Depois de tantos dias sem falar com a mãe, Kaori já estava bastante incomodada com a situação. Antes, aquilo nunca acontecia entre elas. A mãe continuava brava por causa de Miyuki e Kaori nem tinha culpa de nada. Tentou conversar novamente, mas não recebeu resposta.
Quando saiu do trabalho, começou a conversar com Rafaela. Ela a chamou para irem juntas a uma loja.
As duas se encontraram na rua. Bibi não quis ir.
Durante o passeio, Kaori contou sobre o encontro marcado.
Rafaela comentou que sentia falta do começo do namoro, daquele frio na barriga.
Kaori perguntou se ela não estava feliz.
Rafaela respondeu:
— Estou muito. Sou louca pelo Thomás desde sempre... mas é complicado. Eu tenho depressão e nem sempre sou eu mesma. Você já namorou ou ficou bastante tempo com alguém?
Kaori respondeu que não por muito tempo.
Rafaela continuou:
— Quando você fica muito tempo com alguém, nunca sabe se continua porque vocês são amigos e parceiros ou porque ainda são um casal que realmente se ama. Da minha parte eu sei. Tenho certeza do que sinto. Mas da parte dele eu nunca vou saber.
Kaori perguntou se Thomás havia mudado ou se estava distante.
Rafaela respondeu que não. Pelo contrário, estava até mais carinhoso do que no começo.
Kaori realmente não enxergava motivo para ela pensar daquela forma. Disse que talvez aquilo fosse normal depois de tantos anos juntos.
As duas conversaram bastante.
Rafaela falou inclusive sobre a vida íntima do casal. Comentou que já não era mais a mesma pessoa por causa da medicação e que Thomás dizia não se importar com isso.
Kaori ficou com pena dela.
Rafaela parecia extremamente frágil, cheia de inseguranças, e ao mesmo tempo era uma pessoa muito boa.
Depois passaram no trabalho de Thomás porque ela precisava entregar uma coisa para ele.
Kaori apenas deu um "oi" de longe e ficou olhando as capinhas expostas na loja de celulares onde ele trabalhava.
Tudo parecia completamente normal.
Rafaela era tão legal que Kaori realmente queria ser amiga dela.
Depois conheceu a casa dela e descobriu que Rafaela morava apenas com o pai, porque a mãe tinha ido embora quando ela ainda era pequena.
Aos poucos, Kaori começou a entender melhor por que Rafaela era tão fragilizada emocionalmente e também por que passava tanto tempo na casa de Thomás.
À noite, Kaori jantou com o pai e Joyce.
Durante o jantar, o pai perguntou se ela estava conversando com a mãe.
Kaori respondeu que não.
Joyce levantou da mesa visivelmente incomodada.
O pai então disse que Kaori não devia dar ouvidos às loucuras da mãe.
Ela perguntou:
— Por quê? O que aconteceu?
Ele respondeu que a mãe tinha tratado Joyce muito m*l no restaurante.
Kaori perguntou, surpresa:
— Como assim? Por quê? Ela nem me falou nada!
Joyce respondeu que era melhor mudar de assunto.
Mas o pai insistiu:
— Não, amor. A Kaori tem que saber tudo o que está acontecendo. Filha, sua mãe não quer aceitar que temos uma vida sem ela. É isso. Ela não gostou do seu irmão ter vindo pra cá. Acho que ela quer todos nós afastados e brigando. Ela tratou a Joyce muito m*l lá essa semana. Sorte dela que a Joyce não quis reclamar para o dono do restaurante.
Kaori olhou para Joyce e perguntou:
— E o que você foi fazer justamente lá, Joyce? Com tanto lugar pra ir, resolveu ir justamente lá?
Joyce respondeu, ofendida, que não fazia ideia de que a mãe dela trabalhava lá e que tinha sido apenas uma coincidência.
O pai imediatamente saiu em defesa de Joyce e começou a diminuir a mãe de Kaori, dizendo que ela era apenas uma funcionária qualquer e que não tinha direito de tratar ninguém m*l por ciúmes.
Kaori levantou da mesa e respondeu que aquilo não era problema dela e que ainda ia acabar se atrasando.
Foi para o quarto começar a se arrumar.
Enquanto se trocava, ouviu os dois discutindo baixinho no quarto ao lado.
Tentou escutar melhor, mas só conseguiu entender Joyce dizendo que não queria que ele continuasse falando da mãe de Kaori daquele jeito.
Bibi passou para buscar Kaori junto com Diego. Os dois estavam se dando super bem e aquilo certamente acabaria virando um namoro. Foram para a balada e ficaram no balcão perto de Rafaela. Thomás não estava lá, porque tinha ido tocar em um barzinho.
