Capítulo 50

1749 Words
Capítulo 8 Ela já imaginou que não devia confiar nele, afinal, que tipo de homem namoraria anos e ia se apaixonar pela amiga da namorada? Joyce passou o dia em casa com Kaori. Ficaram assistindo e comendo bobagens. À noite, ela e Juliano saíram para ir na casa dos pais dela, e Kaori não quis ir. Quando não queria, inventava uma dor de cabeça ou náusea, às vezes era real, mas nem sempre. Tomou banho e foi deitar na sala; era por volta das 19h30. O interfone tocou, ela levantou sem saber o que esperar e foi surpreendida por Enzo. Espontaneamente, os dois sorriram um para o outro, e ele a abraçou bem forte. — Você não pode nunca mais me dar um susto desses — disse ele, emocionado. — Eu estava morrendo de saudades. Você está bem? Ainda abraçados, ela respondeu. Ambos se emocionaram. — Esse é um dos melhores abraços de todos — disse ela. — Parece o mais sincero e afetuoso. Atrás dele, Bibi falou: — E aí, galera, tô aqui, sabia?! Vocês são nojentos! Os dois se olharam bem de pertinho, ainda abraçados, e sorriram. Ele deu um beijo no rosto dela e a soltou. Ela abraçou e beijou Bibi, rindo: — Aiii, você continua chata?! A gente não tem culpa de você ser uma pedra de gelo, amiga! — Tava com saudades até de brigar com você — respondeu Bibi, rindo. — Como estão as coisas? Kaori os chamou para entrar. Bibi logo disse que estava faminta. Foram para a cozinha. Kaori sentou no balcão ao lado de Enzo, enquanto Bibi ficou de pé, preparando um lanche, mexendo nos armários e na geladeira como se estivesse em casa. — O que eu preciso saber de mais importante? — perguntou Kaori, direta. Os dois se olharam. Bibi riu; ele ficou mais sério. — Nem sei por onde começar — disse Bibi. — Por que nós brigamos antes do acidente? E como fizemos as pazes anos atrás? — perguntou Kaori. — Eu me lembro que não estávamos numa boa, nem eu com você e nem com o Enzo. Eles começaram a contar. Na época, iam a muitas festas de todos os tipos e ficaram muito amigos nos anos seguintes. Bibi aproveitava para inventar mentiras brincando, e Enzo ia corrigindo. Quando Kaori perguntou se eles ainda ficavam, Bibi gargalhou: — Não, foi só aquela vez, você deve se lembrar. É que ele era muito “de todas”, e eu sou ciumenta. Mas ele mesmo te conta com quem estava ficando nos últimos anos. Enzo não queria falar e tentou mudar de assunto. Começaram a falar da mulher e da filha dele. — Elas eram minhas colegas, estudamos juntas — comentou Kaori. — Nem mais colegas — corrigiu Bibi. Kaori olhou para Enzo, esperando uma resposta. Ele falou sem jeito: — A gente ficou várias vezes, e ela tem ciúmes de você por isso. Nossa amizade incomodava muita gente, sabe?! Bibi olhou para ele e fez um sinal. Ele levantou os ombros, confuso. — Vou comer na sala — disse ela, saindo e deixando os dois sozinhos. Kaori olhou para ele, segurou na mão dele e falou: — O que você não quer falar? Eu não lembro de nada, confio muito em vocês dois. Posso estar enganada, mas me fala tudo, seja lá o que for, por favor, Enzo! A minha vida está um caos, e eu tenho a sensação de que todos estão me escondendo as coisas o tempo todo. Ele respirou fundo e contou: — Você... perdeu a virgindade comigo. Faz uns quatro anos, mais ou menos. Surpresa, ela arregalou os olhos. — Nossa... isso é bem marcante. E como foi? Tipo... eu quis? A gente tava ficando sério? Só me fala o porquê e como. — A gente ficava às vezes. Você quis porque confiava em mim... e eu quis porque, na verdade, sempre quis ficar com você. Ela ficou constrangida, corada. — Quem mais sabe disso? — perguntou. — Só nós três, provavelmente. Mesmo ficando bastante, você tinha vergonha de todo mundo saber da gente. — E ficou acontecendo mais vezes? A gente transou de novo? — insistiu. Ele contou que se afastaram e ficaram estranhos, porque ela mudou depois da primeira vez. Contou tudo, até que tentaram ficar sério recentemente e não deu certo. Mas não falou que estava gostando dela, nem sobre o abuso que ela sofreu, nem que ela o fez de bobo várias vezes. Depois, os dois foram pra sala com Bibi. Ficaram conversando até de madrugada. Juliano chegou enquanto ainda estavam lá, os dois sempre foram bem-vindos. Enzo foi embora para dormir na casa dos pais, e Bibi ficou para dormir lá. As duas se abraçaram; Kaori agradeceu pela visita. — Apesar de tudo, ainda te amo, viu — disse Bibi. — Mas tudo o quê? — perguntou Kaori, chateada. — Eu te magoei? Você não tá contando tudo, e eu me sinto i****a. As pessoas estão se aproximando e falando de coisas que eu não faço ideia. Me conta tudo, Bibi! — Quais pessoas? O que te falaram? — perguntou Bibi, preocupada. Kaori contou como foi a conversa com Thomás, e Bibi confirmou toda a versão dele. Eles estavam mentindo para ela, com a intenção de proteger Rafaela, que tinha certeza de que fora a única causadora do acidente. Nenhum dos dois