Kaori começou a rir e Felipe ficou completamente corado de vergonha. Ela agradeceu o elogio e os dois continuaram caminhando, conversando bastante sobre diversos assuntos. Ele pareceu muito compatível com a idade que tinha, contou que estava com 22 anos e que nunca havia namorado sério. Kaori gostou dele, achou que era um cara legal, educado e agradável de conversar, mas não sentiu atração. Quando chegaram ao prédio do pai dela, trocaram os contatos, despediram-se com um beijo no rosto e ele nem sequer tentou beijá-la. Felipe já estava indo embora quando Kaori correu até ele e lhe deu um selinho. Ele sorriu, um pouco surpreso, e disse que avisaria quando chegasse em casa.
Logo depois, a mãe de Kaori ligou perguntando o que ela queria. Kaori respondeu que queria vê-la, caso ela não fosse sair. A mãe explicou que iria ao mesmo lugar em que tinha ido outro dia com Ivone. Kaori então respondeu que era melhor deixar para outra ocasião, porque ela realmente não queria ir até lá. A mãe perguntou se estava acontecendo alguma coisa e Kaori respondeu que não. Então ela falou:
— Amanhã vou estar livre cedo. Se quiser, pode ir em casa.
Kaori permaneceu em silêncio por alguns instantes. A mãe voltou a perguntar:
— Kaori, tá tudo bem mesmo?
Ela respondeu que sim. A mãe então insistiu:
— Por que você não fica na minha casa? Eu te deixo lá e depois saio. Hoje é o único dia que consigo me divertir, só por isso não quero desmarcar.
Kaori respondeu que não queria atrapalhar, que ficaria em casa mesmo e que outro dia elas marcariam alguma coisa. Desligou rapidamente, porque ainda estava no prédio e nem tinha entrado no apartamento.
Naquela noite, conversou com Felipe até dormir. Ele disse que queria levá-la a um lugar escolhido por ele da próxima vez que saíssem. Demonstrou bastante interesse por ela durante toda a conversa.
No domingo, Kaori foi trabalhar e acabou nem vendo a mãe. Quando saiu do serviço, foi até a casa de Bibi. Rafaela, Thomás e Diego também estavam lá, sentados na garagem, conversando bebendo. Kaori sentou-se com eles, mas preferiu não beber. Contou às meninas que Felipe a havia encontrado do lado de fora da balada. Rafaela perguntou se eles tinham ficado e Kaori respondeu:
— Não. Nem um beijo.
Bibi começou a reclamar, dizendo que Kaori estava ficando boba e perdendo oportunidades. Ela respondeu:
— Cansei de ter atitude demais. É muita bobeira entrar em tudo de cabeça. Agora vou ficar mais no meu canto.
Thomás entendeu a indireta, olhou para ela por alguns segundos e logo desviou o olhar. Cansada de ficar segurando vela, Kaori disse que iria embora. Rafaela a chamou para conversar em um canto e perguntou se ela não queria continuar a conversa do dia anterior. Kaori respondeu que não, agradeceu o carinho e foi para casa dormir.
Na segunda-feira, Kaori tinha aula prática na autoescola. Daniel havia marcado ainda na sexta-feira que os dois se encontrariam depois da aula. Como ele não mandou mensagem pela manhã, ela achou estranho. Saiu do trabalho e continuava sem nenhuma notícia dele. Foi fazer a aula normalmente e, quando estava voltando para casa, pediu ao motorista do Uber que passasse em frente à casa de Daniel. O carro dele estava estacionado bem na frente. Kaori foi para casa com muita raiva, porque ele nem sequer a avisou de que não iria aparecer e, por causa disso, ela havia deixado de fazer duas aulas.
Já eram vinte e trinta quando Daniel finalmente mandou mensagem:
"Oi, desculpa por não te avisar. Acabei esquecendo, estava ocupado. Podemos nos encontrar hoje? Onde você tá?"
Kaori respondeu:
"Estou em casa. Perdi de fazer duas aulas porque achei que a gente ia sair. Tô deitada, não tenho como ir pra rua agora."
Daniel respondeu que seria rápido, que só precisava vê-la por um minutinho e que era muito importante. Como na noite seguinte ela teria curso, Kaori sugeriu que se encontrassem antes da aula. Ele aceitou.
Ela passou o dia inteiro sem falar com ele. À noite, foi até o curso já com a intenção de faltar. Pediu ao pai que a deixasse mais cedo, esperou alguns minutos e saiu dali. Encontrou Daniel perto da escola. Entrou no carro e percebeu que ele nem tentou beijá-la. Como já estava chateada, fez exatamente a mesma coisa.
Daniel quebrou o silêncio:
— Oi, Kaori, tudo bem? Precisamos conversar.
Ela respondeu séria:
— Tudo. O que foi?
Ele explicou que preferia conversar um pouco mais longe do trabalho. Durante o caminho fez algumas perguntas simples, apenas para quebrar o silêncio. Depois estacionou o carro em uma rua onde os dois costumavam ficar.
Kaori comentou que não iria assistir à aula naquela noite.
Daniel respondeu:
— Não vou demorar, dá tempo. Como você sabe, falta pouco tempo para o meu casamento e nós dois sabemos que não está sendo fácil esse nosso envolvimento. Você vai entender quando eu terminar de falar. Não existe uma hora certa para terminar uma coisa que nem deveria ter acontecido.
— Conversei com um amigo meu esse fim de semana e ele me fez enxergar tudo com mais clareza. Não posso pensar só em mim. Tenho que pensar em você e na Cíntia. Não é justo com ninguém, eu já te disse isso. Você merece alguém que seja só seu. É muito bom estar com você, mas isso precisa acabar. Já foi longe demais.
Kaori permaneceu olhando pela janela, ouvindo tudo em silêncio. Quando ele terminou, respondeu calmamente:
— Tá bom. Eu queria ser ingênua o suficiente pra ficar surpresa, mas não sou.
Daniel ficou extremamente sério, parecendo muito abatido. Abriu o porta-luvas, pegou uma sacolinha de uma loja de chocolates e entregou para ela.
Disse que não queria terminar como se ela fosse alguém que não tivesse significado nada em sua vida, porque ela tinha sido muito importante para ele, mas que havia aparecido em um momento completamente errado.
Kaori respondeu:
— Daniel, não precisa ficar se justificando. Eu sempre soube que era errado. Vou sentir muito a sua falta, mas tá tudo certo. Você gosta dela e eu nunca nem tive chance.
Daniel respondeu que não era daquela forma, que ela estava magoada e tinha todo o direito de se sentir assim.
Kaori então falou:
— Eu prefiro ir embora sozinha. Então terminamos aqui.
Ela o abraçou. Foi forte, não chorou e nem brigou. Mesmo assim, sentiu-se completamente sem chão, como se tivesse fracassado.
Daniel ainda insistiu dizendo que a levaria de volta para o curso. Kaori abriu a porta do carro e respondeu que não queria assistir à aula naquela noite. Ele insistiu mais uma vez, mas ela permaneceu firme e pediu apenas que ele a deixasse ir.