bravo e disse que aquilo era uma bela encenação da mãe. Lisa mandou que ele fosse para a pu.ta que pariu. O pai riu com arrogância e debochou dela, dizendo para procurar um namorado.
Kaori respondeu imediatamente, já tomada pela raiva:
— Hoje você trata a minha mãe assim, né? Covarde! Você é um fraco. Acha que a Joyce vai cuidar de você daqui dez ou quinze anos? Ela vai meter chifre na sua cabeça com um novinho com a metade da sua idade.
Os dois estavam muito próximos. O pai levantou a mão como se fosse lhe dar um tapa. A mãe entrou desesperada na frente da filha.
Chorando de raiva, Kaori gritou:
— Bate! Vai, pode bater! Nada se compara ao inferno que está essa droga de separação de vocês. Eu só queria comemorar a minha conquista, conversar com a minha família, e vocês estragaram tudo!
O pai respondeu que só queria levá-la para casa para entregar o celular novo. Kaori se afastou e respondeu:
— Você acha que eu só preciso de presentes e coisas de valor, não é? Tô de saco cheio disso tudo!
Ela saiu andando. Como a rua era contramão, a mãe a chamou diversas vezes, pedindo que fosse embora com ela. Kaori deixou os dois para trás e foi até o ponto de ônibus. Entrou no primeiro ônibus que passou, sem pensar direito para onde ele seguia. Não deu tempo de os pais conseguirem dar a volta para alcançá-la.
Quando percebeu, já estava em um bairro completamente diferente. Como era tarde, desceu no terminal. Tentou ligar para qualquer pessoa. Sabia poucos números de memória. Ligou para Bibi, mas caiu direto na caixa postal. Ligou para Miyuki apenas para conversar, mas também não conseguiu falar com ele.
Sentou-se e começou a chorar de raiva de si mesma. Então resolveu ligar para a última pessoa que imaginava que pudesse ajudá-la: Daniel.
Chamou até cair na caixa postal. Como estava usando um orelhão, resolveu fazer uma ligação a cobrar. Assim que desligou, apoiou a cabeça no aparelho e continuou chorando. Levou um susto quando o telefone tocou novamente.
Atendeu sem dizer nada.
Do outro lado ouviu:
— Alô... quem é? Oi? Esse número me ligou agora há pouco.
Com medo de Daniel estar acompanhado de Cíntia, afinal era sexta-feira, Kaori resolveu desligar. Quando já estava colocando o fone no gancho, ouviu:
— Kaori, é você? Fala comigo!
Ela respondeu baixinho:
— Oi... te acordei?
Daniel respondeu que sim e perguntou se estava tudo bem. Kaori respondeu apenas:
— Aham...
Ele percebeu imediatamente que ela estava chorando e perguntou:
— Você tá sozinha?
Ela respondeu perguntando:
— Você tá sozinho?
Daniel respondeu que sim e quis saber onde ela estava. Kaori passou o endereço. Ele foi buscá-la imediatamente.
Ela permaneceu sentada esperando. Assim que Daniel chegou, desceu do carro, caminhou até ela e lhe deu um abraço apertado que a fez se sentir protegida como havia muito tempo não se sentia. Depois perguntou:
— O que você tá fazendo aqui sozinha essa hora?
Kaori respondeu:
— Briguei com meus pais. Eu não aguento mais os dois brigando e me jogando de um lado pro outro.
Daniel respondeu:
— Você não pode fazer essas coisas. Tá sem celular e, se eu não tivesse atendido, o que você ia fazer? Aqui é perigoso. Vem, vamos sair daqui.
Os dois entraram no carro. Daniel perguntou para qual casa ela queria ir. Kaori respondeu que só precisava de um tempo para se acalmar.
Ele então falou:
— Não sei se você vai aceitar, mas podemos ir pra minha casa.
Kaori perguntou se não havia risco de alguém aparecer. Daniel respondeu que não, porque Cíntia passaria alguns dias longe dele. Os dois seguiram para lá. Durante o caminho, Kaori permaneceu deitada no banco de trás para que nenhum vizinho a visse.
Quando chegaram, a casa já estava completamente montada. Daniel comentou sobre o tapete queimado. Fingindo não saber de nada, Kaori perguntou:
— Mas por que tinham velas na sala? Vocês dois estavam aqui juntos e não viram o fogo?
Enquanto caminhava até a cozinha, Daniel respondeu:
— Foi tudo muito rápido. Você tá com fome? Posso fazer um lanche pra você.
Kaori respondeu que não queria comer nada. Mesmo assim, Daniel continuou oferecendo algumas coisas e acabou preparando um chá. Ela ficou sentada observando. Ele colocou a xícara na frente dela, sentou ao seu lado e perguntou:
— Você vai ficar pra dormir?
Kaori respondeu:
— Não sei. É seguro mesmo? Me conta tudo o que aconteceu. Você falou de mim pra ela?
Daniel respondeu:
— Não falei de você. Só disse que fiquei algumas vezes com uma mulher que conheci no trabalho. A Cíntia odeia mentiras, então achei melhor contar a minha versão antes que outra pessoa contasse.
Os dois continuaram conversando sobre tudo o que tinha acontecido entre ele e Cíntia. Segundo Daniel, ela havia pedido um tempo antes de tomar qualquer decisão.
Depois de algum tempo, Kaori disse que queria tomar banho. Daniel a deixou completamente à vontade. Quando ela voltou usando uma camiseta dele, até aquele momento os dois ainda não tinham trocado sequer um beijo. Daniel arrumou a cama e os dois voltaram a conversar, dessa vez sobre os pais dela.
Kaori se deitou. Daniel perguntou se havia problema em dormir ao lado dela. Ela respondeu que não. Ele deitou abraçado com ela e os dois continuaram conversando até que Kaori acabou adormecendo.
Na manhã seguinte, Daniel a colocou em um Uber para que voltasse para casa. Antes de ela entrar no carro, os dois se despediram e ele disse que queria vê-la mais vezes.