Kaori ficou ansiosa esperando Felipe chegar, irmão de Cíntia. Quando deu o horário combinado, começou a pensar que ele não apareceria, afinal ele nem gostava muito de balada.
Bibi acabou se afastando com Diego para conversar com alguns amigos dele. Rafaela então se aproximou do balcão e foi falar com Kaori, perguntando se ela não iria beber alguma coisa. Kaori respirou fundo antes de responder:
— Não sei... Queria ter coragem de te falar tudo o que está acontecendo na minha vida. Tô triste hoje, bateu uma bad.
Rafaela se debruçou sobre o balcão para abraçá-la e respondeu:
— Que isso, gata. Você tá toda linda, em um lugar legal desse. Agora não dá mais, mas depois daqui você pode me falar o que quiser. Eu também sinto que as pessoas não vão entender meus problemas. É uma merda essa vida de adulto, né?
Kaori concordou com ela e comentou que iria para a casa da mãe. Rafaela respondeu que era bom ela tentar conversar, porque não era certo mãe e filha ficarem tanto tempo sem se falar, ainda mais sem um motivo realmente importante. Kaori então pediu que ela avisasse Bibi. As duas se despediram. Já eram quase vinte e duas horas.
Kaori saiu da balada mexendo no celular, parou em um canto do lado de fora e pediu um Uber. Em seguida, ligou para a mãe. Ela não atendeu e respondeu apenas por mensagem:
— Tô no trabalho ainda. Se for muito importante, liga de novo.
Super irritada, Kaori começou a reclamar baixinho sozinha que tudo aquilo já estava sendo demais para ela. Foi então que alguém se aproximou e perguntou:
— Oi... Você tá esperando alguém?
Sem nem olhar quem era, Kaori respondeu, fazendo pouco caso:
— Não.
O rapaz ficou um pouco sem graça e respondeu:
— Tudo bem. Eu ia encontrar uma pessoa aqui hoje. Me atrasei e a moça lá dentro disse que ela provavelmente estaria aqui fora, de vestido preto, cabelo solto e tênis. Acho que ela já foi embora.
Kaori respondeu séria, ainda mexendo no celular:
— É bem provável... Já que você se atrasou, né? Tem gente que não gosta de esperar.
Ele pediu desculpas olhando para ela e acabou sorrindo sozinho, meio sem jeito. Kaori precisou se segurar para não rir.
Então respondeu:
— Tô esperando o Uber. Tenho que ir, encontrar minha mãe.
Ele disse que esperaria com ela, porque era o mínimo que podia fazer depois de tê-la deixado esperando quarenta minutos. Kaori sorriu discretamente e balançou a cabeça negativamente, ficando um pouco envergonhada ao perceber que ele já sabia quem ela era.
Ela perguntou:
— Você não quer voltar lá pra dentro?
Ele respondeu imediatamente:
— Com você?
Kaori explicou:
— Não... Sozinho.
Ele sorriu e respondeu que só tinha ido até ali para conhecer ela mesmo e que nem tinha o costume de frequentar aquele tipo de lugar.
Kaori permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Então ele perguntou:
— Você vai pra casa?
Ela respondeu que sim.
Ele perguntou:
— Posso te levar? De Uber... ou caminhando.
Kaori olhou para ele rindo e perguntou:
— Como vou saber se posso confiar em você?
Felipe sorriu daquele jeito tímido e respondeu:
— Não pode. Na verdade, eu nem recomendo.
Kaori acabou rindo.
Ela comentou que a casa da mãe não ficava muito longe, mas que precisaria cancelar o Uber. Felipe perguntou quanto custava o cancelamento. Ela respondeu o valor. Sem pensar duas vezes, ele abriu a carteira, tirou uma nota e entregou para ela.
Kaori respondeu:
— Não precisa.
Ele insistiu:
— É só uma gentileza... Pra compensar o atraso.
Ela acabou aceitando o dinheiro e os dois começaram a caminhar lado a lado.
Durante o caminho, Felipe explicou que tinha saído tarde de casa por causa das visitas da família. Depois perguntou se ela realmente não queria mais voltar para o lugar onde haviam marcado o encontro.
Kaori respondeu que não.
Ele sorriu e comentou:
— Ainda bem. Lá dentro não ia dar pra conversar direito.
Enquanto caminhavam, Kaori percebeu que ele era um rapaz um pouco tímido, engraçado e bem educado.
Ela então perguntou por que ele não estava usando a camiseta da cor que tinham combinado.
Felipe levou a mão à própria roupa, sorriu sem graça e respondeu:
— Eu esqueci. Às vezes sou meio desligado... Desculpa de novo.
Ele olhou rapidamente para Kaori e completou, um pouco envergonhado:
— Seu vestido é bonito... Quer dizer... Ficou bonito em você. Tem esses negocinhos brilhantes.