Capítulo 9
A Rafaela e a Bibi falaram a mesma coisa, que, se ela quisesse, não havia nada de errado em dar uma chance para o Thomás. A intenção dela era conhecê-lo melhor; sempre preferiu amizades masculinas, afinal.
Na quinta-feira, depois da consulta com o psicólogo, ela foi para a casa do pai com a intenção de conversar com o Thomás pessoalmente. Marcaram de se encontrar lá embaixo, perto do parquinho. Ele desceu primeiro, já era de noite. Quando ela chegou, se surpreendeu: ele estava com o violão. Cumprimentaram-se com um beijo no rosto, e ele falou:
— Levei o Aslan, pra você não ficar constrangida com o show ao vivo exclusivo.
Ela sentou no chão com o cachorro, e ele ficou no banquinho. Ela falava nomes de cantores e ele tocava o que sabia. Realmente, ele era um fofo. Os dois só conversavam como se tudo entre eles fosse realmente novo; ele não falava do passado e ela não perguntava. Ficaram mais de uma hora juntos, e ela estava interessada, mas com medo.
Quando foram subir, ele falou:
— Vamos de escada? Como antes?
Ela respondeu surpresa:
— Acho que não, mas pode ir. Por que a gente andava pela escada?
— Por causa do Aslan. E por costume — explicou ele.
Ela disse que ia de elevador mesmo. Despediram-se normalmente, como amigos. Antes de dormir, ela mandou uma música que havia descoberto na internet. Ele respondeu dizendo que ia tocar pra ela na próxima e comentou que adorou estar com ela.
Ela respondeu dizendo que foi legal, que ficava muito sozinha e que estava sendo bom ter alguém pra conversar.
Lisa sempre ligava pra ela depois do trabalho, especialmente quando Kaori não estava em casa. Como de costume, ligou; começaram a conversar.
— Você tá lembrando de sábado? — perguntou Lisa.
— Não… o que é sábado? — perguntou ela.
— É o aniversário da Daia! Eu te falei duas vezes. Vai ser naquela casa de festas perto de casa. Você não tá me enganando, né, mocinha? Esquecendo o que te convém? — brincou Lisa.
Ela riu:
— Nãooo, mãe! Mas eu tenho que ir mesmo?
— Seria bom, filha. A Ivone e o pessoal de lá têm sido muito legais com a gente.
— Tá, eu vou pelo menos um pouco — respondeu Kaori. — O que eu compro de presente?
— Comprei uma sandália rasteirinha. Compra maquiagem, a Daia adora — respondeu Lisa.
Na sexta-feira, Joyce levou Kaori pra comprar o presente. Foram juntas pagar uma loja em que Joyce comprava roupas sempre. Kaori começou a olhar vestidos largos, pensando na barriguinha da madrasta, que já estava crescendo rápido. Super carinhosa, Joyce insistiu para que ela escolhesse algo pra usar na festa.
Tudo incomodava Kaori, que estava muito magra; vivia se queixando das roupas que tinha. Acabou escolhendo um macacão tomara que caia, com zíper nas costas, ótimo pra usar com o braço engessado. Ficou feliz, agradeceu com um abraço.
À noite, Thomás disse que tinha um show pra fazer. Ainda assim, na esperança, Kaori ficou na casa de Juliano.
No sábado, Thomás foi trabalhar, e não se viram. Ela voltou pra casa por volta das 17h30, se depilou brigando com o braço r**m, lavou o cabelo de cabeça pra baixo, revoltada com a vida. Começou a se maquiar, secou o cabelo, e a hora foi passando. Ligou pra Lisa e perguntou:
— Que horas você vai pra casa?
— Vou pra festa direto do restaurante. O Carlos vai te buscar daqui meia hora — respondeu Lisa.
— Então eu não vou mais — disse, frustrada.
— Não consigo arrumar a roupa sozinha, e não vou pedir pro Carlos jamais!
Lisa sugeriu que ela colocasse outra roupa.
— Tá bom, eu vejo — disse apenas pra encerrar a conversa.
Nem tentou nada. Cinco minutos depois, mandou mensagem dizendo que não ia porque não se sentia bem com as roupas que dava pra colocar.
Lisa pediu pra ela fazer um esforço.
— Mãe, eu já nem queria ir mesmo. E não quero ir com o Carlos sozinha. Ele é legal, tá bom, mas não tô me sentindo bem, tô ficando nervosa por causa da roupa. Garanto que a Daia nem vai sentir minha falta! Desculpa, não quero ir! — desabafou Kaori.
— Eu ia aí te ajudar, mas vai ser tarde e a gente vai perder o melhor da festa — respondeu Lisa. — Faz um esforço, vai direto pra lá.
— Não, mãe, fica tranquila. Eu fico bem em casa — respondeu ela, encerrando.
