Felipe estava nitidamente preocupado com toda aquela situação, enquanto Kaori sentia uma raiva enorme, sem nem saber exatamente de quem ou por qual motivo. Ela disse que era para ele pensar em alguma coisa e falar com ela depois. Enquanto conversavam, viram Daniel chegando ao salão, então Kaori olhou para Felipe e perguntou:
— Será que ele não pode tentar fazer alguma coisa comigo caso se sinta ameaçado? A gente sempre vê essas coisas na televisão, né?
Felipe respondeu que não sabia, mas que, se Kaori estivesse com medo, ele não a obrigaria a participar de nada. Disse apenas que encontraria alguma forma de fazer Cíntia descobrir tudo. Kaori então o chamou para entrarem no salão fingindo ser um casal. Quando os dois entraram de mãos dadas, Daniel ficou pálido e visivelmente nervoso. Felipe foi até ele, cumprimentou-o normalmente e apresentou Kaori como sua namorada. Ela então falou:
— Nós já nos conhecemos, do curso, né, professor?
Daniel praticamente ficou sem voz. Cíntia começou a contar toda animada que tinha sido ela quem havia apresentado os dois. Kaori sorriu e respondeu:
— Você é uma fofa. Vim fazer o cabelo e ainda ganhei o Felipe de brinde.
Durante todo o tempo, Kaori e Felipe permaneceram abraçados e próximos. Bibi já estava pronta. Antes de saírem, Kaori se despediu, desejou melhoras para a mão de Daniel e saiu do salão com Bibi e Felipe. Assim que ficaram do lado de fora, Kaori falou para Felipe que achava melhor se afastar de tudo aquilo. Ele olhou para ela e perguntou:
— Como você entrou nisso? Você parece ser uma menina legal. Por que se sujeitou a uma situação dessas?
Kaori respondeu apenas que tinha acontecido. Bibi começou a dizer que ela precisava cortar completamente o contato, porque ainda poderia ter muitos problemas e o pai surtaria caso descobrisse. Kaori então olhou para Felipe e falou:
— Quer saber? A Bibi está certa. Eu tô fora. Se a minha família ficar sabendo, eu tô na rua.
Felipe respondeu que não queria prejudicá-la, que só precisava de ajuda para fazer Cíntia descobrir a verdade. Kaori sugeriu que ele criasse um perfil falso e contasse tudo. Na verdade, Felipe estava sem coragem e com muita pena da irmã. Quando foram se despedir, ele abraçou Kaori e perguntou se ainda podia mandar mensagens. Ela respondeu que sim, que estava tudo tranquilo. Depois, Kaori foi embora com Bibi.
No sábado, quando Kaori parou para almoçar, viu que tinha onze mensagens de Daniel e quatro chamadas perdidas. No começo, ele perguntava o que ela estava fazendo procurando Cíntia e saindo com Felipe. Depois começou a dizer que não esperava aquilo dela, chamou-a de doente, falou que ela estava perseguindo-o e que não era idio.ta. Acabou completamente com ela ao dizer que estava magoado, porque Kaori tinha começado a sair com o cunhado dele apenas para provocá-lo, agindo como put.a. Ela leu tudo e não respondeu. Ficou muito chateada, mas resolveu guardar tudo o que estava sentindo para falar pessoalmente quando tivesse a oportunidade.
Assim que saiu do trabalho, foi direto para casa, tomou banho e deitou no sofá da sala. O pai chegou logo depois e ficou com ela por algum tempo. Kaori acabou dormindo um pouco e acordou com o celular tocando. Era Felipe ligando pela segunda vez. Ela pegou o aparelho, mas não atendeu. Abriu o w******p e viu que ele perguntava se ela tinha feito ou falado alguma coisa. Kaori respondeu que não e perguntou o motivo.
Felipe explicou que Cíntia tinha chegado em casa chorando e se trancado no quarto, enquanto a família inteira estava nervosa querendo saber o que tinha acontecido. Ele estava no meio de todos, fingindo não saber de nada.
Kaori foi olhar as outras mensagens e encontrou um texto enorme de Daniel dizendo que ela tinha conseguido destruir tudo. Ele falou que, por causa dela, precisou contar a verdade e Cíntia tinha terminado o relacionamento. Disse também que Kaori nunca seria feliz com ninguém, porque era muito inconsequente, egoísta.
Ao mesmo tempo, começou a se declarar, dizendo que ela tinha acabado com todas as chances deles e que, mesmo sendo louco por ela, jamais ficaria ao seu lado depois de tudo aquilo. Algumas partes Kaori nem conseguiu entender direito, porque ele parecia transtornado. Ela não respondeu, apenas ficou preocupada em saber se Daniel tinha colocado o nome dela no meio daquela confusão.
Kaori não fez nada durante o sábado e permaneceu em casa. Joyce chegou a tarde lá, e o Juliano decidiu cozinhar para os três. Enquanto os dois conversavam na cozinha, Joyce passou correndo por Kaori e foi para o banheiro, parecendo estar passando m*l. O pai foi atrás dela imediatamente. Kaori ouviu os dois conversando baixo, mas não conseguiu entender direito. Pouco depois, ele pediu que ela fosse cuidar das panelas.
Quando os dois voltaram juntos, o pai disse que tinha uma novidade e que Kaori seria a primeira a saber: Joyce estava grávida.
Kaori ficou sem reação e respondeu apenas:
— Legal. Parabéns.
Joyce falou que não tinha sido planejado, que havia acontecido mesmo ela tomando anticoncepcional. Kaori permaneceu quieta. O pai então disse:
— Filha, nada vai mudar aqui. Vamos para uma casa maior até o bebê nascer e você vai continuar tendo seu quarto da mesma forma.