sabia do término com Daniel, nem do flagra que ela dera nos pais. De fato, todos estavam mentindo. Bibi disse que era amiga da Rafaela e que podia marcar algo para as duas conversarem. Já era madrugada quando foram deitar. Kaori pegou o celular, jogado no canto desde que os amigos chegaram. Tinha duas mensagens do Rui e uma chamada perdida. A primeira dizia: — Oi, como você tá? Depois, veio a ligação e outra mensagem: — Tá afim de sair hoje? Minha irmã pediu pra te mandar mensagem, ela vai junto e disse que tá cansada de ser a única menina. Já faziam horas que ele tinha mandado. Ela respondeu: — Oi, obrigada pelo convite. Desculpa não responder, estava com visita. Acabei nem vendo. Ele visualizou e não respondeu. Ela foi dormir; não conversaram mais. No domingo, os pais de Bibi iam fazer um almoço especial para comemorar a visita da filha. Ela convidou Kaori, dizendo que ia apresentar Diego. Juliano levou as duas até lá. Rafaela marcou de ir também. Quando chegou, Kaori estava sentada na cama da Bibi. Apontou na porta, séria, com Bibi ao lado, mas logo sorriu: — Oi! Tava ansiosa pra te ver. Rafaela entrou no quarto, sem jeito. Kaori levantou; elas se cumprimentaram com um beijo no rosto e sentaram na cama, uma de frente pra outra. — Vou levar o Diego pra falar com a minha família — disse Bibi, saindo e deixando as duas a sós. Rafaela estava tensa. — Como você tá? Tá se recuperando bem? — perguntou. — Fisicamente, sim — respondeu Kaori. — Mas minha memória é como lâmpadas queimadas. Algumas talvez voltem, outras acho que nunca mais. Perdi meus últimos cinco anos. Mas isso você já deve saber. Todo mundo vive falando de mim por aí. — Já comentaram, sim... todos ficaram muito preocupados — respondeu Rafaela. — Imagino. Me fala da gente. Somos amigas? Me conta tudo! — pediu Kaori. Quase chorando, Rafaela respondeu: — Sim, somos. Assim que você se mudou, a gente ficou amiga. Conversávamos bastante, saíamos juntas. Eu realmente fui sua amiga... fiz tudo o que pude. Eu sinto muito. — Por que sente muito? — perguntou Kaori, confusa. Com os olhos cheios de lágrimas, Rafaela falou: — Não posso ser sua amiga mais. Achei que ia dar, mas não consigo! — É por causa do Thomás? — perguntou Kaori. Chorando, Rafaela disse que sim. — Me desculpa... eu não lembro, mas sinto muito por tudo isso. Olha, eu não conheço ele e nem quero conhecer, tá bom? Se ele é o tipo de cara que faz uma merda dessas, eu não quero nada com ele — respondeu Kaori, abraçando-a. Na verdade, Rafaela, além de traída, se sentia culpada, porque julgou m*l a amiga, e isso acarretou na separação dela com o noivo. — Você não tem culpa de nada, Kaori. No coração, ninguém manda — disse ela. — Eu só quero o bem do Thomás. Ele sempre foi muito sincero, até contra ele mesmo, pra cuidar de você. Bibi interrompeu chamando as duas para almoçar. Ambas estavam chorando. — Eu não vou ficar — disse Rafaela, limpando o rosto. — Só queria te pedir pra dar uma oportunidade ao Thomás. Ele merece. Acredito que tudo isso aconteceu por um motivo maior, que a gente ainda não entende. Se despediram. Rafaela foi embora de alma lavada, achando que estava ressarcindo Kaori de alguma forma, oferecendo Thomás de bandeja. Tudo estaria perfeito, o enredo deles, os grandes mentirosos, se Kaori nunca viesse a se lembrar da noite do acidente. Ela jamais perdoaria a mentira, e com toda a razão. Bibi apenas reforçava tudo, mentindo junto. Eles tiveram tempo para planejar, já que por semanas nenhum deles conversou com Kaori. Depois do almoço, Juliano foi buscá-la. Ela mandou uma mensagem para Thomás: — Conversei com a Rafaela. — E como foi? — perguntou ele. — Estranho, mas legal. Gostei muito dela. — Todos gostam. Não tem como não gostar — respondeu ele. Os dois conversaram por mensagem a tarde toda. Pareciam dois estranhos. Ela fez muitas perguntas e respondeu como pôde às dele. À noite, ele disse que ia tocar em um barzinho. Ela achou legal, mas recusou o convite. Ficou até segunda-feira à tarde na casa do pai. Quando Juliano chegou do trabalho, foi levá-la pra casa. Queria conversar com Lisa sobre alguns gastos. Como ela chegaria mais tarde, pediu pra Kaori dar o recado. Quando Lisa chegou, ele foi até lá novamente. Os dois queriam conversar sozinhos, e Kaori avisou: — Vou sentar na calçada e chamar alguém. Mandou mensagem para Rui: — Tá fazendo o quê? Ele visualizou e não respondeu. Logo, Kaori viu ele encostando de moto com uma mulher. Mesmo de longe, pôde ver. Demoraram pra sair. Entrou, Juliano foi embora, e os dois ainda estavam lá. Foi dormir e só viu a resposta no dia seguinte, cedo: — Nada, e aí? Ela não respondeu. Os dois pararam de conversar, era um duelo de egos. Kaori estava entretida com Thomás, que era superlegal e fazia mais o tipo dela, então nem deu muita importância...
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