Capítulo 6
As contas não paravam de chegar: muitos medicamentos caros para Kaori, gastos com consultas e exames. Juliano estava ajudando, mas ele mesmo não tinha uma condição tão boa no momento, ainda mais com a casa dele pra manter e os gastos com a gravidez da Joyce e também com o Miyuki.
Lisa não estava aceitando dinheiro dele e era quem estava pior. Começou a trabalhar desde cedo até a noite para ganhar mais, dobrando o turno no restaurante. Antes de tomar a decisão, sentou-se junto com Kaori para conversar. Ela não gostou muito, porque aquilo ia ocupar todo o tempo da mãe. Sua maior preocupação nem foi ficar sozinha, mas ver Lisa se esforçando tanto.
O dinheiro que Kaori recebeu do INSS foi para os próprios gastos. Ainda precisava pagar o celular que havia sido roubado e o cartão de crédito. Juliano estava indo várias vezes na semana vê-la e sempre a convidando pra ir à casa dele.
No dia da consulta com o psicólogo, ela se sentiu insegura pra ir sozinha e comentou com o pai. Ele disse que não podia levá-la, mas Joyce estava livre. Foram juntas. Depois, foram fazer compras no mercado. Joyce conhecia bastante gente. No mercado, encontraram Daniel. Ela fez parecer que foi por acaso, mas há semanas ele pedia pra ela dar um jeito de deixar que visse Kaori.
Apresentou-se como funcionário da escola de cursos que ela frequentava. Kaori olhou pra ele, sorriu, falou “oi” e disse que não se lembrava de curso algum. Joyce explicou que ele sabia do que tinha acontecido. Ele ficou muito surpreso ao vê-la olhando pra ele como se fosse um desconhecido. Ficou mexido, tentando disfarçar.
Ela perguntou se eram amigos. Ele respondeu que não muito próximos e perguntou se podia dar um abraço nela. Ela sorriu, envergonhada:
— Pode. Desculpa por não me lembrar de você. Por enquanto, tô evitando sair, revendo as pessoas pouco a pouco. Acho que para o curso eu não volto!
Ele disse que estava feliz por vê-la bem, se despediu e foi embora. Ela nem deu muita atenção ao encontro; logo começou a falar de comida com Joyce. Depois, foram pra casa de Juliano. As duas estavam se conhecendo, e Joyce era muito legal com Kaori, o que ajudou muito na convivência delas.
Ficaram juntos até de noite. Kaori jantou com eles e depois o pai a levou pra casa. Lisa já estava em casa com visita; tinha saído um pouco mais cedo. Juliano, curioso, perguntou de quem era aquele carro.
— Acho que é do amigo da minha mãe. Ele sempre vem aqui e eles saem bastante juntos também. Não me recordo do modelo exato do carro! — respondeu.
Ele ficou louco pra descer, mas se conteve. Ela estava mentindo para deixar o pai enciumado; lembrava muito bem que só tinha visto Carlos uma única vez. Talvez, na cabeça dela, achasse que havia chances dos pais voltarem.
Entrou curiosa nunca tinha visto ele lá em casa. Os dois estavam sentados à mesa conversando. Ele tinha ido jantar com Lisa, esperando a comida chegar. Ela se sentou com eles, contou como foi a consulta. Para deixá-los à vontade, foi tomar banho e depois se deitou.
Às vezes, trocava algumas mensagens com Rui. Ele trabalhava o dia todo, sem mexer no celular, e os dois não sabiam muito bem sobre o que conversar. Mandou uma mensagem perguntando se ele tinha alguma música legal pra enviar. Ele perguntou se ela queria algum gênero específico.
— Tem que ser animada! — respondeu.
Ele mandou forró e sertanejo. Começaram a conversar. Ela comentou que tinha ido à consulta semanal. Ele perguntou como foi e se tinha tido algum avanço.
— Foi deprimente e reconfortante. Lembro de quase tudo o que conversamos. Você continua sendo bem estranho pra mim, e nos testes estou vendo que algumas preferências são as mesmas. É como se eu soubesse fazer coisas, não que lembre de ter aprendido, mas faço no modo automático.
Ele disse que aquilo era bom e perguntou que coisas sabia fazer no modo automático.
— Mexer no celular, computador, Netflix, fazer laço de presente, coisas que aprendi no trabalho. São bobagens, você não vai entender!
— Não são bobagens, são grandes passos pra você. Posso te dar um conselho? — perguntou ele.
Ela concordou.
— Não tenta dirigir no modo automático, porque tenho certeza de que você não aprendeu o suficiente.
Ela riu, dizendo que não ia se arriscar tão cedo a fazer coisas perigosas ou constrangedoras. Ele perguntou se ela tinha alguém antes, um namorado, se alguém tinha falado disso.
— Acredito que não. Parece que eu tinha um ficante secreto, minha mãe não sabe quem era. Mas terminamos com certeza, porque, do contrário, ele teria me procurado, né? Ninguém me procurou pra falar esse tipo de coisa. E você? Tem quantas namoradas e ficantes?
Ele respondeu que não tinha nenhuma, porque mulher dava muito gasto e trabalho. Conversaram sobre relacionamentos. Ela perguntou se ele já tinha namorado e quantas vezes.
— Cinco — respondeu. — E com uma fui casado, tivemos um filho.
Ela ficou surpresa, não sabia nada desse filho. Ele mandou fotos: o menino tinha cinco anos.
Rui perguntou se ela já tinha namorado.
— Não, minha família que disse. Eu era baladeira, gostava de sair, curtir bastante! A única pessoa que poderia me contar tudo é a minha melhor amiga, mas estamos brigadas.
— Com 15 anos, você fazia o quê? — perguntou.
— Beijava na boca apenas — respondeu.
Ele riu e disse que não estava se referindo a isso, mas que, com 15, também só beijava. Ela ficou envergonhada, com medo de ele começar a falar de sexo, deu boa noite e disse que ia dormir.
No dia seguinte, ele mandou mensagem no fim da tarde convidando-a para fazer companhia à irmã dele no jogo de futebol.
— Quando vai ser? — perguntou ela.
— Hoje, daqui a pouco. Vou dar seu número pra ela, ela vai passar te pegar. Preciso guardar o celular aqui. Se você vier, faço um gol pra você! Combinado?!
— Combinado! — respondeu animada.
Correu tomar banho; era quase 19h. Quando Daia chegou, já estava pronta. Foram de carro; a irmã dele dirigia. Conversaram bastante, o namorado de Daia também estava jogando.
Quando chegaram ao ginásio, tiraram uma foto juntas pra mandar para as mães, que ficaram superfelizes. Rui deu tchau pra elas. Não fez nenhum gol. Depois que acabou o jogo, foram até elas.
Kaori cobrou o gol prometido, e ele disse que ficou nervoso com a presença dela lá. Começaram a zombar dele, dizendo que jogava m*l. O pessoal ia sair pra comer juntos, mas ela preferiu ir pra casa. Rui se prontificou em levá-la, mas avisou que estava de moto, tinha ido com o cunhado. Daia falou:
— Vai com o carro e leva ela, a gente fica com a sua moto.
Eles foram embora sozinhos. Ela falava do jogo e da época em que estudava. Ele perguntou se gostava de algum tipo de exercício.
— Provavelmente não — respondeu, rindo.
Ele sugeriu que fizessem juntos coisas aleatórias, pra ela ir descobrindo do que gostava ou não, e voltar logo ao mundo real.
— Não é má ideia, mas vou precisar esperar o braço melhorar.
— Dá pra fazer muita coisa assim mesmo. A começar por andar de moto — respondeu ele, sorrindo.