Capítulo 7
Ela disse que ia pensar e, na despedida, fez questão de lembrar que ele estava lhe devendo uma, por causa do gol que não fez.
Na sexta-feira, Kaori se convidou pra passar o fim de semana com o pai. Queria deixar a mãe com a casa livre pra namorar, já que ouviu Lisa comentando com Ivone que não levaria Carlos pra dormir lá com a filha em casa. Na casa do pai, teria companhia o tempo todo também.
Chegando lá, Juliano a deixou na portaria e foi buscar Joyce. Ela subiu e ficou testando as chaves na porta, quando Thomás saiu das escadas e se aproximou.
— Oi, Kaori. E aí, tudo bem?
Assustada, ela derrubou as chaves no chão. Ele se aproximou mais, e ela apenas respondeu com um “oi”. Ele comentou que ela estava sumida e perguntou se não ia voltar a morar lá. Ela abriu a porta e respondeu:
— Acho que não. A gente já se falou outro dia, não é? Seu rosto não me é estranho. Eu esqueço coisas que vivi antes do acidente, mas estou guardando melhor as memórias novas.
Ele confirmou que já haviam se falado. Ela disse que não lembrava sobre o que, e ele contou, aproveitando pra dizer que queria poder vê-la mais, conversar e ter notícias. Surpresa, ela respondeu:
— Ok, legal. Me passa seu contato, eu te mando um “oi”. Vou ficar aqui alguns dias, a gente pode conversar, andar no condomínio… aí você me conta como era nosso contato.
Ele achou uma boa ideia. Ela salvou o número dele e já mandou um “oi” assim que entrou. Quando Juliano voltou com Joyce, os três foram juntos pra cozinha.
Kaori perguntou quem andava com ela, quem eram os amigos antes do acidente. O pai disse que já tinha contado semanas antes: Bibi, Rafaela e Thomás. Joyce começou a falar sobre o aniversário e o presente que Rafa e Thomás haviam dado.
— Eu não lembrava que vocês já tinham me contado isso. Por que essa Rafaela não me procurou ainda? Não faz sentido se éramos tão próximos — respondeu Kaori, confusa.
Falaram que eles estiveram no hospital no início de tudo. Joyce comentou:
— Olha, Kaori, você tinha dito algo sobre ela e a Bibi estarem te excluindo. Talvez uma delas possa te contar tudo. Por que você não tenta falar com elas?
Ela disse que faria isso. Como estava mais fácil conversar com Thomás, começou a puxar assunto por mensagem. Ele disse que pessoalmente seria melhor e a chamou pra ir à casa dele. Ela recusou, dizendo que não dava. Ele insistiu, convidando-a pra conversar nas escadas, o que a deixou surpresa, começou a achar ele meio assanhado, estranho.
— Meu pai disse que posso te receber aqui. A gente pode conversar melhor — respondeu.
Ele aceitou e desceu em quinze minutos. Juliano estava na cozinha e passou pela sala no momento em que ela recebeu Thomás. Cumprimentaram-se e ele foi para o quarto. Os dois se sentaram na sala.
Kaori comentou que estava curiosa sobre ele, já que não achou nenhuma rede social sua. Ele explicou que estava sem há algumas semanas. Sentado ao lado dela, olhando para a televisão, parecia tenso e sem jeito. Ela levantou-se, pegou refrigerante e serviu os dois.
— Eu nem sei por onde começar. Talvez você vá pensar o pior de mim — disse ele.
Ela pediu pra ele começar do início, pra que pudesse conhecê-lo melhor.
— Namorei por anos uma menina incrível, mas tudo foi mudando e eu vacilei. Então terminamos de forma r**m. Ela também pisou na bola comigo, e vocês eram amigas. Nós todos éramos — contou.
Confusa, ela perguntou por que não eram mais amigos. Ele se virou pra ela e disse que estava apaixonado por ela há meses.
— A Rafaela sabia? — perguntou, surpresa.
— Sabia. Chegou um momento em que tive que contar — respondeu ele.
— Por isso ela não me procurou depois do acidente?! Mas a gente não teve nada, né? — perguntou aflita.
Chateado, ele respondeu:
— Não. Eu nem tinha certeza até que terminei com ela e me afastei de você. A Rafa é muito legal, sabe? Tenho certeza de que vai querer sentar e conversar com você, porque é assim, gosta de resolver as coisas. Somos amigos hoje em dia. Pra mim, isso é complicado, ainda mais agora que você não se lembra e pode achar que sou algum tipo de cafajeste. Kaori, eu fiz tudo que pude pra tentar salvar meu namoro. Não deu certo, e a culpa não foi sua, sabe?
Ela não gostou nada daquilo. Disse que não podia ter aquele drama todo na vida naquele momento e pediu pra ele dar um tempo.
— Larguei meu namoro de anos e tô aqui te dizendo que gosto de você. Só quero que você me conheça de novo e me deixe te mostrar tudo. Sei que parece estranho e nem posso te cobrar nada que você não lembra, mas acho que você ia querer tentar — insistiu ele.
Ela se levantou e pediu pra ele ir embora. Ele disse que daria o tempo que ela precisasse, ressaltando que só queria se aproximar novamente.
Tudo aquilo pareceu surreal pra ela, uma história m*l contada. Sabia que só uma pessoa poderia revelar tudo: Bibi.
No sábado, no dia seguinte, mandou uma mensagem perguntando se podiam se encontrar. Bibi respondeu que podia tentar ir no domingo e perguntou se estava tudo bem.
— Não tô nada bem, tô vivendo um verdadeiro inferno. Às vezes acho que eu preferia ter morrido. Você tem o número do Enzo? — escreveu Kaori.
Bibi passou o contato e perguntou o que estava acontecendo, se ela estava lembrando de tudo.
— Não, nada. Branco total. É por isso que quero ver vocês — respondeu.
— As duas pessoas em quem eu mais confiava no mundo.
Bibi disse que ia dar um jeito de ir. Conversaram um pouco, mas Kaori não adiantou nada por mensagem.
Então, enviou uma mensagem para Enzo:
“Oi, é a Kaori, tudo bem? Espero que sim. Esse é meu número novo. Se algum dia vocês quiserem vir aqui me visitar, vou ficar muito feliz. Vi seu face, sua filha é linda, eu adoraria conhecer ela. Minha mãe disse que você tem sido meu amigo por todos esses anos, então por isso resolvi te mandar essa mensagem. Estou bem, me recuperando, só não lembro dos meus últimos cinco anos de vida. Isso é bem chato, pra ser sincera.”
Ele visualizou e ligou na mesma hora. Conversaram por mais de dez minutos. Ele contou como estava a vida dele, fez perguntas sobre ela e prometeu ir vê-la assim que possível.
Ela passou o resto do dia no sofá, pensando no que Thomás havia dito...