Kaori respondeu séria:
— Aham, tá bom. Vocês ficaram noivos só por isso? Dois meses de namoro, resolveram noivar e engravidar? Quem é idi.ota pra acreditar nesse papo furado de vocês? Esse caso é antigo, não é? Você largou a minha mãe pra ficar com ela?
O pai respondeu irritado:
— Kaori, não fale assim. Eu sou seu pai e você vai respeitar nós dois. Eu não queria mais ficar com a sua mãe e tenho o direito de recomeçar a minha vida. Peça desculpas para a Joyce.
Joyce começou a chorar, dizendo que não precisava de desculpa nenhuma. Kaori não falou nada, apenas se levantou e foi para o quarto. O pai começou a gritar que ela ficaria de castigo e não iria a lugar nenhum até pedir desculpas. Kaori pegou algumas coisas, colocou dentro da mochila, trocou de roupa e saiu. Ele só percebeu quando ela bateu a porta. Logo começou a ligar sem parar, mas ela não atendeu. Mandou uma mensagem dizendo para ela voltar para casa caso não quisesse se meter em problemas. Kaori respondeu:
— Eu sou o problema. Não vou voltar. Você não está pensando em nenhum momento na minha mãe e nos sentimentos dela. Você é um covarde. Fica falando m*l dela quando o maior culpado de tudo é você.
Rafaela estava trabalhando, Bibi estava com Diego e a mãe de Kaori também estava no trabalho. Ela caminhou cerca de vinte minutos até chegar ao ponto e pegar um ônibus para a casa da mãe. Pretendia ligar para avisar, mas precisou pegar outro ônibus para chegar ao bairro. Pouco depois de entrar, dois rapazes subiram e começaram a roubar todos os passageiros. Eles levaram o celular novo de Kaori, que ela ainda estava pagando. Ela ficou muito assustada, porque os dois estavam armados, mas não havia muito o que fazer.
Quando chegou à casa da mãe, pulou o muro e ficou esperando. Entrou sabendo que não conseguiria pular novamente para sair. Sentou na área externa e começou a chorar. A mãe demorou bastante para chegar; já passava da meia-noite. Kaori acendeu uma luz do lado de fora. Quando a mãe chegou, percebeu imediatamente que havia algo diferente. Abriu o portão e ficou olhando antes de guardar o carro. Kaori se levantou e deu oi. Lisa entrou, fechou o portão e perguntou o que estava acontecendo, porque o pai dela tinha ligado procurando por ela e ela mesma havia tentado ligar mais de cinco vezes.
Kaori perguntou emotiva:
— Posso ficar aqui hoje?
Lisa respondeu irritada:
— O que está acontecendo, Kaori?
Kaori começou a chorar. Lisa abriu a porta da casa e falou:
— É claro que pode ficar. Só avisa seu pai, por favor. Ele está me enchendo o saco.
As duas entraram. Kaori sentou na sala e Lisa se acomodou ao lado dela, olhando e esperando alguma explicação. Kaori então contou:
— Roubaram meu celular no ônibus quando eu estava vindo pra cá.
Lisa levou a mão à cabeça, aflita, e olhou para ela com reprovação. Kaori continuou:
— Não quero voltar pra lá.
Lisa pegou o celular e começou a gravar um áudio:
— Juliano, a Kaori está aqui. Roubaram o celular dela no ônibus. Ela vai passar a noite comigo e amanhã eu levo ela pra casa.
Assim que enviou, chegaram várias mensagens. Lisa olhou para Kaori, um pouco tensa, e falou:
— Vou tomar banho e depois a gente vê alguma coisa pra comer. Vai guardar suas coisas no quarto, já volto.
Kaori continuou largada no sofá da sala. Lisa fechou a porta do quarto, depois foi para o banheiro e também fechou a porta. Kaori ouviu ela conversando baixo com alguém e foi até o quintal, aproximando-se da janela do banheiro para tentar escutar. A mãe estava discutindo com o pai, dizendo que não o queria ali e que fazia semanas que tentava conversar com Kaori, mas não conseguia por causa dele. Ela chegou a falar alguns palavrões, estava extremamente nervosa e soltando tudo o que guardava. O assunto parecia ser principalmente Kaori.
Kaori foi para o quarto guardar suas coisas, depois voltou para a sala, deitou e ligou a televisão. Já era muito tarde e ela estava completamente para baixo. Acabou dormindo no sofá. Lisa a acordou perguntando se queria comer alguma coisa.
Kaori disse que não e foi deitar na cama. Lisa foi atrás e perguntou por que ela não queria voltar para a casa do pai. Kaori preferiu não falar sobre a gravidez. Lisa disse que conversariam no dia seguinte, aproximou-se, fez carinho nela, deu um beijo de boa-noite e saiu do quarto.
Kaori sentia o corpo pesado e muito r**m, por isso dormiu profundamente durante toda a noite. Acordou com a mãe chamando, dizendo que o pai dela estava lá.
Levantou do jeito que estava, descabelada e sem nem lavar o rosto. Quando foi até a cozinha, viu os dois sentados à mesa. Juliano falou:
— Bom dia, filha. Tudo bem?
Kaori se sentou e respondeu:
— Bom dia.
Ele perguntou o que tinha acontecido com o celular. Kaori respondeu:
— Roubaram no ônibus.
Juliano falou:
— Isso eu já sei. Sua mãe me contou.
Lisa pediu que Kaori explicasse direito tudo o que tinha acontecido. Ela contou toda a situação. Juliano disse que estava feliz porque os assaltantes não tinham feito nada contra ela e nem levado seus documentos. Kaori permaneceu séria e incomodada com ele. Então a mãe dela falou:
— Essa semana a gente compra outro celular pra você. Seu pai dá a entrada e eu pago as parcelas. Tá bom?