Kaori estava sentada na cama, chorando, decepcionada consigo mesma, ouvindo músicas tristes, refletindo sobre a vida que estava vivendo. Só de lingerie, um conjunto preto e vinho com sutiã tomara que caia, ouviu barulho no quintal.
Alguém chamava por ela. No susto, achando que fosse o Carlos, levantou correndo, gritando:
— Já vou!
Se enrolou na toalha e foi até a janela. Era Rui. Ele estava sentado, esperando.
— O que você quer? — perguntou ela, enxugando as lágrimas.
Ele se levantou e foi até a janela.
— Você já foi mais educada, sabia? Só entrei porque chamei várias vezes e você não ouviu com essas músicas ruins aí.
Ela pediu desculpas por não ouvir e foi abaixar o som.
— A Daia mandou eu passar aqui pra te ajudar com a roupa, disse que tava dando errado alguma coisa — explicou ele.
— Não vai precisar, mas obrigada mesmo assim. Isso é coisa da minha mãe! Ela sempre dá um jeito de me fazer passar vergonha — respondeu.
— Eu tava em casa me arrumando. Ia buscar umas coisas antes de ir pra festa. Era caminho — disse ele. — Segundo a Daia, ia ser rápido.
— Não precisa, de verdade — respondeu ela, sentando-se na cama.
— Quer que eu saia daqui pra você se trocar? Você vai comigo, né? — perguntou ele.
Ela até queria ir, no fundo seria bom, mas disfarçou.
— Espera na sala — pediu.
Ele foi sentar. Ela colocou o macacão, que ficou aberto nas costas. Foi até a sala, parou de costas pra ele.
Ele levantou, pediu licença, colocou o forro do zíper pra dentro e encostou na pele dela ao subir. Ela se arrepiou e respirou fundo. Foi espontâneo e ele percebeu.
— Tô mais sensível ao toque — disse ela, envergonhada.
— Sua mão tá gelada.
— É, tá gelada mesmo — respondeu ele, sério.
— Precisa de mais alguma coisa?
— Só calçar o tênis — respondeu ela.
Ele foi atrás dela no quarto. Sem ela pedir, ajoelhou-se e calçou os tênis, amarrando o cadarço com duas voltas.
— Estamos atrasados — avisou.
— Obrigada — disse ela, pegando a bolsa e a sacolinha com o presente.
Ele pegou das mãos dela, vendo a dificuldade. Foram saindo juntos. O irmão dele estava no carro esperando e perguntou:
— Foi ajudar a vestir ou a tirar a roupa, pela demora?
Ela ficou corada. Rui respondeu:
— Também tive que calçar os sapatos. Cala a boca, animal!
Foram buscar o bolo e acabaram contando o segredo da festa: o namorado da Daia ia pedi-la em casamento lá, de surpresa.
No carro, Maicon foi o que mais conversou; Rui estava quieto, e ela também.
Chegando à festa, Kaori ficou surpresa. Tinha muita gente, carros, motos, som alto.
Rui disse que ficaria com o bolo, e Maicon com Kaori. Entraram; Daia veio recebê-los.
— Deu tudo certo com a roupa? — perguntou.
Ela mostrou o zíper que não conseguia fechar sozinha e entregou o presente. Daia guardou e levou Kaori até uma mesa onde estavam as tias dela.
Logo, ela viu Rui conversando com uma loira, a mesma que tinha visto na moto com ele no bairro. Entraram na cozinha juntos e demoraram pra sair. Curiosa, Kaori observava.
A loira e Rui voltaram com jarras de bebidas. A loira se aproximou:
— Oi, você quer caipirinha ou batida de vinho com abacaxi?
— Não bebo, obrigada — respondeu Kaori.
Rui conversava com as tias, e a moça insistiu, sorrindo:
— Alguém te colocou nas companhias erradas, então, porque essas aí não bebem nada que não tenha álcool!
As tias riram. Pouco depois, a moça voltou com uma garrafa de refrigerante, colocou na mesa e disse:
— Esse você toma, né?
Kaori sorriu, agradecendo.
Uma das tias comentou:
— Essa menina é um doce, né? Como o Rui tem sorte!
Kaori ficou quieta, ouvindo. Logo depois, Lisa chegou com Carlos e se sentaram.
Quando Ivone chegou, começou o pedido de noivado. Apagaram as luzes; o namorado de Daia se ajoelhou e colocou a aliança, foi bonito.
Depois do parabéns, no escurinho, Kaori aproveitou pra se afastar. Foi pra cozinha mexer no celular e viu Rafaela postando foto com Bibi no barzinho onde Thomás disse que ia tocar.
Naquele instante, teve certeza: estavam mentindo pra ela.
Enquanto processava o pensamento, duas crianças entraram correndo; uma caiu e bateu a cabeça. O menino começou a chorar; Kaori se abaixou pra ajudar.
— O que foi, Be? — perguntou Rui, entrando.
— Ele caiu — disse ela, tentando acalmar o garoto.
Logo, a loira entrou:
— Conheço esse choro!